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História02/08/2018 | 06h00Atualizada em 02/08/2018 | 10h12

Memorial Atelier Zambelli, de Caxias, se perde em meio as goteiras

Em 20 de agosto, completa um ano do fechamento para reforma que nunca ocorreu

Memorial Atelier Zambelli, de Caxias, se perde em meio as goteiras Lucas Amorelli/Agencia RBS
Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

É em meio a uma goteira e outra, mofo e muita, mas muita, umidade que as mais de mil peças do acervo de arte sacra do município se deterioram dia após dia no Memorial Atelier Zambelli, instalado no subsolo do monumento Jesus Terceiro Milênio. No dia 20 deste mês, completa-se um ano do fechamento do local para uma reforma estrutural que nunca se realizou. Na época, o motivo já era uma infiltração recorrente na laje que serve de teto para o memorial. De lá para cá, a situação só piorou.

Segundo quem entende da conservação das imagens, todas foram atingidas em diferentes graus de comprometimento. Isso porque o material que é a base da composição das peças, o gesso, se deteriora em contato com a umidade do ar. Especialista em conservação e restauro, o frei Celso Bordignon, diretor do Museu dos Capuchinhos, caracteriza como grave a situação do acervo:

— Estão expostas à umidade provocada pela infiltração de água que existe desde sempre lá. O gesso absorve muito a água e a umidade, o que causa sérios problemas de deterioração e proliferação de fungos. É lamentável. Aquilo lá é fabuloso. É um diferencial para os turistas verem. Deveria estar sempre aberto, com todas as condições.

Quando o memorial foi fechado, em agosto de 2017, havia a projeção de que a reforma ocorresse até outubro daquele ano. Diante da previsão, naquele momento, a equipe da Diretoria de Museus de Caxias entendeu que remover o acervo para outro local seria mais danoso às peças do que mantê-las por lá. A ideia era que elas fossem agrupadas em um lado da sala enquanto o outro estivesse sendo recuperado e, depois, passadas para a parte pronta para dar início ao trabalho na outro lado. Porém, o cronograma não se confirmou e a obra não saiu. E as peças avançaram no processo de degradação. Atualmente, pode-se dizer que o dilema é o mesmo: retirar ou não o acervo do local. Para Bordignon, "remover é sempre um problema". Antes de decidir, é preciso avaliar as peças e pensar onde colocá-las, explica o frei.

Manutenção quinzenal

Foto: Lucas Amorelli / Agência RBS

Outro impasse é quanto a quem cabe a responsabilidade de preservar o acervo. A empresa Festa da Uva S.A. é a dona do prédio onde fica o memorial _ nos Pavilhões _ e dispôs de 80% do dinheiro usado na compra das peças. Os demais 20% vieram do município. 

A empresa diz que fará a obra e que a prefeitura é responsável pela manutenção das imagens. A situação é confirmada pela diretora de Museus da Secretaria de Cultura de Caxias, Daniela Fraga. Regularmente, uma equipe vai ao memorial, faz a higienização das peças e as movimenta, quando necessário, de um ponto a outro da sala, para evitar que sejam atingidas diretamente pelas goteiras. 

— A manutenção acontece quinzenalmente (no próprio local), realizando higienização mecânica, reorganização da salvaguarda de objetos em embalagem adequada, retirada do excesso de água (de baldes colocados pelo espaço) e deslocamento interno de peças conforme a necessidade _ explica.

Contudo, em todo esse tempo em que o acervo está em um local inadequado, não houve investimento na preservação nem por parte da empresa (cuja maior parte do capital pertence ao município) nem pelo poder público. 

— Pode ter danos irreversíveis. Tudo que não pode ter para um acervo em gesso, está inadequado lá. Depois que estiverem infectadas por fungos e impregnadas de água (as peças), para fazê-las voltarem ao estado normal, secas e sólidas, vai demorar muito — pondera o frei Celso Bordignon.

