Natalia Borges Polesso: mulheres e qualidades - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião18/04/2017 | 09h00Atualizada em 18/04/2017 | 15h38

Natalia Borges Polesso: mulheres e qualidades

"Ora, meu pequeníssimo homenzinho, qualidades não nos faltam"

Natalia Borges Polesso

nbpoless@gmail.com

Então tem a Maria que é um baita mulherão, desses que cria os 5 filhos sozinha porque o cretino do marido não presta pra nada. Se ela tem três qualidades? Meu filho, ela tem bem mais. E tem também umas unhas de agarrar bandido, salafrário e de deixar eles tudo em frangalhos, ainda mais se algum deles se mete com as filhas dela. A maria tem umas pernas de andar, sabe? E usa chinelo de dedo, porque andar de salto a pé, subindo e descendo morro, pegando ônibus, é dose.

Ah, tem a Cristina. A Cristina é outro baita mulherão. Ela saiu de casa aos 17 anos pra fazer faculdade na capital. Sozinha. Sabe o que ela tem: um cérebro maravilhoso, que deixa o pensamento bem afiadinho. É muito poder num apetrecho só. Aí quando ela sai de tênis e camisetão, sabe o que acontece: nada. O mundo não acaba. É maravilhoso. E ela pensa horrores sobre o mundo.

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E tem a Flávia! A Flávia é um baita mulherão, mesmo. Ela é enorme, espaçosa, beberrona, agitada. Quando ela tá nervosa, sai de perto, ela vira um bicho, e dá os melhores conselhos da vida gritando, porque a Flávia grita. O companheiro dela grita também e a casa é um show permanente do Pantera, um dia a Flávia teve que gritar um pouco mais grosso com o chefe abusador que ela tinha e foi assim que todas as mulheres do escritório passaram a ter uma vida menos sufocante. Que bom, né?

Ia esquecendo da Ana, que há anos disse a todos que não ia mais se depilar e nem comprar roupas em lojas, disse que queria ser vegana e que para ela a vida fazia mais sentido com outros tipos de trocas. A Ana é a elegância em pessoa e vive com as unhas cheias de terra, que aquilo é vida debaixo das unhas. É vida mesmo. A Ana é linda, um baita mulherão, com pelos, veja só.

A Vanda é outro baita mulherão. Ela só usa preto, faz 40 anos que só usa preto. Desde o acidente que teve, no qual perdeu a perna. Mas não é luto, é só estilo, diz a Vanda, enquanto fuma seu cigarro apagado. A Wanda sempre tem vários livros na bolsa, da última vez era Mulheres, raça e classe, da Angela Davis, tinha também um da Chimamanda e Outros jeitos de usar a boca, da Rupi Kaur.

E tem a Joana, que cozinha bem pra caramba. Ela é um baita mulherão.

Três qualidades? Ora, meu pequeníssimo homenzinho, qualidades não nos faltam. Acho falta você aprender alguma coisa sobre a vida e, fundamentalmente, sobre as mulheres (e sobre não enviar textos sem reler criticamente).

 

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