Marcadas pelo fogo: em um ano, quatro mulheres vítimas da violência tiveram corpos queimados em Vacaria - Polícia - Pioneiro
 

Brutalidade13/01/2018 | 07h00Atualizada em 14/01/2018 | 20h09

Marcadas pelo fogo: em um ano, quatro mulheres vítimas da violência tiveram corpos queimados em Vacaria

Polícia e Coordenadoria da Mulher não têm uma explicação do porquê o fogo esteja sendo usado como instrumento de violência contra a mulher no município

Marcadas pelo fogo: em um ano, quatro mulheres vítimas da violência tiveram corpos queimados em Vacaria Roni Rigon/Agencia RBS
Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

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As queimaduras estão nas mãos, braços, colo e pescoço. Mas as marcas mais profundas ficaram na memória e no coração. Maria, 36 anos, teve 30% do corpo queimado durante uma discussão com o então companheiro, de 31, em novembro do ano passado. À época, ela estava grávida de oito meses. Teve de fazer uma cesariana às pressas para garantir a saúde do filho. Aos poucos, recupera-se e tenta reconstruir a vida com as limitações que os ferimentos lhe impõem. O nome é fictício e a identidade dela não será divulgada para preservar a vítima e o bebê. Maria é uma das quatro mulheres queimadas pelos próprios companheiros no período de um ano em Vacaria, município do nordeste do Estado, distante 112 quilômetros de Caxias do Sul. 

O primeiro caso aconteceu em 22 de janeiro de 2017. Segundo a Polícia Civil, proporcionalmente à população - 65.397 habitantes, conforme estimativa do IBGE para 2017 -, a cidade sempre teve altos índices de violência contra a mulher. Mas aquela foi a primeira vez, na história recente da cidade, em que o fogo foi utilizado como meio para cometer a agressão. A vítima, que, na ocasião, tinha 18 anos, teve lesões em 80% do corpo.

Desde então, foram mais três ocorrências desse tipo. Elas se tornaram mais frequentes nos últimos quatro meses. De outubro de 2017 até janeiro deste ano, apenas dezembro não teve registros. O caso mais recente, neste mês, também foi o mais grave. A vítima, uma idosa de 67 anos, morreu, possivelmente, em decorrência das queimaduras.

Nem a polícia nem o serviço de atendimento da cidade, a Coordenadoria da Mulher, têm uma explicação do porquê o fogo esteja sendo usado como instrumento de violência contra a mulher no município. Mas, ambos concordam que, de forma geral, o estopim para os crimes é o consumo de bebidas alcoólicas ou o uso de drogas.

Maria também acredita que esse tenha sido o desencadeador dos acontecimentos na manhã daquele 8 de novembro. Ela e o companheiro haviam se conhecido há cerca de seis meses e resolvido morar juntos depois que ela engravidou. Ambos eram usuários de drogas. Naquela madrugada, tinham usado crack até por volta das 3h. Quando ela o chamou às 5h30min, ele não quis levantar para ir trabalhar. Teve início uma discussão. Ela insistiu, pegou um litro de álcool que tinha em casa e jogou em cima da cama. Ele se enfureceu e jogou parte do líquido nela. A partir desse ponto, as versões dos dois divergem. Mesmo assumindo parcela da culpa, Maria diz que ele teria acendido um isqueiro e ateado fogo nela. Já ele, em depoimento à polícia, disse que foi Maria quem acendeu o isqueiro para colocar fogo na cama, mas como estava molhada com o álcool, acabou se queimando. Depois, a sequência do relato volta a ser igual. O homem colocou a vítima no chuveiro e chamou a Guarda Municipal para socorrê-la.

Maria foi levada ao Hospital Nossa Senhora da Oliveira. Foi submetida a uma cesariana de urgência e, no dia seguinte, foi transferida para o Hospital de Pronto-Socorro (HPS) em Porto Alegre, onde ficou na Unidade de Tratamento-Intensivo (UTI) por três semanas. Nesse período, passou por duas cirurgias para limpeza e para colocação de enxertos de pele na área queimada. Passou por atendimento de assistência social e psicologia.

Todo o mês, ela volta ao HPS para monitorar a cicatrização. Na última segunda-feira, começou a fazer fisioterapia em Vacaria devido a dificuldade em mexer o pescoço. Ela também sente dificuldade para dormir em função do que aconteceu e, eventualmente, usa medicação. 

Todo o atendimento é feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A maior preocupação de Maria, agora, é retomar a guarda do filho, que já tem nome, mas ainda não foi registrado pela mãe. A criança nasceu saudável e está em um lar, até que a situação dela se resolva.

A cidade registrou ainda um feminicídio em que a vítima foi morta a tiros em maio do ano passado.

Polícia indiciou agressores por tentativa de feminicídio 

Apenas um dos casos envolvendo as mulheres queimadas, o último, está em andamento na Polícia Civil (leia mais no quadro). O suspeito deve ser indiciado por feminicídio, quando o crime é cometido por questões relacionadas à violência doméstica ou por discriminação à condição de ser mulher. Em outro, o suspeito se enforcou na sede da delegacia. E, em dois, os supostos autores foram indiciados por tentativa de feminicídio.

— Não dá para atribuir uma causa específica. Normalmente, as agressões ocorrem devido ao uso de bebida alcoólica ou de drogas pelos companheiros — disse o delegado Vitor Boff, titular do Posto da Mulher de Vacaria.

