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Eleições 202016/10/2020 | 19h32Atualizada em 16/10/2020 | 19h32

Com pandemia e sem propaganda em rádio e TV, como é a campanha eleitoral em pequenas cidades da Serra  

Menores municípios têm disputa por votos centrada na conversa com eleitores

Com pandemia e sem propaganda em rádio e TV, como é a campanha eleitoral em pequenas cidades da Serra   Antonio Valiente/Agencia RBS
Em Pinto Bandeira, campanha eleitoral praticamente não altera o cenário tranquilo da cidade, com poucas pessoas circulando nos espaços públicos Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS
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Com restrição a eventos e comícios em função da pandemia de coronavírus e sem propaganda em rádio e televisão, pequenas cidades da Serra gaúcha vivem, a um mês da eleição, uma campanha eleitoral tímida, com candidatos batendo de porta em porta na busca pelos votos e algumas tentativas de levar o debate político municipal para as redes sociais. Com a rotina muito mais vinculada à comunidade, onde vizinhos se conhecem de longa data e procuram manter a convivência _ prejudicada pela pandemia, é verdade, mas ainda assim muito mais presente do que ocorre em grandes cidades _, é como se os candidatos vivessem em uma campanha permanente. Como a biografia de cada um é praticamente de domínio público, resta fazer chegar aos eleitores em potencial a informação da candidatura.

Nesta quinta-feira, o Pioneiro foi conferir o cenário de campanha em duas cidades da região com menos de 5 mil habitantes: Pinto Bandeira, com população estimada de 23.3206 habitantes, e Nova Roma do Sul, com 3.717. No Nordeste Gaúcho, dos 65 municípios, há 33, ou a metade, com menos de 5 mil habitantes.

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Em Pinto Bandeira, além das duas chapas à prefeitura, 21 candidatos disputam a preferência de 2.333 eleitores para preencher uma das nove cadeiras do Legislativo. A quarta eleição da história altera pouco o cenário tranquilo do mais novo município do Estado, criado em 2013 — antes disso, houve pleito em 2000, mas a localidade voltou a ser anexada a Bento Gonçalves em 2004. Embora dirigentes partidários e moradores relatem visitas de candidatos nas casas do município, a reportagem não presenciou qualquer movimentação na última quinta-feira. Exceto por pequenos adesivos das majoritárias em alguns carros, não há outros sinais de campanha na sede do município. Entre os eleitores, há quem sinta falta de ver a paisagem da cidade transformada pelas tradicionais carreatas e comícios. No entanto, é mais comum um sentimento de indiferença em relação ao período eleitoral. 

— A gente recebe o pessoal e até guarda o material que entregam, mas a escolha acontece por aquilo que se vê no restante do tempo, porque todo mundo se conhece — opina o aposentado José Luiz Ferrari, 84 anos.

Para os candidatos, o "novo normal" da pandemia representa um desafio extra. Se antes era possível reunir grupos de pessoas para apresentar propostas e ideias, essa alternativa esbarra nas limitações do distanciamento social. O resultado é uma campanha que obrigatoriamente precisa ser mais próxima do eleitor.

 — Antes dava para juntar 30 ou 40 pessoas e passar o recado de uma só vez. Agora, tem que gastar a sola do sapato e bater de porta em porta, o que leva mais tempo, mas tem tido uma boa aceitação — afirma o presidente do MDB, Valdir João Sganzerla.

— Na minha opinião, é melhor como está  sendo agora. As pessoas no geral não estão parecendo dispostas a perder tempo para ir num comício. Assim é um contato mais próximo e estamos podendo ouvir muito mais o que eles têm para dizer — complementa o presidente do PDT, Lóris Franceschini.

