Comissão estuda viabilidade da Festa da Uva de Caxias em 2018 - Geral - Pioneiro

Exclusivo09/03/2017 | 09h05Atualizada em 09/03/2017 | 15h13

Comissão estuda viabilidade da Festa da Uva de Caxias em 2018

Sandra Mioranza Randon fala sobre perspectivas e dificuldades para realizar o maior evento da cidade

Comissão estuda viabilidade da Festa da Uva de Caxias em 2018 Diogo Sallaberry / Agência RBS/Agência RBS
Sandra Maria Mioranza Randon disse que foi a família que a apoiou para aceitar o convite feito por Guerra Foto: Diogo Sallaberry / Agência RBS / Agência RBS
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

A fala pausada e o sorriso fácil fazem contraponto à dureza do desafio que a psicóloga Sandra Maria Mioranza Randon, 42 anos, assumiu desde que aceitou o convite do prefeito Daniel Guerra para ser a primeira mulher a presidir a Comissão Comunitária da Festa da Uva. Com formação em psicanálise, voluntária na Cruz Vermelha, vivência de dois anos e meio no Exterior, curso de chef numa unidade da Le Cordon Bleu, mãe de três filhos e mulher de um empresário de um dos principais clãs empreendedores do país, está acostumada a desdobrar-se em múltiplas funções.

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Foi a família — a quem decidiu dedicar-se integralmente depois do nascimento de Francesco, seis anos, Marco Antônio, oito, e Maria Eduarda, 10 —, que a apoiou para aceitar o convite feito por Guerra, amigo próximo e de longa data.

— Quando ele me convidou, perguntei por que eu, sabendo que existe tanta gente qualificada. Ele disse que, hoje, o que espera, é que a Festa da Uva não seja técnica, seja emoção. Ele também sabia que eu não era envolvida com partido político, não tinha a obrigação de exigir um salário, porque esse é um trabalho 100% voluntário — conta.

Para Sandra, Festa da Uva remete à infância. Embora tenha nascido em Caxias, frequentou o interior porque os avós eram agricultores e cultivavam uvas. Ao evocar essas memórias, carrega também a responsabilidade de estar à frente do evento, cheio de referências à história pessoal dela. No presente, a Festa representa a possibilidade de transformação, não só da própria rotina, mas do cotidiano da cidade. Admite as dificuldades de se fazer a Festa da Uva em uma época de crise e não descarta a hipótese de ela precisar ser adiada para não perder sua grandiosidade.

— Sou uma mulher caxiense trabalhando por Caxias — diz.

Confira os principais trechos da entrevista concedida terça-feira, na Casa 4 dos Pavilhões.

A presidente admitiu dificuldades e disse que aposta na criatividade e planejamento para driblar a falta de recursos Foto: Diogo Sallaberry / Agência RBS

Pioneiro: Tendo uma ligação afetiva e, agora, estando à frente da Festa da Uva, como quer que ela seja?
Sandra Mioranza Randon:
Ainda estamos estudando. São 20 pessoas que preciso ter na equipe da comissão comunitária. Estou sentando com o prefeito, com o Fabrício (Tadeu Lorandi, diretor administrativo financeiro) e o Cleiton (De Bortoli, diretor comercial) para definir o perfil da comissão, o que buscamos. Gostaria que a festa fosse marcada por voltar a trazer o interior para os Pavilhões, de poder mostrar ao turista como se faz uma polenta... O desejo do prefeito é que a festa não seja político-partidária, que as pessoas que estejam aqui não venham porque votaram em alguém ou pela prefeitura. Elas devem trabalhar por Caxias, a festa é para todos.

