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Almanaque27/07/2018 | 17h49Atualizada em 28/07/2018 | 13h35

Tríssia Ordovás Sartori: desejos reais?

Os pequenos prazeres, que fazem parte do dia a dia, só são percebidos como grandiosos quando algo inesperado muda nossa rotina

Tríssia Ordovás Sartori: desejos reais? Fábio Panone Lopes/Especial
Foto: Fábio Panone Lopes / Especial

É impossível não parar para pensar em quão singelos são os nossos desejos quando não temos certezas sobre nossa permanência nesse plano. Ver os pedidos de pacientes internados há mais de um mês no Hospital da Unimed – em um projeto chamado Dia do Desejo, cuja reportagem publicamos na quinta-feira – ajuda a dar outra dimensão para nossos próprios pedidos. Com a perspectiva de finitude – sim, às vezes parece que ela não existe, temos uma tendência a viver como se fôssemos imortais –, eles ficam mais sinceros e imediatos.

Aos 28 anos, Everton quis comer um xis coração. Dona Clélia, 72, quis reencontrar os netos, que não podem frequentar a instituição porque são muito novos. Seu Valdir, 69, degustou uma taça de vinho tinto, acompanhada de polenta frita. Os pequenos prazeres, que fazem parte do dia a dia, só são percebidos como grandiosos quando algo inesperado muda nossa rotina.

Ninguém desejava ter um apartamento mais confortável, trocar de carro ou viajar para Paris. Ao menos não no momento presente, no aqui e agora. E é a satisfação desses tipos de desejo que ocupam a maior parte de nossos tempo e energia. E é contraditório, porque justamente quando a perspectiva de vida está abalada, não é isso que nos dá prazer. Queremos um beijo, um abraço, uma lambida do animal de estimação, um pedaço de pudim.

Certa vez um colega me disse que estava trabalhando mais do que gostaria, para conseguir manter um padrão de vida que julgava ser importante a ele e à sua família. Mas antes de chegar aos 40 anos, já estava reconhecendo que não era exatamente aquilo que o deixava feliz. Poder ter tempo para ficar com o filho valia mais do que horas a mais no escritório para conseguir trocar de carro ou comprar uma nova tevê hi-tech. Não sei se ele mudou de vida, mas já se deu conta daquilo que importa. 

Temos por obrigação descobrir o que é imprescindível para nós e fazer de tudo para sermos honestos para aproveitar o que sentiríamos falta imediatamente. Precisamos desprender muita vida para realizar nossos desejos, então é melhor saber se eles são reais.

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