Praça Dante Alighieri e as pedras portuguesas: a trajetória de José Barbosa de Oliveira - Geral - Pioneiro

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Memória27/07/2016 | 06h36Atualizada em 28/07/2016 | 14h30

Praça Dante Alighieri e as pedras portuguesas: a trajetória de José Barbosa de Oliveira

Imigrante português foi o responsável pelo assentamento das pedras e pelo calçamento que é símbolo da área central de Caxias do Sul

Praça Dante Alighieri e as pedras portuguesas: a trajetória de José Barbosa de Oliveira Studio Geremia/Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação
Ícone da Praça Dante: o belíssimo calçamento feito por seu José Barbosa de Oliveira, por volta de 1945. Ao fundo, o Clube Juvenil, a antiga sede do Banrisul, o Cine Guarany e o Hotel Menegotto. Foto: Studio Geremia / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação

A recente coluna sobre os cachos de uva e as folhas de parreira que decoram o passeio da Praça Dante Alighieri trouxe à tona as lembranças sobre a trajetória do imigrante português José Barbosa de Oliveira (1908-1991), responsável pelo calçamento de pedras portuguesas símbolo da área central de Caxias.

Chegado a Caxias em 1940, após passagens por Pelotas, São Leopoldo e Porto Alegre, Barbosa logo conseguiu trabalho nas obras de modernização viária da cidade. Após trabalhar na pavimentação da Av. Júlio, em 1943, o calceteiro recebeu do prefeito de Caxias do Sul, Dante Marcucci, e do secretário de Obras, José Ariodante Mattana, o convite para executar o projeto de assentamento de pedras na Praça.

Pisando em uvas: o calçamento de pedras portuguesas da Praça Dante

Conforme recorda a neta Vanessa Falcão, o avô tinha o maior orgulho por ter efetuado esse trabalho - mesmo anos depois, Barbosa fazia questão de levar parentes, amigos e outras visitas que recebia para conhecer a praça. Um trabalho, inclusive, reconhecido pela prefeitura: em 25 de abril de 1947, o profissional recebeu um atestado do prefeito Dante Marcucci destacando sua "competência, dedicação e honorabilidade nos trabalhos executados com calçamento", em especial os desenhos de uvas e folhas de parreira do principal logradouro da cidade.

Já em 10 de julho de 1962, Oliveira foi admitido como servidor público municipal na gestão do prefeito Armando Biazus, atuando como Fiscal de Calçamento da Secretaria Municipal de Obras. Após se aposentar, Oliveira dedicou-se ao artesanato em madeira. Fazia miniaturas de igrejas, navios, brinquedos e outros utensílios. Nenhum para venda: ou presenteava amigos e familiares ou expunha na sala de estar de casa.

Seu "Pelotas" ou Zeca, como era conhecido, faleceu em 7 de junho de 1991, aos 82 anos. Mas seu legado permanece sob os pés de quem transita pela Dante até hoje...

Vídeo traz imagens raras da Praça Dante nos anos 1950

Anos 1950: Oliveira (à direita) mostra ao irmão Agostinho o trabalho desenvolvido na Praça Dante Alighieri. Foto: Acervo de família / divulgação
O famoso calçamento com desenhos de uvas e folhas de parreira feito por seu José Barbosa de Oliveira. Foto: Reno Mancuso / Acervo Renan Carlos Mancuso,divulgação
Uma das alamedas de pedras portuguesas feitas por seu José Barbosa de Oliveira, em um registro do início dos anos 1950. Foto: Hildo Boff / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação
Obra perene: cachos de uva e folhas de parreira testemunham o vaivém de pedestres desde 1943 Foto: Maicon Damasceno / Agencia RBS

Homenagem em 1984

Uma das principais homenagens a seu José Barbosa de Oliveira chegou no início dos anos 1980. Foi quando o ex-prefeito Mario Vanin, que também foi presidente da Festa da Uva de 1984, recebeu em sua residência, defronte à Praça Dante Alighieri, o maestro Zaccaro, então apresentador da TV Bandeirantes.

O músico ficou encantado com os desenhos de uvas que avistava pela janela do prédio e sugeriu que se fizesse uma homenagem a quem trabalhou naquela obra. Dito e feito: o maestro realizou um show no dia 14 de outubro de 1983, junto à sua orquestra - o espetáculo foi uma das atividades preparatórias da Festa da Uva do ano seguinte. Já em 1984, durante a Festa, Oliveira recebeu uma homenagem na Praça onde realizou seu principal trabalho.

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Georgina e José Barbosa de Oliveira  em meados da década de 1930, em São Leopoldo. Foto: Germano J. Stumpf,acervo de família / divulgação
 José Barbosa de Oliveira e a esposa Georgina com a primeira filha, Iolanda, em Porto Alegre, no final da década de 1930 Foto: Acervo de família / divulgação
Em família nos anos 1950: José Barbosa de Oliveira com as filhas. Da esquerda para a direita estão Hilda, Ilza Maria (segurada pelo pai), Irone e Ivone. Foto: Acervo de família / divulgação

A família

Filho de José dos Santos Oliveira e Margarida Domingues Barbosa Oliveira, seu José nasceu em 2 de agosto de 1908 na cidade do Porto, em Portugal. Era o segundo de 10 irmãos (Bernardino, José, Joaquim, Anthéro, Margarida, Antonio, Carlos, Henrique, Agostinho e Maria Adelaide).

