Gilmar Marcílio: começo, meio e fim - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião20/12/2019 | 07h00Atualizada em 20/12/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: começo, meio e fim

O acúmulo de experiências passou a ser uma espécie de credencial: que seja rápido, mas intenso

Tento recordar onde li esta frase. O que sei é que ela deve ter me impactado naquele momento, pois a anotei e ainda guardo na carteira. No papel que o tempo desbota, leio: “Não desista fácil, nem insista para sempre.” Vale para tudo na vida: trabalho, namoros e casamentos, amizades. Estamos imersos em um paradoxo, nestes tempos cada vez mais líquidos: tudo nos é oferecido, e por ser tão abundante, acabamos nos apegando a quase nada. Se não está funcionando, o caminho mais inteligente é optar pelo descarte, pois investir no duvidoso é sinônimo de não saber aproveitar a ocasião. O acúmulo de experiências passou a ser uma espécie de credencial: que seja rápido, mas intenso. Está fora de qualquer possibilidade cultivar a lentidão como qualidade. Ninguém mais tem paciência para se entregar a conta-gotas. Serve o exemplo: uma personagem da romancista Jane Austen, usufruindo seus dias no campo, tendo diante de si uma ou duas oportunidades de descobrir um parceiro amoroso, tinha todo cuidado para que isso desse certo. Cada fala ou gesto era estudado criteriosamente, pois representava o reacender da chama ou a desistência definitiva. Um comportamento assim reflete, acima de tudo, os códigos morais e sociais de uma época. Lá as interdições ditavam o tom das aproximações. Hoje tudo é possível e desejável. Nossa chance de ser feliz é muito maior. Se agirmos com parcimônia, no entanto.

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Paradoxalmente, vemos muitas pessoas se demorarem em contatos afetivos que já expiraram. Para os que analisam tal situação externamente, isso se torna óbvio, mas nem tanto aos que estão imersos emocionalmente. Teimam em encontrar alguma pulsação onde só há cinzas, restos. Você também deve conhecer casais que passam anos arrastando cadáveres, por assim dizer. Apegam-se ao que foi, sem serem capazes de criar com alegria um espaço para o novo, para o que está por vir. O fim já foi decretado pela própria natureza dos sentimentos, pois não costuma ser nosso destino construí-los para que durem eternamente. O que fazer numa situação dessas? Apegar-se a um santo, um terapeuta ou valer-se de alguém bondoso que nos empresta seu ouvido para que possamos desabafar? Talvez tudo isso e uma boa dose de bom senso. Sempre me pergunto: será que já está na hora de partir ou minha presença continua sendo desejada? Invisto em quem quero bem até quando me parece que há uma pequena probabilidade de ser prazeroso. Se os conflitos se assemelham a uma zona militarizada, é prudente começar a fazer as malas.

Que cada um de nós tenha a sabedoria de buscar o equilíbrio nesse assunto. Um olhar atento para o passado nos ajuda a compreender melhor para onde estamos nos conduzindo. Tudo que tem qualidade é eterno, infinito. Mesmo que dure menos que uma estação.

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