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Ordovás 18 anos05/10/2019 | 08h00Atualizada em 07/10/2019 | 11h23

Centro de Cultura é peça chave da cena caxiense

Antiga Vinícola Antunes foi revitalizada em 2001, depois  da quase ruína integral e espaço completa 18 anos no dia 9 de outubro

Centro de Cultura é peça chave da cena caxiense Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Centro de Cultura ocupa um dos prédio do complexo da Vinícola Antunes, empresa porto-alegrense de tradição portuguesa, que abriu sua sede em Caxias em 1910. Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

O Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, em Caxias, é uma janela metafórica que interliga passado e futuro. Soa complexo, mas é simples. Esse prédio cuja cor transita entre o vermelho desbotado e o rosa, já esteve impregnado de tinta amarela e carregava a história da uva e do vinho da antiga Vinícola Antunes

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Fundada em 1865, em Porto Alegre, a empresa abriu a sede de Caxias em 1910, no mesmo ano da chegada do trem à cidade. O pavilhão reformado que virou Centro de Cultura era um dos prédios menos imponentes. O complexo contava com quatro pavilhões no total. Os prédios mais importantes pela arquitetura e funcionalidade da Antunes, foram destruídos. Em um destes pontos que deixou de existir, foi erguido o Fórum de Caxias.

Avançamos na linha do tempo e chegamos a outubro de 2019. No Centro de Cultura há apenas resquícios da vinícola portuguesa que deixava italianos verdes de inveja na época. Hoje, a Antunes virou pano de fundo e contexto histórico para entender parte da história de Caxias. Mas desde 2001, quando a prefeitura reconquistou o espaço, revitalizou o entorno e estabeleceu ali o busto do doutor Henrique Ordovás Filho, tudo o que é revisão do passado e ensaio presente, é, na verdade, arsenal de esperança de um futuro para sempre efervescente e cultural.

Morto em 1998, Ordovás renasceu batizado como nome do Centro Cultural que é ainda visto como a nossa Usina do Gasômetro, em uma referência ao complexo porto-alegrense, inaugurado em 1991. Para o jornalista, poeta e mestre em literatura, Dinarte Albuquerque Filho, 55 anos, a revitalização da Cantina Antunes é uma ação muito simbólica para Caxias.

— Depois de anos abandonado, quase destruído, há de se reconhecer que a mobilização pela manutenção do prédio representou um passo gigantesco na ampliação da consciência preservacionista da população de Caxias, que havia perdido para as chamas e o descaso o prédio do Cine Ópera menos de 10 anos antes, que incendiou exatamente na madrugada de 24 de dezembro de 1994.

Aspectos da Cantina Antunes (Vinícola Luiz Antunes) em 1984, época do abandono, falência e demolição de parte do espaço. Bairro Panazzolo
Prédios da Vinícola Antunes, nos anos 1980, quando da mobilização do governo Victorio Trez para ocupação do espaço.Foto: Wanderley Rocha / Acervo Centro de Cultura Henrique Ordovás Filho,divulgação

Entre o passado remoto e o quase presente

Para entender como é que Caxias, tão conhecida por assistir ruir a sua história, entrou na luta por manter de pé o que ainda restava da Vinícola Antunes, é preciso acessar um passado remoto. É curioso entender como a história se repete de tempos em tempos, o que torna ainda mais urgente colocar tudo à claras. Se hoje, Caxias tem a Maesa como uma incógnita, flertando entre o sonho e o delírio, entre a esperança e o pesadelo, nos anos 1980 esse fantasma pairava sobre o complexo da Antunes.

— Esse espaço da antiga Cantina Antunes já tinha sido negociado desde a década de 1980, ainda no governo do Victorio Trez (prefeito de Caxias por dois mandatos, 1969-1972 e 1983-1988) e então acabou vindo para o município para ser utilizado pela comunidade — revela Tadiane Tronca, secretária Municipal da Cultura entre 1998 e 2004, explicando que por conta da falência da empresa, esse espaço foi disputado pelo poder público municipal junto à União. 

Isso nos leva a entender que Caxias poderia ter tido um centro cultural antes ainda do incêndio do Cine Ópera. A condicional "se", não nos leva a lugar nenhum, felizmente, apesar dos descaminhos da vida, Caxias optou não apenas por manter de pé o prédio da antiga Cantina Antunes, mas estabelecer ali um centro cultural.

— Quando o Pepe Vargas assumiu, em 1997, uma das primeiras coisas que ele fez foi lutar para que as pessoas que estavam ocupando o prédio da Antunes, de forma irregular, saíssem. Porque esse espaço iria ser destinado para a Cultura. Creio que os dois fatores fundamentais para isso foram vontade política e competência. Quando falo em vontade política, é porque havia um entendimento de governo de que a cultura tinha importância. Haviam outras prioridades, mas a Cultura disputava seu espaço e era tratada pelo prefeito de forma igual às demais secretarias — defende Tadiane Tronca.

