Adriana Antunes: prece - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião04/08/2020 | 07h00Atualizada em 04/08/2020 | 07h00

Adriana Antunes: prece

Que nada nos tire a capacidade de se encantar com a vida, com o outro, com o animal, com a natureza

Que hoje nós consigamos ouvir como quem abraça e abraçar como quem sabe que um dia irá partir. Que descubramos um modo de deixar a vida um pouco mais leve. Que possamos estar no aqui e agora de modo mais consciente e de coração. Que as sombras projetadas por nós sobre nós mesmos e sobre os outros sirva também como parada para rever os próprios passos e não apenas como buracos sem fundo, onde caímos e nos machucamos. Que ninguém consiga roubar de nós a poesia de estar vivo e esperançando o amanhã. Que a paz que tanto desejamos possa ser construída mais a partir dos nossos gestos de entendimento do que de razão. Que possamos assim como as abelhas sintonizar numa frequência doce e amorosa, mesmo tendo de lidar com a vida árida e por vezes solitária. Que possamos ser fieis a nós mesmos e a tudo aquilo que nos é importante, sabendo que o material é fundamental, mas somente ele não nos salvará e nem nos fará morrer com consciência tranquila. Que possamos atravessar os momentos mais complicados de nossa existência tendo um colo, um ombro, uma mão para segurar e saber que não se está sozinho. Que possamos aprender a nos amar apesar de ser quem somos. Que saibamos que tudo é transitório nesta vida, o nome, o cargo, o dinheiro, a saúde, o título, o carro, a casa, o enredo, o corpo. Que tenhamos sabedoria para saber disso e não se revoltar. Que a memória das coisas boas vividas não se apague diante do trauma. Que as boas lembranças sejam pequenos paraísos para aconchegar a alma já tão machucada. Que consigamos crescer o suficiente para poder compartilhar o café da manhã quentinho e os sonhos com a pessoa que escolhemos ter do nosso lado. Que nossos pés possam tocar a areia molhada e respirarmos o ar do mar com responsabilidade e menos egoísmo. Que tenhamos a humildade de agradecer pelo fato de ter um chuveiro elétrico para tomar um banho quente depois de um dia difícil. Chuveiro elétrico é o maior luxo do nosso tempo. Que tenhamos a sensibilidade de se emocionar diante do cheiro do feijão bem temperado que nos chega lembrando que nossas fomes são saciadas. Que as folhas secas espalhadas pelo chão sejam nossas mestras para entender a fragilidade do tempo. Que possamos voltar a sorrir para um céu azul. Que nada nos tire a capacidade de se encantar com a vida, com o outro, com o animal, com a natureza.Quando sentei para escrever essa crônica, sentei cheia de pensamentos, alguns de indignação outros de raiva. Mas já estamos tão cheios de tanta desilusão, tristezas, raivas. Sofremos com as angústias de privação por conta da pandemia e com os desgovernos. Então fiz o que aprendi com meus pais e aqui compartilho. Uma prece para entender que quando tudo se abre algo se fecha e que para falar de poesia neste mundo que vivemos hoje, requer muita coragem. Todo dia.

Leia mais
Adriana Antunes: minhas amigas com mais de 70
Adriana Antunes: a caquistocracia e os Mutantes

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros