Historiadores divergem sobre decisão de transferir a Festa da Uva - Geral - Pioneiro

Polêmica em Caxias do Sul06/05/2017 | 09h00Atualizada em 06/05/2017 | 09h00

Historiadores divergem sobre decisão de transferir a Festa da Uva

Adiamento para 2019 mexeu com as emoções da cidade da Serra Gaúcha

Historiadores divergem sobre decisão de transferir a Festa da Uva Jonas Ramos/Especial
Foto: Jonas Ramos / Especial

A relação da Festa da Uva com a história de Caxias do Sul pode explicar por que o adiamento mexeu tanto com as emoções da cidade. Se críticos enxergam a festividade como algo ultrapassado, que não representa mais o que Caxias do Sul se transformou, outros reforçam que os papeis social, cultural e de celebração que emanam dos desfiles e dos Pavilhões lotados seriam um respiro, uma injeção de ânimo num momento tão delicado como o atual, com crises econômica e política, desemprego e violência em alta.

Para o escritor José Clemente Pozenato, coordenador cultural da Festa em 2006, o evento sempre teve a missão de motivar a cidade em diferentes épocas. O que mudou ao longo dos anos foi o perfil.

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— A Festa começou para chamar a atenção da produção do agricultor daqui. Em pouco tempo, serviu para divulgar a imagem da cidade, tanto que saíam reportagens em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Houve a interrupção com a Segunda Guerra Mundial e, quando ela é retomada (em 1950), surge com o papel de agregar toda a região para chamar a atenção do papel do imigrante. Não é por acaso que o Monumento ao Imigrante foi construído a partir dessa retomada — pondera Pozenato.

A Festa da Uva passou por crises de identidade em relação à origem, lembra o escritor. Na década de 1970, a celebração passou a ser mais um canal de divulgação da produção industrial de uma cidade que se orgulhava de levar seus veículos pesados para mostrar aos turistas. Foi somente a partir de 1990 que a Festuva passou a ser concebida mais como um ritual puramente festivo, de homenagem à própria história.

— Ao adiarem a data, provocaram uma frustração. A imagem da cidade fica prejudicada lá fora. Vão pensar: Caxias está mal, cancelaram até a Festa da Uva. Vejo que faltou competência agora. Fizemos a festa de 2006 em oito meses — cobra o escritor.

Adiamento com  justificativa

A historiadora Loraine Slomp Giron ameniza. Para ela, não haveria motivo para tanto alarde em relação ao que aparenta ser um simples adiamento:

— É preciso lembrar que das décadas de 1930 até 1950 não houve Festa da Uva, porque o Brasil havia entrado em guerra com a Itália e a nossa festa era considerada italiana. Então, foram 14 anos sem nada. Não vejo motivo de tanto espanto para esse novo adiamento. A festa foi criada para promover a venda dos nossos produtos, principalmente o vinho. Então, se a prefeitura avaliou que neste momento não haveria condições para seguir com o cronograma da festa, talvez pelo fato de existirem outras prioridades, eu assino embaixo. No meu entendimento, foi uma decisão consciente. Hoje, o governo e o andamento da cidade são mais importantes do que a festa.

Juventino Dal Bó, historiador que já foi roteirista dos desfiles e das exposições temáticas da edição de 2004, vê o cenário com cautela. Ele faz uma autocrítica e reforça que sucessivos governos prometeram repensar a Festa da Uva, resgatar as origens e não conseguiram. Para ele, a festividade tem que parar a cidade, provocar e perturbar, o que não vinha ocorrendo:

— A tradição de dois em dois anos é muito recente, antes era de quatro em quatro anos. Se for para realizar uma boa festa, para repensá-la e trazer algo novo, impactante, mesmo que a cidade tenha uma perda temporária no turismo, vejo como válido o adiamento. Caso contrário, se for apenas para fantasiar o velho de novo, não há motivo.

"Espero que a Festa da Uva volte remodelada"

Assim como pensam diversos críticos sobre o modelo que a Festa da Uva vinha seguindo nas últimas edições, a secretária municipal da Cultura, Adriana Antunes, acredita que a celebração perdeu, ano a ano, sua identidade. Por isso, ela pensa que a decisão de adiar o evento para 2019 pode ter vindo em uma boa hora e pode ser uma forma da Festa voltar a ser um reflexo da cultura dos imigrantes.

Adriana afirma que a pasta que comanda desde que Daniel Guerra (PRB) assumiu a prefeitura não tem gerência sobre a realização ou não da Festa, mas garante que já conversou com Sandra Randon, presidente da Comissão Comunitária, sobre como ela pretende reformular o evento.

