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Empatia 26/07/2018 | 10h02Atualizada em 26/07/2018 | 10h17

Pacientes têm desejos realizados no Hospital da Unimed em Caxias 

Equipe preparou surpresas para 16 pessoas internadas no setor de oncologia e de longa permanência da instituição 

Pacientes têm desejos realizados no Hospital da Unimed em Caxias  Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Dia do Desejo levou alegria e emoção aos pacientes internados na oncologia e no setor de longa permanência do Hospital Unimed Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Se você estivesse internado em um hospital há bastante tempo ou enfrentando um doença grave e lutando dia a dia pela vida, qual seria o seu desejo? Dezesseis pacientes atendidos nos setores de oncologia e de longa permanência do Hospital da Unimed, em Caxias do Sul, tiveram uma tarde especial nesta quarta-feira: o Dia do Desejo. A ideia surgiu entre a equipe de enfermagem que convive diariamente com os pacientes e conhece suas vontades, seus medos e, mais do que isso, capta os anseios de vida de cada um. 

A iniciativa será realizada anualmente para amenizar o sofrimento dos pacientes que estão internados há mais de um mês na instituição. A lista de presentes foi elaborada pelas profissionais, sem que os pacientes soubessem que iriam recebê-los. Em conversas informais, muitas em tom de confidência, eles revelaram às enfermeiras o que  gostariam de receber se pudessem fazer um desejo. Sem saber do que ocorria, foram surpreendidos ontem com o que seu coração mais desejava. 

A saudade dos netos, a falta do cãozinho da família, a vontade de tomar um copo de vinho, comer um prato especial, ler o jornal ou um livro, jogar cartas, fazer palavras cruzadas e ou ouvir música clássica podem parecer pedidos simples, desejos que passam despercebidos na corrida dos dias, mas que fazem toda a diferença para quem está isolado em um quarto de hospital, com visitas e alimentação restritas, e luta pela vida. 

A coordenadora de enfermagem do Hospital da Unimed, Marice Michelon Boeira, conta que a ideia de realizar o Dia do Desejo surgiu há dois anos, após um evento em que as enfermeiras participaram. 

— A equipe sempre faz atividades em datas comemorativas e procura fazer o dia a dia dos pacientes mais feliz. O Dia do Desejo, no entanto, é um projeto que foi amadurecendo e é o mais marcante. São pacientes crônicos e que estão há muito tempo longe de casa. Para eles, é um momento de distração, alegria, carinho — emociona-se ela. 

Cerca de 45 pessoas, entre equipe de enfermagem, médicos, nutricionistas, psicólogas e profissionais de controle de infecção participaram da organização e realização do Dia do Desejo.  E como se tratavam de desejos especiais, nada mais justo que uma fada — com direito a varinha de condão — fizesse a entrega dos presentes aos pacientes. 

João ganhou a visita do fiel companheiro Thor 

João Zini, 87 anos, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e teve complicações pulmonares. Natural de Antônio Prado, ele está internado há 35 dias. Sem que soubesse que teria uma visita surpresa, foi conduzido do quarto até o corredor do hospital para reencontrar um velho amigo. A emoção tomou conta de todos quando ele avistou o cãozinho Thor. Agitado, o mascote esperava como se sentisse o cheiro do dono, companheiro de caminhadas e passeios. Com Thor no colo, João apressou-se em distribuir-lhe afagos, enquanto cachorrinho fazia festa convidando-o para brincar. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 25/07/2018 - Hospital da Unimed promove o Dia do Desejo. É um momento em que pacientes mais debilitados tem um desejo atendido. NA FOTO: João Zini, 87 anos, pediu para ver o cachorrinho Thor. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
João ganhou a visita do fiel companheiro Thor Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

— Olha, teu companheiro veio te ver —  emocionou-se Luís Carlos Zini, 57, ao pai.

— Foi fantástico. Eu sabia que o meu pai ia ficar feliz. O Thor esperava meu pai acordar e levar ele passear. Era um compromisso das 11h ao meio-dia, sempre. Eles iam até uma cabana que temos no terreno de casa. É uma amizade de verdade e eles sentiam muita falta um do outro _ contou.