O investimento na reforma e para equipar e aparelhar o Centro de Cultura Ordovás foi de R$ 1,183 milhões, o equivalente a $ 408 mil dólares. Se fosse hoje, convertendo-se para o valor da moeda americana cotada a R$ 4,07, o investimento teria sido de R$ 1,660 milhão.

— Nosso plano era fortalecer a cultura na cidade. Queríamos fazer algo importante para que as pessoas tivessem uma melhor qualidade de vida, gerando conscientização através da arte e da cultura. Conseguimos entre 10% a 15% da obra através de leis de incentivo a Cultura e o restante através de recursos aprovados pelo Orçamento Participativo  — revela.

Tadiane reconhece que o Centro de Cultura Ordovás foi livremente inspirado na Usina do Gasômetro, também um projeto do PT, no caso, para a cidade de Porto Alegre.

— Tiveram dias em que o Centro de Cultura tinha sete ou oito atividades acontecendo ao mesmo tempo.

No final do segundo mandato, Tadiane Tronca conseguiu viabilizar a inauguração do Acervo Municipal de Artes Plásticas (Amarp), no prédio anexo ao Ordovás, que originalmente não fazia parte do complexo da Antunes. Atualmente, o espaço acolhe o Teatro Valentim Lazzarotto.

— Queríamos viabilizar esse acervo, que já existia na cidade, mas de maneira informal. Porque tinha obras que deveriam estar no acervo espalhadas, tinha até no gabinete do prefeito, decorando a sala — observa Tadiane.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 13/05/2019 - O Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho passa por mudanças. Logo na entrada, recepção e exposição permanente com objetos da Vinícola Antunes, trocam de lugar. Estacionamento também sofre alterações, e ganha vagas para deficientes. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Busto do médico Henrique Ordovás Filho, símbolo do Centro de Cultura, foi esculpido pelo amigo Bruno Segalla.Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Transição entre o passado e futuro

Passam-se 18 anos, e o Centro de Cultura Ordovás segue de portas abertas à comunidade. Nessa transição entre passado e futuro, é importante frisar o presente. Em 2018, segundo informa a diretora do Centro de Cultura Ordovás, Claudete Travi, passaram quase 25 mil pessoas pelo espaço. 

O desafio, no entanto, é revitalizar entorno, a começar pelos jardins e sensibilizar a comunidade do entorno para que frequente o Ordovás. Um dos ajustes, desde que assumiu a direção do espaço, foi recolocar o Memorial Antunes em exposição permanente e realizar encontros com a comunidade para rememorar a história da vinícola. A iniciativa tem sua segunda edição neste sábado, dia 5 de outubro, chamada de Roda de Conversa: Memórias da Antunes Ontem e Hoje, e se inicia às 14h.

Para comemorar a dita maioridade do Centro de Cultura Ordovás, revela o atual secretário municipal da Cultura Joelmir da Silva Neto, estão programadas apresentações musicais, junto ao Zarabatana,  entre os dias 9 e 13 de outubro (confira a programação a seguir).

— Alguns artistas já tocaram no local e outros será a primeira vez. Também estamos trabalhando no projeto de revitalização dos espaços externos do Centro de Cultura, como o intuito de valorizar e melhorar todo o entorno do prédio do Centro de Cultura — observa Joelmir, que concedeu entrevista por e-mail. 

Para o secretário, o Ordovás é um dos melhores espaços da Secretaria, na questão estrutural.

— O Centro de Cultura Ordovás já é um espaço consolidado para um grande público. Portanto, o objetivo principal é trabalhar para que mais pessoas conheçam e se apropriem desse espaço e possam usufruir de toda a sua infraestrutura e programação que ele oferece. E também ampliar a utilização do Ordovás nos finais de semana, sobretudo aos domingos, quando as opções gratuitas de lazer são escassas em Caxias do Sul — defende Joelmir.

Há uma série de planos de ações para o Ordovás, antecipa o secretário.

— Estão planejadas ações que ampliem a participação de públicos diferentes, principalmente com os alunos das três redes de ensino e comunidade do entorno, como: o projeto de visitas mediadas, que já está em funcionamento desde maio deste ano, um projeto de visitas turísticas sob agendamento, que foi lançado em agosto. Teremos ainda a 1ª Festa do Livro Infanto-juvenil, em abril. Vamos dar sequência ao projeto Música no Jardim (a 1ª edição de Primavera, foi realizada dia 29 de setembro) e  as demais ocorrerão no início das outras estações. Vamos estrear dia 13 de outubro, o projeto Antiguidades no Ordovás, que seguirá uma vez por mês.