— A secretaria participa realizando o desfile e com algumas atrações artísticas locais, porém, não decide se a Festa sai ou não. Mas claro que o evento é de extrema importância para a cidade e, se for feito de uma forma diferente, como a Sandra imagina, sou parceira. A Festa da Uva é fundamental, disso tenho certeza, mas concordo que ela deve ser remodelada — destaca.

O tempo maior que as comissões terão para planejar a próxima edição da Festa da Uva teria que ser usado para pensar em maneiras de deixar a celebração mais perto da comunidade, na opinião de Adriana. As participações de agricultores e produtores teriam de voltar ao protagonismo:

— Que esse "parar" em 2018 seja para refletir. O ideal é que se volte a ver a essência real da Festa da Uva, aquela dos agricultores, da cultura, da produção e cultivo da uva.

Opiniões

"Sabia que se cogitava cancelar ou adiar a Festa da Uva, mas fiquei surpreso quando vi o pronunciamento oficial. A Festa é o nosso maior produto cultural. Adiá-la é deixar de usar esse recurso por mais um ano. É perder a oportunidade de a cidade ganhar. Todos sabem da crise, mas o turismo continua em alta: as ruas de Gramado estão sempre cheias, Torres lotou no último final de semana com o evento de balonismo. Caxias não ficaria sem receber um número expressivo de turistas, mesmo com a crise. Sobre o tempo para planejar a celebração, creio que daria para organizar uma festa em um ano. Esse é o prazo que sempre se teve, e a Festa sempre saiu. Também penso se, em 2019, a economia estará mesmo melhor para que se pense na Festa."
João Tonus, assessor técnico da Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do RS e ex-secretário da Cultura de Caxias

"Politicamente, vejo como um problema, pela questão da falta de diálogo, principalmente. Agora, no sentido de celebrar uma festa, acredito que o adiamento é correto. Mais vale fazer uma bela festa do que produzir algo pequeno, simplesmente, para não dizer que houve um adiamento. Isso, no ponto de vista econômico, acredito que mostra que a decisão está com os pés no chão. Claro, que o turismo perde e o comércio da cidade também, mas a maioria dos patrocinadores da Festa da Uva sempre foi empresas do ramo industrial, um dos setores mais afetados com a crise econômica. Ou seja, seria um péssimo momento para pedir apoio deles. Então, não vejo como uma perda total esse adiamento e sim uma forma de fazer uma festa na grandiosidade que a nossa cidade merece."
Véra Stedile Zattera, pesquisadora

"Tudo bem que o momento é de dificuldade financeira, mas a Festa da Uva é a maior vitrine cultural da nossa cidade. É ela que projeta, que valoriza o nosso povo, a nossa história, que nos faz sermos vistos fora do Rio Grande do Sul. Então, Caxias perde com essa decisão. Se o formato da festa precisa ser modificado, isso deve ser estudado a partir de agora, mas para ser colocado em prática outras edições e não adiando, cancelando a única forma que temos de divulgar a cidade na dimensão que a Festa da Uva possibilita. Ainda não consegui entender muito bem o que o novo prefeito quer para Caxias do Sul, mas retroceder não me parece favorável. Temos que pensar no futuro sem esquecer o presente."
Arcângelo Zorzi, proprietário da Livraria do Maneco

"Acompanho e participo da Festa desde 1966 e posso assegurar que outras gestões já vivenciaram problemas financeiros para viabilizar o evento. Mas sempre realizaram. Então acredito que o que falta para essa administração é visão, perceber a grandiosidade e a dimensão cultural que representa a Festa da Uva e compreender que há um calendário construído ao longo de diversos anos com outros municípios da região e que ele precisa ser respeitado.A questão menos importante é o tamanho do evento, a prioridade é respeitar a essência e a tradição. Falta iniciativa, criatividade e liderança desta gestão. E reitero: a prefeitura não banca a Festa da Uva, quem financia são os investidores, que são grandes marcas e, mais importante, fiéis ao evento."
Paulo Cancian, jornalista e ex-integrante da Comissão Comunitária

"A Festa da Uva não existe há dois ou três anos, é um evento histórico, que traz muitos ganhos para a cidade e para a coletividade. Caxias ganhou visibilidade com ela, não pode simplesmente deixar o calendário cultural. Não é porque trocou a administração que ela deve correr o risco de não acontecer. A Festa tem um fio condutor e adiá-la é romper com uma tradição, é não deixar viva a história da imigração italiana."
Cleodes Piazza, historiadora e especialista em história da imigração

 
 

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