Conversa pessoal e visita podem decidir 

Em Nova Roma do Sul, a escolha dos 3.018 eleitores se dará entre 25 candidatos a vereador, que concorrem a uma das nove vagas da Câmara, além de duas chapas à prefeitura. Por lá, dirigentes e postulantes têm tentado levar a tradicional conversa para as redes sociais, mas ainda é a visita de casa em casa que tem demandado mais tempo dos candidatos. O clima de campanha também não tomou as ruas e não há nem mesmo comitês instalados, considerados uma "burocracia a mais" pelas lideranças partidárias em uma eleição já dificultada pela pandemia e pela escassez de recursos. 

— O povo é acolhedor, seja da situação ou da oposição, todos são bem recebidos nas visitas. O que o pessoal reclama é que essa pandemia atrapalha. Tem muita gente que estava ansiosa pelos comícios, para ouvir melhor os candidatos  — relata o presidente do PP, Zelvir Anselmo Santi, que acredita que o contato mais próximo acaba favorecendo os candidatos que são efetivamente mais preparados. 

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Gustavo De Déa, presidente do MDB, conta que a campanha também passa pelas redes sociais, mas que a busca por votos em 2020 tem poucos diferenciais em relação aos outros anos. 

— Por ser um município pequeno, onde a maioria das pessoas se conhece, a conversa pessoal, o diálogo e a visita na família, com o devido cuidado e proteção necessária, uso de máscara e álcool gel, são fundamentais, pois historicamente aqui em nossa cidade, as campanhas políticas, tradicionalmente são desta forma.

Entre os moradores, no entanto, prevalece a sensação de que a campanha não começou.

— Com certeza, o contato está mais difícil. Às vezes, eu chego a ficar 12 horas no posto, então, se forem na minha casa eu não vou saber. Fico sabendo do que postam no Facebook, e olhe lá! — conta o frentista Leandro Sosnoski, 34 anos.

"Saber como está a plantação, isso tudo pesa"

Embora em Nova Roma do Sul a campanha apareça de forma um pouco mais intensa nas redes sociais em comparação com Pinto Bandeira, o período eleitoral de 2020 tende a ficar marcado na história do município, que tradicionalmente vivia de forma intensa a disputa pelos votos.

— O comício e a carreata sempre foram os indicativos de como estava a campanha naquele momento. Observar o candidato que movimentava mais carros e mobilizava mais gente sempre foi a nossa "Pesquisa Ibope" — compara o historiador Cristiano Panozzo.

Panozzo cita que, independentemente do contexto anual, as campanhas em Nova Roma tendem a repetir o cenário de rivalidade que se instalou na cidade desde a primeira eleição, em 1988. Naquele ano, o único candidato a prefeito obteve apenas 56% dos votos. De lá para cá, dois grupos políticos se revezam no Executivo, com 20 anos de governo de um e 12 anos de outro. O historiador estima que cerca de 60% dos eleitores têm preferências partidárias definidas e baseadas no histórico de rixas políticas do município. No entanto, dentro desta preferência, ainda é o contato direto entre candidato e eleitor que define o voto a ser depositado na urna:

—  A conversa entre as pessoas ainda tem muito peso. Aquele que conversa de verdade, pergunta da família, quer saber como está a plantação, isso tudo pesa muito em uma eleição de município pequeno. Tem quem faça isso em um período muito curto, e, como as pessoas se conhecem, percebem que não é uma coisa espontânea e acaba pegando mal — explica Panozzo.

Entre os 33 municípios com menos de 5 mil habitantes na Serra: 

:: Alto Feliz é a cidade que tem mais candidatos: 49

:: Guabiju e Protásio Alves são as que têm menos: 18

:: André da Rocha é a que tem menos eleitores: 1.324

:: As 33 cidades juntas têm menos candidatos que as 8 maiores da região (1.552 candidatos).

:: As três maiores, Caxias, Bento Gonçalves e Farroupilha, têm quase o mesmo número de candidatos que as 33 menores (967 contra 999).

:: As 33 cidades têm menos eleitores que Bento Gonçalves sozinha (89.488)

 fonte: TSE e IBGE

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