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Violência no trânsito21/10/2019 | 18h22Atualizada em 21/10/2019 | 18h33

De cada 16 pessoas flagradas sem habilitação em Caxias do Sul, uma é adolescente

Constatação parte da comparação de números da fiscalização de trânsito de janeiro a setembro com procedimentos instaurados na Polícia Civil 

De cada 16 pessoas flagradas sem habilitação em Caxias do Sul, uma é adolescente Nelci Neuri Piicinini / Acervo pessoal/Acervo pessoal
Acidente ocorreu na madrugada de sábado (19) para domingo (20) Foto: Nelci Neuri Piicinini / Acervo pessoal / Acervo pessoal

O acidente de trânsito que matou mãe e filho em Caxias do Sul, na madrugada de domingo, é uma prova trágica de que adolescentes continuam dirigindo veículos sem medo da fiscalização e ignorando as consequências. Uma percepção dos agentes de segurança mostra um indicativo igualmente alarmante: os pais aparentam estar mais preocupados com as multas e o destino dos carros do que com os riscos dos filhos ao volante. 

De acordo com a Polícia Civil, neste ano foram apurados 31 atos infracionais de adolescentes que conduziam veículos em Caxias. Considerando os 519 motoristas não habilitados flagrados pela fiscalização de Trânsito de janeiro a setembro, é um menor de idade conduzindo carro ou moto para cada 16 pessoas abordadas sem habilitação. O número certamente é muito maior, uma vez que boa parte escapa das blitze. 

O adolescente de 17 anos envolvido no acidente que resultou na morte de mãe e filho conduzia um Ka que colidiu com o Gol onde estavam Fernanda Xavier Sosso, 33 anos, e do filho dela, Otavio Xavier Ceconi, dois, no cruzamento da Rua Bortolo Zani com a Avenida França, no Bela Vista. A mulher morreu na hora e a criança morreu a caminho para o hospital. Do acidente, restaram feridos Júlio Ceconi, 36, marido de Fernanda e pai de Otavio, e Kauã Xavier Cassânego, 14, filho de Fernanda e enteado de Júlio. Até o final da tarde desta segunda-feira (21), Ceconi continuava em estado grave na UTI do Hospital Pompéia. Kauã recebeu alta. 

O adolescente de 17 anos permanece internado no Centro de Atendimento Socioeducativo (Case). Um exame clínico comprovou a embriaguez dele, segundo a polícia.

Além da constatação relativa a esse caso, a polícia identificou, na tarde de domingo, um menino de 11 anos e um adolescente de 17 pilotando motos em bairros diferentes da cidade. Segundo o delegado Caio Márcio Fernandes, essa triste imprudência não causaria espanto aos envolvidos. 

— (Os menores de idade) acham normal, que é rotina. Sabem que não podem, mas "não veem problema". O que chama atenção é que as outras pessoas (envolvidas) ficam mais preocupados com o veículo, sobre as multas, o guincho e liberação do automóvel, do que um adolescente não habilitado estar dirigindo — aponta o chefe da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

Conforme os dados da Polícia Civil, a maioria pega os veículos sem o conhecimento dos pais. Os responsáveis que autorizam os menores de idade a dirigir, respondem um termo circunstanciado conforme o artigo 310 do Código Brasileiro de Trânsito (CTB).

— Vejo a situação de Caxias com muita preocupação. Foi a primeira cidade para onde levamos o Vida Urgente e estamos retrocedendo. Ora, nossos filhos têm que aprender a dirigir num centro de formação. Há um afrouxamento dos pais, as famílias estão muito permissivas. E não adianta as autoridades virem com uma campanha em véspera de feriado. Está faltando é um processo educativo que começa na escola infantil _ critica Diza Gonzaga, diretora institucional do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e fundadora da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga.

Família de adolescente infrator prefere não se manifestar

A reportagem tentou contato com a família do adolescente envolvido no acidente fatal no bairro Bela Vista, mas não teve retorno. O advogado de defesa informou que, neste momento, eles não pretendem se manifestar, mas que esclarecimento deve acontecer ao longo do processo. O defensor pediu para não ser identificado "em razão do clamor popular que já condenou o menino".

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"Estamos discutindo novas estratégias", diz secretário

Para o secretário municipal de Trânsito, Cristiano de Abreu Soares, é muito grave o envolvimento de adolescentes em acidentes ou infrações de trânsito. Segundo o secretário, a comunidade pede blitze nos bairros e uma barreira realizada no bairro Cruzeiro na madrugada de domingo, nas proximidades do ponto onde mãe e filho morreram, foi uma forma de expandir o monitoramento. 

— Nos incomoda, nos deixa arrasados porque estávamos numa região com a Balada Segura e não conseguimos pegar o adolescente (envolvido no acidente fatal no Bela Vista) — desabafa Soares.

O resultado de oito condutores flagrados sob o efeito de álcool e de outro dois sem carteira de habilitação naquele trecho foi bem menor do que normalmente costuma acontecer quando as barreiras são montadas na área central. 

— A análise é de se fazer o trabalho em locais onde se pega mais condutores embriagados, onde as pessoas mais passam, que é na área central. 

Soares ressalta que a fiscalização está mais atuante e cita números de operações noturnas. De 2,7 mil pessoas abordadas entre janeiro e setembro de 2016, 472 estavam embriagadas. Desde então, o número de pessoas paradas em blitze aumentou gradativamente e, também de janeiro a setembro deste ano, a operação Balada Segura abordou 7,9 mil pessoas e retirou do trânsito 639 condutores bêbados.

— O trabalho de abordar três vezes mais é para proteger. Quando não conseguimos fazer, é frustrante. Estamos discutindo novas estratégias para fazer mais. É um trabalho puxado, mas estamos com vontade de aumentar as abordagens — adianta o secretário, que cita a falta do cinto de segurança, o uso do celular e a ultrapassagem do sinal vermelho como infrações mais recorrentes e preocupantes.

O delegado Caio Fernandes complementa o pensamento do secretário. 

_ É um tipo de cultura que qualquer cidadão facilmente pode constatar ao caminhar pelo Centro e que acreditamos ter influenciado neste caso (das mortes no bairro Bela Vista). As pessoas aceleram e atravessam no (semáforo) amarelo, às vezes ultrapassam até no vermelho. É uma imprudência que se repete e oferece riscos a todos.

Punição para quem entrega veículo a menor de idade

O que diz o artigo 310 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB): 

Permitir, confiar ou entregar a direção de veículo automotor a pessoa não habilitada, com habilitação cassada ou com o direito de dirigir suspenso, ou, ainda, a quem, por seu estado de saúde, física ou mental, ou por embriaguez, não esteja em condições de conduzi-lo com segurança: detenção de seis meses a um ano, ou multa.

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