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Opinião21/07/2020 | 09h23Atualizada em 21/07/2020 | 09h23

Adriana Antunes: a caquistocracia e os Mutantes

Muito tempo se passou desde o lançamento, mas as pessoas da sala de jantar continuam ocupadas em nascer, morrer e manter o status quo

Muito tempo se passou desde o lançamento, mas as pessoas da sala de jantar continuam ocupadas em nascer, morrer e manter o status quo. Bem, talvez não se preocupem mais tanto sobre o fato de morrer, pois apesar do número de mortos no Brasil ter praticamente atingido os 80 mil, os parques permanecem cheios de gente, o comércio quer, enlouquecidamente, abrir, criaturas circulam pelas ruas para além da necessidade e uma boa parte delas sem máscara e há ainda os que fazem churrascada, reúnem os amigos e frequentam bares e botecos. Associado a isso descobre-se muito rapidamente que quem manda realmente, em tudo, é o vil metal. Vale mais abrir leitos nos hospitais do que pensar em salvar vidas enquanto ainda há tempo. E nem vou citar aqui as discussões sobre tal medicamento ter ou não comprovação científica. O novo normal (que também já não aguento mais ouvir falar) é o velho desde sempre. Nada mudou. Quando a música Panis et circenses foi lançada, faz mais de 50 anos, o Brasil vivia numa espécie de Idade Média. Era deflagrada a ditadura militar, corrupção em massa, perseguição aos veículos de comunicação, banalização do discurso da violência e então chegaram os Mutantes e dispararam o fuzil da semiótica. Foi uma época de ouro. A Tropicália foi um manifesto raro e revolucionário. Um avesso.

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Hoje, assim como a caquistocracia impera e reina impune, a falta de criatividade e bom gosto, para ser eufemística, encheram nossas ruas de uma mistura mal acabada de sertanejo de rimas medíocres e uma batida funk de arranjos tecnológicos saídos direto dos anos 90. Lá, quando essa onda americanizada invadiu a nossa praia e foi nos imbecilizando aos poucos. Talvez a nossa política seja realmente reflexo de quem somos, com uma pitada de obscurantismo, fundamentalismo, ignorância, onipotência e perversidade. Quem imaginou que retrocederíamos tanto assim? É possível pensar também que nunca saímos do buraco, apenas agora ele está mais evidente. Isso me faz lembrar do filme Poço, assistiram?

Qual seria o nosso avesso hoje? Como não adoecer de depressão e angústia diante desta falta de respostas, do senso comum, do desprezo à ciência e total falta de espaço para a poesia? Quando não explodimos, implodimos. Por isso, é importante plantar folhas de sonhos no jardim, ouvir música boa, sentar a bunda e ler (como diz Adriana Calcagnotto), também ler notícias de veículos sérios e não se alimentar de fake news, e, se possível, fazer um exercício constante de olhar-se para além do próprio umbigo. Encontrar nosso ponto de ruptura é fundamental para demarcar as diferenças, mas as pessoas da sala de jantar estão ocupadas com o que mesmo?

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