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Opinião10/07/2017 | 08h30Atualizada em 10/07/2017 | 08h30

Marcos Kirst: um centauro na manga

Anda difícil para os cidadãos deste sombrio século 21 acreditar em alguma coisa

Fica difícil escrever sobre centauros em plena vigência do século 21, uma vez que nós, cidadãos de nosso tempo, não acreditamos em centauros. Seria mais fácil (e plausível) fazê-lo se ainda estivéssemos mergulhados nas trevas supersticiosas da Idade Média, quando a maioria da população era iletrada e as fronteiras do mundo conhecido raramente se expandiam para além do perímetro das aldeias em que cada um carregava sua dura vida, monótona e descolorida. Naqueles tempos pesados, era crível haver terras rudes, além do horizonte, habitadas por gente exótica, falante de línguas indecifráveis, em meio a criaturas maravilhosas como os centauros, a fênix, o unicórnio, as sereias, os cíclopes, as salamandras, os silfos, dragões, harpias e sátiros. Entre outras.

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Não era necessário avistar um centauro para ter certeza de sua existência a partir de relatos oriundos dos viajantes ou dos versos cantados por menestréis errantes. Isso, naqueles tempos remotos. Hoje, precisamos ver para crer e, assim, os centauros já não encontram mais lugar para se assentar entre as coisas em cujo existir cremos e que moldam o cenário de nosso mundo aceitável. Mesmo assim, falaremos sobre centauros, nos quais não acreditamos. Os centauros são seres híbridos, formados pela metade de um homem e a metade de um cavalo. O torso, a cabeça, o tronco até o ventre compõem a parte humana da criatura, que se encaixa sobre o corpo de um cavalo, formando uma figura bizzara. Um ser com rosto, peito e braços humanos sobre quatro patas equinas é como resumiríamos, sem elegância, a morfologia de um centauro.

Os centauros habitavam as páginas dos bestiários, compilações que na antiguidade se dedicavam a elencar os seres extraordinários que povoavam terras distantes, a excitar a imaginação, alimentar os pesadelos e cultivar o terror entre as gentes. O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899- 1986) dedica atenção a ele em seu "O Livro dos Seres Imaginários", obra em que procura listar alguns dos "estranhos entes que a fantasia dos homens engendrou ao longo do tempo e do espaço". Borges apreciava atentar a questões como essa, apesar de também confessar sua falta de crença no centauro.

Por que, então, dispensar energia nos debruçando sobre uma criatura em cuja existência descremos e que, para nós, não faz o menor sentido? Ora, porque anda difícil para os cidadãos deste também sombrio século 21 acreditar em alguma coisa. Por via das dúvidas, talvez seja prudente guardar na manga algum centauro no qual se possa voltar urgentemente a crer, pois não?

 

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