Usualmente, fico em dúvida quanto ao assunto de uma crônica. A realidade é fonte inesgotável e, diante da avalanche de assuntos, é corriqueiro examinar mais de uma possibilidade, mais de um caminho a seguir, e escolher. Não foi diferente agora. Estamos imersos até o pescoço nas delações dos ex-executivos da Odebrecht. Era o assunto da vez. Assunto de elevador, sugerem-me as conversas e percepções a respeito do tema, é assunto de crônica. É garantido. Isto é, aquele que está na boca das pessoas, capaz de preencher as frestas do cotidiano, quando, por momentos, a abstração e a quietude podem parecer sinais de distanciamento ou pouca disponibilidade. As delações da Odebrecht são assunto de elevador e, então, se oferecem a uma cronista. Inclusive, permitem reforçar uma tradicional recomendação: muita calma nesta hora. Mas isto é assunto para outra crônica.
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Portanto, há outros assuntos, quem sabe ainda melhores. O assunto inesperado, gratuito, no qual tropeçamos sem querer, que despenca a nossa frente, é um deles, e foi o que me ocorreu. A folhas tantas do jornal da segunda-feira, está lá a informação, extraviada, porém luminosa, na sempre rica seção Obituário: “Morre a última sobrevivente do Século 19”. Trata-se da italiana Emma Morana, aos 117 anos. A última representante de uma era. A partir de agora, não há mais ninguém na face da Terra com 117 anos ou mais. Assunto surpreendente, histórico. Diria espetacular. Assunto de crônica. Arrebatador. Milhares e milhares de pessoas nasceram e viveram no Século 19. Meu avô nasceu nos anos 1800. A Emma coube a honra de ser a última. Não sobrou mais ninguém para contar a história. Apagou-se a chama da presença humana, do testemunho. Os ecos do Século 19, definitivamente, não ecoam mais em ouvido algum. Que perda!
Com frequência, reflito e já consolidei esta conclusão: nasci fora do tempo. Nasci tarde demais, mas, enfim, o tempo de agora é o meu tempo, e cabe-me viver nele da melhor maneira possível, com minha melhor contribuição, acolhendo-o como bênção e privilégio. Mas esta é uma revelação: se me fosse dado escolher, gostaria de ter nascido antes. Pesa nesta preferência a imaginação de um tempo menos agitado e ruidoso, mais vagaroso, mais contemplativo, mais reflexivo, mais imaginoso, sem o celular e o WhatsApp a nos devorar. Havia mais guerras, antigamente, por certo, haverá quem lembre. Até escravidão. Mas os dias de hoje são tecidos em cima dos alinhavos, do conhecimento, dos erros e das experiências acumulados de outros séculos.
Os tempos de Emma Morana eram menos apressados. Isso é decisivo para sentir a vida, dar o melhor, para viver melhor.