Como tem sido a repercussão de que a prefeitura não vai bancar a festa? Que responsabilidade isso impõe à senhora?
A grandeza da Festa da Uva já fala por si só. Quando o prefeito colocou a par de que a prefeitura não vai entrar com recurso financeiro gerou uma polêmica inclusive para quem estava ali (na reunião). Qual é o objetivo dele querer que a Festa da Uva seja autossustentável? Porque ela tem capacidade para isso, e a prefeitura quer focar o dinheiro do contribuinte em questões que envolvam saúde, educação e segurança. A ideia do prefeito é que a gente crie uma estrutura, um planejamento para que depois que encerrar essa festa e for eleita uma nova presidente, ela tenha condições de tocar o negócio. Porque até então existia um certo planejamento, mas não é tão claro. Isso tem que ser documentado, é a base do que vai ser daqui para frente. Porque a gente não sabe o dia de amanhã. A crise que nos abate hoje, e vem nos abatendo desde o ano passado, que começou no ano retrasado, a gente não sabe até quando ela vai existir.

O quanto essa crise preocupa, já que terá que contar com apoio de quem vem sofrendo perdas sucessivas?
Falaste antes do papel do meu marido (Daniel Randon, vice-presidente de administração e finanças das empresas Randon). Esse será um papel bastante importante (na busca de recursos). Ele no papel de empresário, e a gente conversa muito sobre o que acontece no mundo,em Caxias e região... Fora o baque que as empresas tiveram com demissões em massa. A gente não pode querer fantasiar uma realidade que não existe. Vai ser difícil? Está sendo difícil para todo mundo. Mas aí é que está a grande eureka, usar a criatividade para novos projetos e parcerias, fazer um book da Festa da Uva.

A senhora está inserida em uma família que talvez facilite esse acesso aos recursos...
Isso também me ajuda muito. Sem dúvida, esse fator da família do meu esposo dá muita segurança para as pessoas. Sabem que não vou fazer mancada. Tive apoio grande do meu esposo, se não fosse a persistência dele, talvez não tivesse aceitado. Eu sei organizar pessoas, e a Festa da Uva precisa de pessoas que lutem por um ideal. Pretendo trabalhar com as secretarias de Turismo, Cultura, Educação e pensar no melhor projeto possível e que não seja estático (apenas no período da festa). Esse vai ser o período apoteótico, mas que durante o ano a gente quer que quem venha a Caxias consiga encontrar a um pouco da festa em algum lugar.

Que festa a senhora quer mostrar aos seus filhos?
A maioria do amigos deles não têm contato com interior. Vamos ter o interior aqui, mas temos que pensar num projeto, seja um app da festa, seja um jogo... Meu filho deu ideia de fazer um videogame da festa...Temos um grupo de pessoas estudando isso. Hoje, os empresários querem investir em algo que não dê só um retorno financeiro, mas que a marca fique ligada a uma coisa boa, que marcou um momento. O retorno não é só financeiro, mas social. A gente pode contribuir para que exista continuidade, que a festa seja grandiosa como sempre foi, mas possa deixar Caxias amparada na área do Turismo, não só durante a festa, mas todo ano. Espero ser a mulher que deixe esse resgate cultural e histórico, não só da uva, mas também da cidade.

Quais são as prioridades imediatas?
A prioridade é ter a equipe formada e o planejamento apresentado até o final de março. Com isso, temos o esqueleto da festa e começamos a preenchê-lo. O primeiro compromisso oficial é escolha das soberanas. Algumas pessoas dizem que, nesse momento, estamos atrasados. Depende do ponto de vista, porque estamos planejando.

Concorrer a rainha da Festa da Uva não é barato. Devido ao período econômico, como não deixar isso comprometer a festa?
Com criatividade. É o que buscamos, justamente para não imaginar uma realidade que não existe, de que as entidades têm condições de gastar uma fortuna numa candidata, porque não têm. Tenho escutado que o investimento é de R$ 15 mil a 30 mil e isso está fora da realidade. Como podemos fazer que esse custo reduza, sem comprometer brilho da festa e sem que as candidatas se sintam menosprezadas porque não têm dinheiro para gastar? Já me questionaram também se vai ter Festa da Uva o ano que vem ou não. Eu não sei também, estamos colocando tudo no papel.

Existe a possibilidade da próxima edição da Festa da Uva não existir?
Existe! A gente nunca pode dizer que não, isso não vai acontecer, porque não é verdade. Não sabemos o dia de amanhã. Tenho uma visão de que a gente tem que trabalhar com aquilo que tem na mão, nunca pode contar com o ovo antes de a galinha por, como diria minha avó. A gente tem que ter consciência de onde está pisando, o patrocínio que vamos ter, o que vamos buscar de leis de incentivo. Não vejo a realidade da festa custando R$ 16,5 milhões (como na edição passada).

