Tríssia Ordovás Sartori: nunca usei coroa... - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião05/05/2017 | 16h00Atualizada em 05/05/2017 | 16h16

Tríssia Ordovás Sartori: nunca usei coroa...

... mesmo assim, reconheço o valor da Festa da Uva. Ao aceitarmos que a falta de dinheiro impeça sua realização, estamos dizendo que não há nada a festejar.

Tríssia Ordovás Sartori: nunca usei coroa... Fábio Panone Lopes/Divulgação
Foto: Fábio Panone Lopes / Divulgação
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Nunca concordei com a afirmação de que toda caxiense (de nascimento ou adoção) sonha em ser rainha da Festa da Uva. Pra isso, tomo minha impressão como verdade: nasci em Caxias e nunca tive a menor vontade de ostentar essa (ou outra) coroa. Em alguns momentos, cheguei a me perguntar como, em plenos anos 2000, gurias ainda demonstram esse desejo. Mas aí, graças ao jornalismo e à pós-graduação, a prática do cotidiano tratou de mudar minha percepção.

Ainda não penso em ser rainha — a essas alturas, só se fosse rainha sênior (risos) — mas entendo o porquê da comoção que o concurso provoca. E entendo por que a não-realização da Festa da Uva — nossa festa maior, pra não abrir mão do clichê — tem um impacto tão grande na comunidade. O simbolismo da festa (e da coroa) é bem maior do que a festa em si. E, ao se abrir mão de realizá-la, são necessários argumentos muito mais fortes do que "crise econômica" ou "infraestrutura precária". Há, inclusive, uma contradição nisso. A festa celebra, justamente, a fartura, a colheita, o fruto do trabalho dos agricultores, a labuta que vence intempéries, o ofício que sustenta famílias inteiras, que criou uma cadeia produtiva que foi sendo incorporada a cada edição. Quem vai conseguir nos convencer do contrário?

E essa celebração da cocanha, ainda hoje, numa terra miscigenada e multicultural, é genuína. Numa das minhas andanças jornalísticas, me vi no primeiro banco de um carretão, subindo a Avenida Júlio de Castilhos, em um sábado ensolarado de inverno. Atrás de mim, mais de 20 embaixatrizes, igualmente trajadas e aspirantes a um lugar no trio de soberanas. Foi nesse instante, como uma epifania, que consegui captar a grandiosidade do evento. Tal qual a banda de Chico Buarque, todo mundo parou pra ver a gente passar. As pessoas abanavam das sacadas, as mães mostravam as meninas para os filhos, velhinhos sorriam e adolescentes cheios de piercings olhavam desconfiados: ninguém conseguiu ignorar a cena. Percebi como a aspiração das meninas é genuína. Em 1931 ou 2017.

A festa é a transcendência, é a vitória da fartura sobre a fome atávica. Em uma cidade ritmada pelo tic tac do relógio ponto — e que tem o da Metalúrgica Eberle como símbolo fundamental disso —, é cada vez mais difícil parar para contemplar o dia a dia, para festejar as conquistas, por menores que possam parecer. Há cada vez menos espaço para a ludicidade, à cultura, à história e à memória. E, ao permitirmos que um evento que diz tanto sobre quem nós fomos e em quem nos tornamos possa ser adiado, como uma simples partida de futebol, estamos dizendo que não, não precisamos celebrar. Ou pior: tentando nos convencer que não temos nada a festejar — afinal, se o dinheiro (em primeiro lugar) não pode pagar, isso não deve ter tanta importância.


 
 

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