Ciro Fabres: velhas tardes, velhos dias - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião26/04/2017 | 13h54Atualizada em 26/04/2017 | 13h56

Ciro Fabres: velhas tardes, velhos dias

Distrair-se era dar asas à imaginação. Minha cuidadora só monitorava os excessos

As tardes transcorriam arrastadas naqueles dias. Uma empregada doméstica, na prática uma integrante da família, cuidava de mim enquanto o pai e a mãe trabalhavam. Mas eram longas aquelas tardes, e era preciso bolar a ocupação. Primeiro, o dever de casa, o estudo, que eu fazia por conta. Mas sobrava muito tempo. Meu pai havia providenciado uma mesa de futebol de botão, que eu jogava com tampinhas de refrigerante juntadas nos quiosques e armazéns ou encontradas extraviadas nas calçadas da cidade. Conseguira formar 16 times e, com eles, simulava disputas de Copa do Mundo, que àquela época, da primeira Copa no México, reunia apenas 16 seleções. Mas ainda sobrava tempo. Lia livros, sim, havia iniciado a coleção de Monteiro Lobato, que depois reli cada livro outras 10 vezes, junto com os dois mais famosos de Mark Twain – Tom Sawyer e Huckleberry Finn. Pouco depois, retornava aos jogos de futebol. As partidas eram disputadas dentro de casa. Um dos gols era a porta da sala. O outro, ficava entre o armário e o fogão, na cozinha, na outra extremidade. E lá saía eu a chutar e a correr atrás da bola dentro de casa, em partidas imaginárias. Uma vez, por óbvio, quebrei o vidro da cristaleira.

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A televisão era novidade recente, mas a programação do único canal que "pegava", a TV Piratini, canal 5, só começava as cinco e meia da tarde. O aparelho era um Semp, que ainda não era Toshiba, uma caixa de madeira cheia de tubos. E um canal só. Celular, tevê com 150 canais, internet, rede social, aplicativo, WhatsApp nem na ficção científica, muito popular à época, aliás. Baleia azul só no mar, ou nas revistas.

Assim, distrair-se era dar asas à imaginação. Minha cuidadora só monitorava os excessos. E passava as tardes com o rádio ligado. FM nem pensar. O aparelho era uma caixa de abelhas que emitia um som ruidoso. Mas tocava música. E foi assim que aprendi a gostar de música, a decorar as letras, a cantarolar, a reconhecer na música a expressão artística que mais me emociona. Devo isso a minha cuidadora. Os programas verspertinos, lembro bem, eram nos moldes do "peça, ofereça e ouça". Ouvintes solicitavam músicas por cartinhas e as ofereciam a pessoas especiais. Então, aquele rádio ficava tocando música a tarde inteira: Ronnie Von, Wanderley Cardoso, Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo, Clara Nunes, Martinha, Wanderléa. E Jerry Adriani. Músicas inesquecíveis, as primeiras músicas.

Quando Jerry Adriani se vai, além do músico lendário que se perde, é um passado adormecido em mim que se remexe. O passado é um depósito cheio de quinquilharias e relíquias empoeiradas.

 
 

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