Mostra "Dodó e Zezé", de Renato Hofer, abre nesta quarta no Ordovás - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Exposição19/04/2017 | 07h00Atualizada em 19/04/2017 | 07h00

Mostra "Dodó e Zezé", de Renato Hofer, abre nesta quarta no Ordovás

Artista visual referencia o dramaturgo Samuel Beckett e o músico Tom Zé

Mostra "Dodó e Zezé", de Renato Hofer, abre nesta quarta no Ordovás Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Criações de Hofer interagem com livros espalhados pelo espaço, para que os visitantes possam sentar, apreciar a arte e ler Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS
Maristela Scheuer Deves
Maristela Scheuer Deves

maristela.deves@pioneiro.com

A noção de intertextualidade — em que uma obra sempre faz referência a outra, que a antecedeu — é um dos conceitos por trás da exposição Dodó e Zezé, que o artista visual paulista Renato Hofer abre nesta quarta-feira, na Galeria de Artes do Centro de Cultura Ordovás, em Caxias do Sul.

No próprio nome da mostra, os mais atentos já identificam uma das referências, a música homônima do cantor e compositor baiano Tom Zé. Mas não é só isso: ela remete, também, à peça Esperando Godot, do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, em que os personagens Vladimir (Didi) e Estragon (Gogo) filosofam sobre diversos temas enquanto esperam por alguém que nunca aparece.

— Quando ouvi a música, pensei que poderiam ser os personagens de Becket conversando sobre o mundo contemporâneo, urbano. Isso tem muito a ver com a nossa realidade, em que se quer atuar, mas sente-se cerceado pelas macroestruturas — explica Hofer.

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Montar uma exposição é uma forma de ir contra essa situação, e o artista, aproveita para propor uma reflexão sobre estruturas que estão aí e aceitamos com um padrão, sem questionamentos. O tempo é um exemplo: é o que de mais caro se tem hoje, mas quanto mais mecanismos se cria para economizá-lo, mais se gasta, diz Hofer:

— Na mostra, eu proponho um tempo estendido, um tempo do ócio, que é algo que a gente exercita cada vez menos.

Desenho é uma das técnicas pelas quais o artista reconstrói cenas do cotidiano, que por vezes passam despercebidas Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

O convite é para que o público use o espaço da exposição como se estivesse em sua própria casa: que entre sem pressa, sente-se a um canto, leia um pouco (sim, haverá livros espalhados por ali, além de textos fazendo parte das obras), aprecie, sinta. Isso porque, mais do que desenhos, gravuras em metal, esculturas, pintura e fotografia, Dodó e Zezé foi concebida com suas várias intervenções formando um todo, que só ganha significado — ou melhor, múltiplos significados — com a presença do espectador.

— Nesse espaço, o corpo é fundamental. A pessoa não vai só entrar e olhar, como se estivesse em um museu. Ela deve usar seu corpo, sentar no chão, olhar para cima, para o teto, para as paredes, o chão, e, se preciso, voltar outro dia — instrui.

Aliás, para garantir o melhor aproveitamento de sua obra, logo na entrada haverá um texto introdutório, que Hofer brinca ser um "manual para ver a exposição" — outra referência, desta vez ao escritor argentino Julio Cortázar e sua série de textos em que dá instruções para coisas cotidianas, como subir escadas e dar corda em relógios.

Também arquiteto, o artista transpõe para sua obras muito do que vê no cotidiano, como o sem -teto observado da janela (e que virou uma série de 24 desenhos, um para cada hora do dia) e a questão do abrigo, em suas diversas acepções. Embora na mostra ele referencie São Paulo, no dia 13 de maio coordenará uma "expedição" por Caxias, para provar algo ao público:

— O cotidiano é cheio de arte.

Essa é a primeira exposição de Hofer em Caxias, mas ele conta que já conhecia a região de visitas como turista, e que sempre desejou fazer um trabalho por aqui. Ele revela que está nos seus planos, embora sem data definida, passar um tempo na Serra e produzir algo que tenha a ver com as tradições e costumes locais.

"Lição de Anatomia"

Um dos destaques da mostra que abre esta semana no Ordovás é a reedição de outro projeto de Hofer, o Lição de Anatomia, em que ele desconstrói um casaco em uma centena de partes, "vendidas" aos interessados.

A partir disso, realiza uma investigação sobre a territorialização dos corpos, com resultados como o contato entre pessoas antes desconhecidas, mas que se t0rnam "vizinhas" de acordo com a parte da obra adquirida.

Interessados podem obter mais informações pelo e-mail travessiaurbana@gmail.com.

Desconstrução de um casaco, a partir da qual investiga a territorialização dos corpos, integra a obra "Lição de Anatomia" Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Agende-se
O que:
exposição Dodó e Zezé, de Renato Hofer
Quando: abertura nesta quarta-feira, às 19h, com performance do artista; visitação até 14 de maio, segunda a sexta-feira, das 9h às 22h, final de semana e feriados, das 16h às 22h
Onde: na Galeria de Artes do Centro de Cultura Ordovás (Rua Luiz Antunes, 312), em Caxias do Sul
Quanto: entrada franca

 
 

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