André Costantin: A moral da bike - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião06/07/2017 | 08h00Atualizada em 06/07/2017 | 08h00

André Costantin: A moral da bike

Andar de bicicleta sempre será revolucionário

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Pelas ruas de Curitiba, vai um músico de bicicleta, barba e cabelos grisalhos ao vento, em alta voz. "Pra andar de bicicleta, tem que ter moral, tem que ter moral...". Esse é um dos hits panfletários do Plá. Assim mesmo, só assim: Plá.

Nasceu e foi batizado Ademir Antunes dos Santos, caboclo das misturas étnicas do vale do Alto Uruguai, nas divisas entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. Entre o trabalho da roça e o moinho do pai, Plá construiu a sua primeira bicicleta, feita de madeira. Nunca mais parou de voar. Ouviu Raul Seixas no rádio e se mandou para Curitiba ver o mundo. "Pelas ruas de Curitiba, eu vou andando, como se estivesse de asa delta..."

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Conhecemos Plá nas filmagens de uma série de documentários intitulada Vento Sul, que a TV Brasil vai passar neste ano. Fomos recebidos por ele em um bairro da capital paranaense. Nos fundos de casa, Plá construiu o que ele chama de suíte campestre. Pés descalços, fogo de chão, violão, livros, mate e um cão, Plá conta que seu nome veio do universo, como um toque, um Plá, um toque de despertar.

Plá cursou música na faculdade. Trabalhou com musicoterapia em hospital psiquiátrico. Viu que não seria um nada dentro do sistema. Decidiu então mostrar nas ruas a sua arte e a sua cara. Já gravou 58 discos. Virou patrimônio humano de Curitiba e outras capitais que amam a cultura da bicicleta. Antes de seguirmos para o centro, Plá nos apresenta Ventosa Esbelta, bike e musa. Fez música para ela: "vai Ventosa, me leva me leva, vai Ventosa..."

Em outro ponto de Curitiba, horário de pico, vejo um homem de terno e gravata pedalando sua bike, a caminho do escritório, do banco ou de alguma reunião de trabalho. Percebo que a mensagem de Plá contaminou o pensamento coletivo da bela metrópole dos pinhais. Penso com tristeza na minha cidade, sempre tão hostil às bicicletas.

Plá nos fala de uma moral da bike, talvez uma ideologia que resta neste triste tempo de um Brasil desértico de mentes e ideias. Andar de bicicleta sempre será revolucionário. Quem não guarda no relicário da vida o precioso instante em que pela primeira vez se equilibrou sobre duas rodas? Para andar de bicicleta se é um tanto criança, outro tanto vanguardista, pois é jogo, é desafio mental, é o corpo nos elementos da natureza. Bike é o ar em volta e dentro da gente, um anti ar-condicionado. Não há para-brisa nem o status da logomarca do carro. Plá tem razão, pra andar de bicicleta, tem que ter moral, tem que ter moral.

(Para ver um pouco do Plá em ação, teaser da série: www.transe.com.br/ventosul)

 

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