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Opinião18/08/2020 | 07h00Atualizada em 18/08/2020 | 07h00

Adriana Antunes: generosidade

Amar-se e amar o outro como ele é, é uma espécie rara de generosidade

Generosidade é quando os olhos de quem nos olha, realmente nos vê. Percebe a nossa tristeza escondida num sorriso, ouve nossa fala com o coração do ouvido, estende os braços, nos enlaça, faz-se continente para nossa vida tão à deriva. Generosidade é quando o outro acolhe nossa indecisão, talvez meio contrariado, mas humano. Entende quando precisamos de silêncio, estamos cansados ou necessitamos, urgentemente, de uma delicadeza.

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Generosidade é quando percebemos que às vezes é preciso parar de tentar encontrar respostas, abrir mão do controle, ser mais fluido, mais poesia e menos discurso. É lembrar da pessoa que éramos há alguns anos e perceber que caminhamos, que já não somos mais aqueles. Se pudéssemos dizer para nós mesmos de dez anos atrás, que muito pouco realmente importa, faria diferença? Não sei se entenderíamos, afinal, compreensão de si mesmo é algo que só vem com o tempo, quando descobrimos que a vida não é cronológica, mas sim afetiva e plena de memórias boas e tristes. E que temos de nos virar com os próprios fantasmas. Talvez somente no fim consigamos ser gratos pelo início.

Generosidade é reconhecer que estar vivo é uma benção, ainda mais diante dos tempos que estamos presenciando. Que apesar da respiração ser áspera, do sorriso sair minguado, a coragem mantém-se acordada por dentro.

Generosidade é quando nos damos conta da nossa pequenez diante da natureza. É quando percebemos que em algum momento a tarde morre, as flores murcham, a onda quebra na areia. Então nasce uma estrela no céu, as flores seguram o sorriso até a primavera e as ondas se sucedem, nascem e morrem e que jamais poderemos amordaçar seu movimento. Não podemos impedir a mudança. Achamos que podemos na nossa miúda capacidade de ser. Mas a vida dança uma coreografia sábia e impermanente e precisamos aprender que se hoje estamos, o amanhã é uma incógnita.

Generosidade é quando você desenvolve gratidão por estar onde está. Não é o melhor lugar do mundo, não é o lugar dos seus mais preciosos sonhos, mas é o lugar que te ensina a ser mais humano e compreensivo. Que enquanto nos machucamos com a vida e com os outros, há os que nos curam, os que nos ensinam a tocar à diante, nos permitem aprender a amar melhor, que nos salvam da apatia. É tudo uma questão de gentileza e generosidade.

Se a história da tua vida não te agrada é preciso reescrevê-la. O roteiro só muda quando você assume a responsabilidade. Assim, devagarinho, vá enxugando os excessos, transformando as mágoas, tirando do trono a arrogância, idealizando menos, desmanchando as certezas, tecendo outras oportunidades, bagunçado a autoimagem, sem culpa ou reservas. O amor ajuda a simplificar a vida, nos aproxima do tamanho que realmente temos e faz lembrar quem somos. Amar-se e amar o outro como ele é, é uma espécie rara de generosidade. A flor não desabrocha quando eu quero ou porque tenho pressa. Ela se abre para o mundo somente quando pode.

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