Mais uma ação que pretende ocupar os jardins do Ordovás e ser a opção de lazer e cultura, principalmente aos domingos, defendida por Joelmir, está o projeto Ordovás Sunset.

— Na próxima semana, será aberta uma convocatória para grupos de música para o projeto  Ordovás Sunset, que acontecerá todos os domingos do verão, com início no dia 5 de janeiro de 2020 e seguirá até o dia 22 de março, sempre nos jardins do Ordovás, no fim da tarde.

Médico Henrique Ordovás Filho em 1994, quatro anos antes de falecer, em 1998.
"Não me esperem para a colheita, pois estarei sempre plantando", está escrito na placa comemorativa a inauguração do Centro de Cultura que leva o nome do médico.Foto: Fernanda Davoglio / Agência RBS - 25-03-1994

Dr. Henrique Ordovás Filho

Olhar de candura, coração amável e benevolente, voz da justiça social, e altruísmo. E tudo mais que se disser será indexado a uma visão de mundo à esquerda e humanista. Essa é a essência da vida e obra do doutor Henrique Ordovás Filho (1919-1998), preso político (foram 29 dias de cárcere privado) e vereador cassado em 20 de abril de 1964, poucos dias depois do golpe militar.

Conforme recordou ao Pioneiro, em entrevista publicada em 1997 a esposa Reny Damin Ordovás (falecida em 2016), a detenção marcou a família para sempre. 

— Era 1h da madrugada quando um senhor bateu à porta de casa. Vinte minutos depois, 12 oficiais armados de metralhadoras chegaram para buscar o que a gente tinha.

O doutor Ordovás graduou-se em medicina em 1946. É o responsável pela fundação da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), a segunda do Brasil, inaugurada em 1957. Na sequência, ele inauguraria ainda outras sete pela região.

Em 2015, uma cerimônia na Câmara de Vereadores marcou a devolução simbólica dos mandatos dos vereadores cassados 51 anos antes, entre eles, o doutor Ordovás. Em 31 de dezembro de 1981, receberia o título de Cidadão Caxiense da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, um reconhecimento ao trabalho filantrópico desenvolvido na Apae.

Em 1998, quando Ordovás faleceu, o então prefeito Pepe Vargas decretou luto oficial de três dias. "Sua conduta médica foi exemplar, ele nunca colocou a parte financeira acima do paciente", disse Pepe à época. 

Na sequência, o Centro Municipal de Cultura recebeu o nome de Dr. Henrique Ordovás Filho. O médico também recebeu um busto na entrada do espaço, esculpido pelo amigo Bruno Segalla. Na placa comemorativa está a citação: "Não me esperem para a colheita, pois estarei sempre plantando".

Confira a seguir a programação de aniversário do Centro de Cultura Ordovás:

5 de outubro
14h às 17h -
Roda de Conversa: Memórias da Antunes Ontem e Hoje (Em Frente ao Memorial)
17h -
Teatro Era outra vez (Sala de Teatro)*
19h30min -
Filme Bacurau (Sala de Cinema)**

6 de outubro
19h30min -
Filme Bacurau (Sala de Cinema)**

9 de outubro
20h -
Show Banda Blues Vens (Zarabatana Café)

10 de outubro
15h -
Cinema Filme Lady Bird (Sala de Cinema)
19h30min -
Filme Bacurau (Sala de Cinema)**
21h30min -
Show Beto e suas Máquinas (Zarabatana Café)

11 de outubro
19h -
Exposição Amorfo de Jan Moraes Oliveira (Galeria de Artes)
19h30min -  
Filme Bacurau (Sala de Cinema)**
20h -
Contrapontos - Coro Juvenil do Moinho - Especial de Aniversário dos 18 anos do Ordovás (Sala de teatro)***
21h30m -
Show Pablo Lucena (Zarabatana Café)

12 de outubro
14h às 18h -
Festival Téti - Especial Dia das Crianças (Jardins do Ordovás)
19h -
Cia. Municipal de Dança - Dança Urbana (Entrada sul do Ordovás)
19h30min -
Filme Bacurau (Sala de Cinema)**
21h30m -
Show Seresteiros do Luar (Zarabatana Café)

13 de outubro
9h às 17h30m -
Estreia do evento Antiguidades no Ordovás (espaço externo)
17h - Show com William Monteiro (Zarabatana Café)
19h30min -  Filme Bacurau (Sala de Cinema)**

As atividades são gratuitas, à exceção da peça de teatro Era uma vez, ingressos a R$ 20, meia entrada, R$ 10, da exibição das sessões de Bacurau (**), ingressos a R$ 10. Meia entrada R$ 5; e o espetáculo Contrapontos (***), ingressos a R$ 10. 

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