Abraço de urso na vovó Clélia

Reencontrar os netos pequenos era o maior desejo de Clélia Maria Boeira Scola, 72, que teve diversas internações e altas consecutivas e estava há pelo menos três semanas sem vê-los. A distância forçada ocorre porque, no hospital, as visitas de crianças menores de 12 anos não são permitidas. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 25/07/2018 - Hospital da Unimed promove o Dia do Desejo. É um momento em que pacientes mais debilitados tem um desejo atendido. NA FOTO: Clélia Maria Boeira Scola - 72 anos - avó, queria ver os netos pequenos . (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Vovô Clélia ganhou abraço de urso dos três netos Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Ao ver as noras Carolina Muller Scola e Elis Andrea Santa Catarina entrando no quarto com o Bento, cinco, Gustavo, quatro, e Antônia, de um ano e nove meses, além de Lorenzo, que ainda está na barriga da mamãe Carolina, a vovó não segurou o choro: 

— A maior felicidade do mundo é ver meus netos. Se eu não estou com eles, parece que falta um pedaço de mim. Falta tudo — resume ela. 

Enquanto tocava a mão do avó, Antônia tratava de consola-la:

—  O dodói vai sarar.

Já os meninos não poupavam abraços e mostravam as roupas de seus super-heróis favoritos. Bento, o mais velho, falou em nome dos pequenos:

— Estou muito feliz de abraçar a vó! — antes de correr para mais um abraço coletivo na nona.

Família de Ledovico reunida no hospital 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 25/07/2018 - Hospital da Unimed promove o Dia do Desejo. É um momento em que pacientes mais debilitados tem um desejo atendido. NA FOTO: Ledovico Dorigatti, 84 anos - avô, quis ver os netos adolescentes. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Família de Ledovico reunida no hospital Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

— Sabemos que somos o segundo desejo do vô. O primeiro era andar a cavalo —  entregou Letícia, a neta mais velha de Ledovico Dorigatti, 84. 

Internado há 40 dias, ele passa os dias na companhia dos filhos, que se revezam para garantir que não falte nada ao pai. A doença, porém, deixa o vovô debilitado e até mesmo, um pouco triste. Letícia, os gêmeos Rafael e Gabriel, 19, e Natália, 17, visitam o avô com frequência, mas não ao mesmo tempo. Ontem, foi diferente: seu Ledovico ganhou um abraço coletivo e o choro se transformou em um sorriso quando a neta disparou: 

— Vô! Sei que tu queria mesmo era ver o teu cavalo.

Conforme Letícia, o avô, que morava em Fazenda Souza, sente falta de montar.

— Sabemos o quanto somos importantes para ele, e ele é para a nossa família. Nosso maior desejo é que o vô melhore e vá com a gente pra casa. 

Everton devorou um xis coração 

O paciente mais jovem do setor de oncologia encara a doença com naturalidade. Com um sorrisão no rosto, força e vontade de vencer o câncer, Everton Piccollotto tem um brilho no olhar que inspira e encanta quem convive com ele. Aos 28 anos, e depois de passar por duas cirurgias, o rapaz está na quarta internação. O desejo dele era simples: comer um xis coração. Apesar da singeleza do pedido, para um paciente em quimioterapia seguir a dieta repassada pelos médicos é essencial. Ao abrir a bandeja, ele já elogiou: 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 25/07/2018 - Hospital da Unimed promove o Dia do Desejo. É um momento em que pacientes mais debilitados tem um desejo atendido. NA FOTO: Everton Picolotto - 28 anos, pediu para comer um xis coração.  (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Everton devorou o xis preferido: coração Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

— Que cheiro bom!

Otimista, planeja repetir o lanche fora do hospital em breve: 

— Se Deus quiser, o câncer está indo embora e vou seguir minha vida. Aí, vão vir muitos outros xis.

Everton conta que não saboreava o lanche preferido há três meses. 

—  Desde que comecei o tratamento, mantive a dieta, e o xis coração sempre foi o que mais gostei. Um dia como hoje nos dá força, é diferente, conversamos com pessoas e podemos comer o que gostamos, é muito bom. Faz bem para a alma. 

Valdir matou a saudade do vinhote 

Valdir Antônio Cechet, 69, emocionou-se ao ver uma taça de vinho. Porém, quando a bandeja com galeto e polenta frita foi aberta, o sorriso do descendente de italianos que não nega as origens aqueceu o quarto:

— Me pegaram de surpresa! Meu desejo foi realizado. Um dia, uma das enfermeiras estava conversando comigo e ela perguntou o que eu gostaria de fazer: eu disse que queria valorizar o trabalho delas porque elas cuidam muito bem de mim, com atenção e carinho, e ela me disse que estava agradecida, mas era algo pra mim. Mas nunca imaginei que iam fazer essa surpresa — contou.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 25/07/2018 - Hospital da Unimed promove o Dia do Desejo. É um momento em que pacientes mais debilitados tem um desejo atendido. NA FOTO: Valdir Antônio Cechet, 69 anos, pediu um galeto e uma taça de vinho.(Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Valdir matou a saudade do vinhoteFoto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Com a taça na mão após saborear a bebida, Valdir arriscou comer uma polenta frita:

— Me dá aqui — disse apontando a taça.