Chegada ao Brasil, em 1913, a família desembarcou no porto de Santos (SP), mas em seguida ficou sabendo que havia um grande reduto de imigrantes portugueses em Pelotas, migrando para lá. 

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Após idas e vindas pela região metropolitana, Oliveira retornou anos depois a Pelotas para cumprir uma promessa feita a jovem Georgina Sá Feijó: casar-se com ela. A cerimônia ocorreu dia 8 de setembro de 1933. No ano seguinte, o casal seguiu para Porto Alegre, onde, em agosto de 1934, nasceu a primeira filha, Iolanda. Já por volta de 1940, a família chegou a Caxias. 

Por aqui nasceram as outras quatro filhas (as gêmeas Irone e Ivone, Hilda e Ilza Maria). Primeiramente, eles se hospedaram na pensão da família Ioppi, localizada na Rua Marquês do Herval, esquina com a Rua Pinheiro Machado - que depois se transformaria no famoso Hotel Real. Posteriormente, o núcleo familiar se estabeleceria na Rua Hércules Galló.

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Portugal, 1913:  retrato tirado no ano que a família deixou o país a caminho do Brasil. Da esquerda para a direita estão Joaquim, a matriarca Margarida, José Barbosa de Oliveira e Bernardino. Foto: Acervo de família / divulgação
 José Barbosa de Oliveira com a primeira filha Iolanda em Caxias do Sul, em 1941 Foto: Acervo de família / divulgação
José Barbosa de Oliveira (em pé) com a filha Iolanda (sentada no primeiro degrau, atrás)) está a filha Iolanda. À frente estão as filha Hilda e Ivone, o irmão Agostinho e a filha Irone (gêmea de Ivone). Foto: Acervo de família / divulgação
O casamento de Margarida, irmã de José Barbosa de Oliveira, em de 13 de setembro de 1945, em Pelotas. Sentados estão Margarida (a noiva), Margarida (a mãe), José (o pai) e a irmã Maria Adelaide. De pé, da esquerda para a direita, os irmãos Henrique, Carlos, José, Bernardino, Joaquim, Antoninho e Agostinho. Foto: Acervo de família / divulgação
Tramandaí em 1949: José Barbosa de Oliveira (à direita) com o amigo Astrogildo (à esquerda) e sua filha e o irmão Joaquim (ao centro)), durante as férias de verão. Foto: Acervo de família / divulgação
 Na Catedral Diocesana: José Barbosa Oliveira conduz a filha Irone para casar com Valdir Antônio Padilha, em 17 de fevereiro 1961 Foto: Acervo de família / divulgação
 Caxias do Sul, 22 de maio de 1964: as filhas do casal José e Georgina no casamento da gêmea Ivone com Armindo Maldonado Rodrigues. Da esquerda para a direita estão Irone, Iolanda, o casal Armindo e Ivone, Hilda e Ilza Maria (Zica). Foto: Acervo de família / divulgação

Vizinho do Juventude

José Barbosa de Oliveira fez o calçamento de inúmeras ruas da cidade, inclusive da Hércules Galló, onde viveu até o final da vida, no nº 1.500. Como residia em frente ao Esporte Clube Juventude, acabou tendo uma longa e forte ligação com o clube.

Era o sócio nº 34 e foi diretor de patrimônio em diversas gestões, ajudando no dia-a-dia e envolvendo, por consequência, a família. A esposa, Georgina, costurava e fazia ajustes no fardamento dos jogadores. Houve época em que ela até lavava e passava o uniforme dos atletas.

A carteira de sócio-contribuinte Foto: Acervo de família / divulgação
A carteira de Diretor de Patrimônio do clube Foto: Acervo de família / divulgação
A carteira do Departamento de Patrimônio Foto: Acervo de família / divulgação

Paixão verde e branca

Toda essa paixão verde e branca perpassou gerações. O único neto, o famoso e polêmico torcedor Padilha (Éverton José Oliveira Padilha), teve sua vida intimamente ligada ao clube, com atuação destacada desde criança: foi mascote, assessor, dirigente e conselheiro.

Já a neta Vanessa Iolanda Oliveira Falcão, mesmo nascida em São Paulo, foi levada ao estádio e deu sequência a tradição da família logo que chegou à cidade, em 1993. Vanessa foi integrante da primeira gestão do Conselho Jovem e teve atuação nas torcidas organizadas Mancha Verde e Nação Verde - nesta última foi presidente por três gestões.

Parceria

Informações desta coluna são uma colaboração de Vanessa Iolanda Oliveira Falcão, neta de seu José.

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José Barbosa Oliveira e a primeira filha, Iolanda, em Porto Alegre, em 1939. Foto: Acervo de família / divulgação
 
 
 

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