O último caso, em que a vítima morreu, segundo o delegado, é de um casal que estava junto há mais de 40 anos.

— Pelo que estamos colhendo de investigações, a mulher era vitimizada há muito tempo. Sofria pressões e agressões pelo companheiro, mas nunca foi denunciante. Até que chegou a este fato — lamentou o delegado.

A investigação descobriu histórico violento em nos outros três inquéritos. 

Para o delegado, o fato de a cidade receber muitas pessoas de fora, que vêm trabalhar na colheita da maçã e acabam ficando no município, gera uma série de impactos sociais, na habitação e na segurança pública. Porém, conforme Boff, não é possível associar esta população flutuante aos casos de violência doméstica. Dos suspeitos de atearem fogo nas mulheres, pelo menos dois eram naturais da cidade.

— Já tivemos outros casos de feminicídio e tentativa, mas esses foram os mais impactantes pela violência — declarou a inspetora Greice Soares Golin, inspetora do Posto da Mulher de Vacaria.

OS CASOS DE VACARIA

:: Em 22 de janeiro de 2017

Uma jovem de 18 anos teve 80% do corpo queimado após o companheiro jogar gasolina e atear fogo nela depois de uma desavença. Conforme a Polícia Civil, testemunhas apontaram o companheiro dela como o autor. Segundo eles, somente o casal estava dentro do quarto onde ocorreu o crime, na casa onde eles moravam. A vítima sofreu queimaduras por todo o corpo. Foi socorrida por um morador. A residência ficou completamente destruída.

  STÉFANI APARECIDA PEREIRA RIBEIRO, 18 anos, teve 80% do corpo queimado em vacaria. O companheiro teria ateado fogo nela.
Foto: Polícia Civil / Divulgação

À época, o suspeito, de 28 anos, fugiu do local. Ele possui antecedentes por sete roubos, sete furtos e duas tentativas de homicídio. Havia sido liberado pelo Instituto Penal de Passo Fundo para procurar emprego e fugiu para Vacaria, onde vivia com a jovem. Ele foi indiciado por tentativa de feminicídio. Atualmente, ele segue está preso em Passo Fundo. A vítima mudou de Vacaria.

:: Em 1 de outubro de 2017

Um homem de 30 anos estava em uma pensão com a companheira, de 31, em Vacaria, quando, após uma discussão, tentou matar a vítima com uma facada no pescoço e incendiou o quarto que ocupavam. O Corpo de Bombeiros controlou o incêndio e resgatou a vítima que teve 50% do corpo queimado. O suspeito também foi atingido pelas chamas e tentou buscar socorro no mesmo hospital em que a mulher estava, onde foi detido pela Brigada Militar. Ele já tinha antecedente por feminicídio. Em abril de 2016, foi preso por matar a ex-namorada a pedradas. Em agosto de 2017, teve a prisão preventiva revogada e aguardava o processo em liberdade, quando cometeu o novo crime. 

Mulher tem 50% do corpo queimado após tentativa de feminicídio em Vacaria. Autor do crime se enforcou na delegacia.
Foto: Polícia Civil / Divulgação

Conforme a polícia, a vítima havia descoberto o envolvimento do homem na morte da ex-companheira, o que motivou a discussão. Ele foi encaminhado para a delegacia e se enforcou com as ataduras das queimaduras.

:: Em 8 de novembro de 2017

Uma mulher de 36 anos e grávida de oito meses sofreu queimaduras de terceiro grau em 30% do corpo em Vacaria. A mulher relatou que, após uma discussão com o companheiro, de 31, pegou uma garrafa com álcool e jogou parte do líquido na cama. Em seguida, o companheiro jogou o restante no rosto dela. Há duas versões para o que se seguiu. Ela diz que o agressor pegou um isqueiro e ateou fogo nela. Ele falou, em depoimento à Polícia Civil, que foi ela quem acendeu o isqueiro para por fogo na cama e acabou se queimando, já que estava molhada com o líquido. Ele foi indiciado por tentativa de feminicídio e está preso. Ainda no dia do crime, ela passou por uma cesariana e deu à luz um menino. A criança passa bem, mas está afastada da mãe. A mulher está em tratamento. 

:: Em 7 de janeiro de 2018 

Uma mulher de 67 anos morreu após ter o corpo queimado em Vacaria. A vítima, Eva Djair Pereira Boeira, foi levada ao Hospital Nossa Senhora da Oliveira pelo marido, José Euri Fernandes Boeira, 69. Ele teria dito à equipe do hospital que pegaria uns documentos em casa, mas não teria retornado. A instituição acionou a Brigada Militar que, junto com a Polícia Civil, foi à residência onde o casal morava. O homem disse à polícia que havia ido ao sítio e quando retornou teria encontrado a mulher caída junto a um poço desativado na casa e que a levou ao hospital. Na casa, os policiais encontraram dois galões de gasolina e um litro de álcool. O marido é considerado suspeito de ter ateado fogo contra a mulher. Ele foi preso em flagrante e encaminhado ao Presídio de Vacaria, mas, atualmente, está em liberdade. Eva morreu cerca de duas depois de dar entrada no hospital. O corpo foi encaminhado à necropsia. Provavelmente, ela tenha morrido em decorrência das queimaduras. O Posto da Mulher de Vacaria aguarda o laudo da necropsia para atestar, de forma definitiva, a causa da morte.

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