Com recurso, falta definir empresa para executar a obra

Foto: Lucas Amorelli / Agência RBS

Conforme o restaurador frei Celso Bordignon, nenhuma medida que pudesse ser adotada, como a colocação de um desumidificador de ambientes, por exemplo, minimizaria os danos ao acervo do Museu Zambelli:

— O problema lá são as goteiras. É muito mais grave do que simplesmente um ambiente úmido.

De acordo com Milton Tadei, diretor de Infraestrutura da Festa da Uva, a solução definitiva está mesmo em uma grande obra estrutural. Segundo Tadei, três empresas já avaliaram o lugar e deram pareceres diferentes. Por isso, a empresa estaria aguardando a Secretaria de Planejamento (Seplan) para elaborar um termo de referência com as especificações do que é necessário fazer para resolver definitivamente o problema.

Só que para que isso, é preciso um parecer da Procuradoria-Geral do Município (PGM) aprovando que a Seplan atue em um empreendimento privado, como o prédio da Festa da Uva S.A. O órgão está analisando o caso. 

Dependendo do valor orçado, a obra poderá ser feita com dispensa de licitação, o que seria mais rápido, ou ainda terá de esperar por um processo licitatório, que leva, em média 90 dias, sem contar recursos de empresas concorrentes. A verba para a obra, segundo Tadei, foi garantida com a destinação de R$ 1,5 milhão por parte da prefeitura para a Festa da Uva S.A. em março deste ano.

— Achávamos que em seis, sete meses iríamos conseguir fazer tudo, mas, infelizmente, é tudo muito demorado _ declarou Tadei.

Segundo a Festa da Uva, o problema de infiltração ocorre há pelo menos nove anos.

— Se fizer uma semana sem chover, de sol, e entrar lá, estará pingando ainda, porque a laje já está encharcada. Também precisamos ter a preocupação para ver se não afetou a parte estrutural. Não é uma simples impermeabilização. Existe sim a preocupação da Secretaria de Cultura com o acervo. Na questão da reforma, precisamos fazer uma coisa duradoura. Infelizmente, está demorando mais do que esperávamos _ disse Fabrício Lorandi, gerente comercial da Festa da Uva S.A.

A nova previsão é que o memorial seja reaberto para a Festa da Uva, em fevereiro do ano que vem. Por enquanto, caxienses e turistas que vão ao local _ um ponto a mais de visitação e cultura da cidade _ encontram as portas cerradas. 

A HISTÓRIA

Sobre Michelangelo Zambelli

:: Filho do imigrante Tarquínio Zambelli, o escultor Michelangelo, nascido na Itália em 1883, foi o que teve atuação mais intensa na cidade e na região de colonização italiana.

:: Após uma temporada em Buenos Aires, onde participou da decoração do Teatro Colón, fundou, em 1915, o Atelier de Escultura Michelangelo Zambelli & Cia Ltda, localizado na Avenida Júlio de Castilhos, 815.

:: A notoriedade e o reconhecimento foram imediatos: o cuidadoso acabamento artesanal, a pintura à mão e o requinte eram marcas registradas das peças, que passaram a ser obrigatórias na decoração de capelas, igrejas e residências.

:: Após a morte de Michelangelo, em 1949, a esposa, Adelina Stangherlin Zambelli, assumiu a direção do negócio, juntamente com o sócio Nilo Tomasi. A produção seguiu até o início dos anos 2000, quando o velho casarão de madeira começou a sofrer com a degradação física.

:: Passado um período de indefinições, entre 2002 e 2004, parte do acervo remanescente foi adquirido pela Festa da Uva, com suporte técnico e artístico do Departamento de Memória e Patrimônio Cultural, da Secretaria Municipal da Cultura.

:: Catalogadas e recuperadas, as cerca de 100 esculturas e os 900 casulos protetores, usados nas reproduções em série, foram levados para o subsolo do Monumento Jesus Terceiro Milênio.

:: O Memorial Atelier Zambelli foi inaugurado em dezembro de 2004 e fechado para reforma em 20 de agosto de 2017.

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