Ciro Fabres: retrato de família - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião23/11/2016 | 09h00Atualizada em 23/11/2016 | 09h00

Ciro Fabres: retrato de família

A parede rasgada revelava agora as entranhas da moradia, alguns poucos móveis da casa 304

Só faltou o retrato de família pendente na parede, depois que uma motosserra começou a rasgar a primeira residência no loteamento Vila Amélia, uma casa pré-fabricada de madeira, que poucos minutos antes estava intacta e bem cuidada. Talvez estivesse em outra peça o retrato de família, ou isso já nem é mais importante, um retrato como aqueles que havia na casa de nossos avós. Ou desses menos solenes, mas guarnecidos por alguma moldura mais moderna, expostos com um certo e justificado orgulho. Também as relações costumam ser mais rápidas hoje em dia, às vezes nem dá tempo de providenciar. São os tempos.

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Pois os moradores da pequena residência, um casal de trabalhadores, um azulejista e uma auxiliar de cozinha, foram testemunhar a demolição. Uma triste e dolorida experiência. Quem não passa por ela não tem condições de imaginar o tamanho do golpe, as paredes que um dia foram planejadas e erguidas agora postas abaixo diante dos olhos. Foi o desfecho, na segunda-feira, de um processo de reintegração de posse começado em 2008. A casa perdeu uma faixa de 1 metro e 25 centímetros que estava sobre área particular. A parede rasgada revelava agora as entranhas da moradia simples, alguns poucos móveis da casa 304.

- Vou tirar um pedaço e seguir morando – desabafou o azulejista.

Vai ser necessário um admirável improviso, desses a que os brasileiros estão acostumados. O mundo anda muito agitado neste momento. Donald Trump elegeu-se nos Estados Unidos, Daniel Guerra e Jorge Dória pelo lado de cá. O pessoal está até aqui com a política, o que é um estrondoso equívoco, pois sem política – a boa política – não há salvação. O Natal se aproxima, as redes sociais estão repletas de preconceito. No Estado de São Paulo, a cada hora, ocorre um crime de intolerância. Não é de estranhar. Entre nós, aqui em Caxias, nunca se matou tanto. Agora, trocou o governo, mas os privilégios e a corrupção estão aí, e os governantes seguem a jogar o sacrifício para cima do povo. Veja Sartori, veja a PEC do Teto. O povo vai pagar a conta outra vez.

No meio disso tudo, a motosserra rasgou a parede da casa 304, sob o olhar impotente dos moradores. É um episódio emblemático de nossas mazelas sociais, ali no Vila Amélia. O retrato de família, pelo menos, não ficou a pender da parede, como um símbolo. Mas por que se deixa, as pessoas e os governos, os conflitos chegarem onde chegam, com perdas para todo mundo? Por que não são desarmados antes, com boa conversa e algum entendimento?

 
 

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