Quando a enfermeira fez menção de segurá-la, ele garantiu:

— Esse não cai da mão!  

No segundo gole, Valdir já comemorava a façanha após 43 dias de internação.

— Lá vou eu de novo. Estava desde dezembro sem tomar meu vinhote. Nossa, ele tem gosto de alegria e de satisfação. Se tivesse bom, tomava tudo e comia todo o galeto e as polentinhas. Estou muito feliz —  suspirando, na sequência, porque sabia que não poderia tomar mais do que uma taça.

Pudim para adoçar a tarde de Ana Paula

Ana Paula Rimondi, 47, é diabética e tem complicações na perna que a impedem de sair do quarto pelo alto risco de infecção. Deficiente visual há 16 anos em função do diabetes, ela precisa seguir uma dieta rigorosa, que não lhe permite doces. O desejo era justamente um lanche para adoçar a tarde: pudim de leite. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 25/07/2018 - Hospital da Unimed promove o Dia do Desejo. É um momento em que pacientes mais debilitados tem um desejo atendido. NA FOTO: Ana Paula Rimondi, 47 anos, quis comer um pudim de leite. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Ana Paula saboreou pudim de leite para adoçar a tarde Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Ao entrarem no quarto, as enfermeiras contaram que ela teria uma surpresa e lembraram uma conversa sobre o que  gostava de comer. 

—  Hum, só pode ser pudim de leite!

Mas não era um pudim qualquer. Feitos com carinho pela equipe da cozinha, dois pudins — um em formato de coração e outro de flor— fizeram a alegria de Ana Paula. 

— Esse, sim, é dos bons, bem docinho — disse, sorrindo. 

Depois de aproveitar para saborear mais um pedacinho, Ana Paula contou que está internada há 30 dias e que um dia como o de ontem ficará guardado para sempre:

— Eu adoro pudim de leite, e comer isso não faz mais parte do meu dia a dia. Foi um dia diferente, um dia emocionante. 

Música para tocar a alma 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 25/07/2018 - Hospital da Unimed promove o Dia do Desejo. É um momento em que pacientes mais debilitados tem um desejo atendido. NA FOTO: Loraci Vencato, 75 anos - estava sedada em seu quarto. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Loraci Vencato estava sedada, mas filho acredita que a mãe ouviu a música Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Ouvir música clássica foi o desejo de mais de um paciente. Alguns optaram por não conversar com a reportagem e aproveitaram para curtir o momento com os familiares. Dois músicos voluntários — Paulo Oliveira e João Sadaque —  emocionaram pacientes, visitantes e funcionários. Loraci Vencato, 75, estava na UTI e pediu aos médicos para ir para o quarto porque estava cansada. A vontade foi respeitada. Como estava com dor e o quadro de saúde piorou, ela precisou ser sedada. Os músicos pararam em frente ao quarto dela e entoaram um Ave Maria. Valmor Edilson Vencato, 54, conta que a mãe está internada há 75 dias, desde o diagnóstico do câncer. Para ele, o Dia do Desejo ficará marcado para sempre.

— A música toca as pessoas, a alegria da música, a tristeza, ela consegue nos alegrar nos momentos mais difíceis. Minha mãe está sedada, e o cérebro é complicado, mas eu acredito que ela ouviu a música e se emocionou com ela — disse. 

Terezinha Demiani Pianzenthini, 87, também pediu para ouvir música. Deitada na cama, a senhorinha se emocionou e ensaiou um aceno para os músicos. Naides Pianzenthini Cerisolin, 66, lembrou que a mãe gostava de músicas religiosas:

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 25/07/2018 - Hospital da Unimed promove o Dia do Desejo. É um momento em que pacientes mais debilitados tem um desejo atendido. NA FOTO: Terezinha Demiani Painzenthini, 87 anos, pediu música. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)
Terezinha sempre se emocionou ao ouvir música e no Dia do Desejo esse foi o seu pedido: música clássica Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

— A mãe sempre se emocionou com músicas. Em momentos ruins ou de muita dor, ela fechava os olhos e cantava com todo o coração. 

Mais perto de casa

As nutricionistas do Hospital da Unimed já trabalham com o conceito de Confort Food, que significa Alimento de Conforto. A ideia é criar cardápios e esquemas alimentares com comidas caseiras que os pacientes possam comer para que se sintam mais perto de casa. 

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