Se não conseguir angariar recursos, como vai ser?
Essa delicadeza do momento que a gente vive, a cobrança se vai ou não ter festa, ficou vinculada à minha pessoa e, justamente por isso, o prefeito me colocou nesse lugar: por eu ter essa tranquilidade, de dizer 'olha, gente, se não dá, não dá'. A gente não pode forçar e cair na consequência de fazer uma coisa ruim, marcar uma revolução ou novo pensamento de festa como errado, desconstrutivo, que não deu certo. Sou muito pé no chão e é essa questão que eu vou defender. A Fenavinho (em Bento Gonçalves) foi cancelada e soube por uma pessoa de Farroupilha que a Fenakiwi possivelmente também será. Então, não posso negar o que está acontecendo ao meu redor. Se eles estão vendo isso, precisamos ver o que a gente não enxergou. (Se não houver festa) Vai ser difícil, claro que vai. Já pensou daqui a um mês, no final de março, eu divulgar à imprensa que não vai existir Festa da Uva por isso, isso e isso? Vou me sentir como Jesus, apedrejada, mas é pelo bem maior, não é por vaidade. Não é ¿já que não tem o dinheiro da prefeitura não vai dar¿. Não, a gente não está nem cogitando essa possibilidade (de não haver a festa). A gente vê que o parque precisa de tantas melhorias... Como é que a gente vai trazer uma festa com algumas situações que não são as melhores nos Pavilhões?

Quando isso será decidido?
Até o final de março. A gente já tem muito papel levantado, numa equipe trabalhando firme. Quero dizer, sinceramente, se levantei uma polêmica dizendo que talvez não exista (a Festa da Uva em 2018) é para ser tranquilo, não de que ela não vai existir nunca mais. Em 93 não houve Festa da Uva. Essa é uma realidade que já aconteceu, vamos ser realistas. Não estamos sendo negativistas. Se a Festa da Uva não ocorrer é porque a gente precisa de um tempo maior para implementar tudo isso que a gente está imaginando. Não só pela questão financeira, mas como vamos chegar e o que vamos oferecer.

Sua fala sugere que a festa não vai ser realizada em 2018...
Não é isso. As pessoas têm de ser conscientes que essa pode ser uma realidade. Estamos trabalhando para fazer de tudo para que isso não exista, mas eu repito: a gente não sabe o amanhã. Claro, vai ser um baque para a sociedade, para Caxias. Para mim também será. Vai ser um baque para o Turismo, claro que vai. Mas, nesse grupo, já estamos bolando estratégias: se não vai ter Festa da Uva, o que podemos fazer?

E o que justificaria não ter a festa?
Justamente por estar no coração é que dói tanto. Não estou dizendo que não vai ter Festa da Uva no ano que vem. O que justificaria não existir é falta de patrocínio de alguém que abarque o mínimo que ela precisa – e é isso que estamos levantando. Qual é o mínimo para uma festa? Não existe esse dado. Segundo ponto é a baixa no turismo. Estamos vendo em outras cidades como a situação financeira influencia no corte pelas atividades de lazer. Outro seria justamente as melhorias no parque. Hoje os Pavilhões precisam de manutenção nos telhados, na fiação elétrica. Isso impede de existir a festa? Não, sozinho não, mas dá um peso de responsabilidade muito grande, tendo em vista o que aconteceu na última festa, que deu uma chuvarada e alagou um estande. Acho que é um erro que a gente tem que começar a analisar, aprender o que pode acontecer de bom e ruim. É a visão cautelosa que tenho. São os pontos que estamos mais de olho nesse momento. Temos a visão de quase todo caxiense, que não quer que a festa diminua. Imagina se ela poderá voltar a ser uma festa pequena? Vamos trazer menos shows? Aí, vai ficar marcada como a festa que diminuiu o brilho. Não é nosso objetivo. O objetivo meu e da comissão é dar cara nova para a Festa da Uva, a cara do planejamento, da organização.

 
 

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