Prefeitos da Serra devem autorizar uso de medicamentos controversos para tratamento precoce de covid-19 - Política - Pioneiro

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Polêmica03/07/2020 | 18h05Atualizada em 03/07/2020 | 18h05

Prefeitos da Serra devem autorizar uso de medicamentos controversos para tratamento precoce de covid-19

Protocolo permitiria uso ambulatorial de cloroquina e hidroxicloroquina em sintomas iniciais

Prefeitos da Serra devem autorizar uso de medicamentos controversos para tratamento precoce de covid-19 Félix Zucco/Agencia RBS
Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

As 36 prefeituras que compõem a área de abrangência da Associação dos Municípios da Encosta Superior do Nordeste (Amesne), avaliam, por meio da entidade, a possibilidade de adotar um protocolo clínico farmacológico em nível regional que autorize a prescrição médica para tratamento precoce da covid-19. O novo sistema permitiria o uso ambulatorial de medicamentos considerados controversos, como cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina em pacientes que apresentarem sintomas iniciais da doença. 

Diversas entidades, como Organização Mundial de Saúde (OMS), Sociedade Brasileira de Infectologia e o próprio Ministério da Saúde, não constataram a eficácia desses medicamentos. Atualmente, a recomendação para o estágio prematuro do vírus é o isolamento social e uso de remédios que respondam aos sintomas clínicos. 

O uso das medicações citadas é geralmente submetido a pacientes internados e precisa da autorização de pacientes ou familiares. Mesmo com a possível mudança, o procedimento ainda precisará dessa permissão do tratado e da indicação do profissional médico.

O assunto foi tratado na última quinta-feira (2), durante reunião virtual da Amesne, que contou com mais de 70 participantes, incluindo prefeitos, secretários de Saúde e procuradores-gerais da República. No encontro, foram apresentados cases de pacientes tratados pelo kit alternativo de medicamentos, além de dados da suposta eficácia expostos pelo comitê de médicos voluntários Covid-RS. O grupo é vinculado a um projeto em nível nacional liderado pelo médico Roberto Zeballos, conhecido defensor do tratamento precoce da doença. Zeballos, no entanto, também é figura contestada por diversos especialistas, tendo sido desmentido, inclusive por uma das instituições em que atua, o Hospital Israelita Albert Einstein.

Apesar de todas as polêmicas envolvendo o assunto, o presidente da Amesne, prefeito de Cotiporã José Carlos Breda (PP), afirma que, na reunião, houve praticamente unanimidade na aceitação do novo protocolo por parte das prefeituras.

—  Se encaminhou como unanimidade. (O protocolo) está sendo elaborado com o nosso assessor jurídico e com o Ministério Público Federal, mas posso adiantar que é algo muito bem construído. Na verdade, o objetivo é apenas determinar que a decisão de ministrar o tratamento seja do médico junto ao seu paciente. Ele (o médico) que tem a prerrogativa, a ideia é que os prefeitos não criem obstáculos — afirma Breda.

Guilherme Pasin (PP), prefeito de Bento Gonçalves e apoiador a iniciativa, afirma que o protocolo teria também o propósito de garantir segurança profissional aos médicos.

— O cidadão precisa optar pelo tratamento do kit, ou o convencional. É uma escolha dele, mas não só dele, é também uma decisão médica. É um protocolo de segurança profissional e oportunização para os pacientes — afirma.

Caso a região delibere por aderir ao novo protocolo, as secretarias também ficariam encarregadas de dispor dos medicamentos em suas farmácias populares.

Recentemente, o Ministério da Defesa informou que o Laboratório do Exército brasileiro dispõe de 1,8 milhão de comprimidos de cloroquina produzidos, o equivalente a um estoque de 18 anos do medicamento.

Questões ideológicas

Apesar de contestações técnicas em nível mundial, o prefeito Cotiporã diz que não entende o motivo da polêmica acerca do assunto, que alega ter ganho contornos de disputa ideológica:

— Eu não sei o porquê da polêmica. Em qualquer outro tratamento se segue o recomendado pelo médico, mas neste caso virou discussão ideológica.

Prefeitos de Caxias e Bento exaltam alternativa

Os prefeitos das duas maiores cidades da região, Caxias do Sul e Bento Gonçalves, consideraram positivas as exposições na reunião. 

— Foi uma reunião muito embasada que ajudou a apresentar dados concretos e evidências, estudos de caso. Em primeiro lugar, a ideia é garantir o direito de escolha ao médico em optar por tratamentos ao cidadão, desde que ele (o paciente) escolha isso também. O tratamento não prejudica a vida daqueles que compatibilizam a esse tratamento — defende o prefeito de Bento, Guilherme Pasin.

Embora profissionais da saúde que tenham participado da reunião afirmem que a apresentação não foi voltada a médicos, mas sim a prefeitos e com ênfase aos supostos resultados positivos, Pasin afirma que a exposição "não foi panfletária", e sim uma forma de também reforçar a responsabilização da decisão médica:

— É uma faculdade do médico, do profissional, aquele que vai ministrar protocolo de cura. Me parece que seria uma afronta por parte do ente gestor trabalhar isso. Eu, como prefeito, não me sinto respaldado minimamente para dizer o tratamento que o médico deve fazer com o cidadão, mas cabe a nós proporcionar segurança ao médico, de acordo com a vontade do próprio paciente, apresentar o tratamento adequado. O médico é o profissional que tem evidência e responsabilidade sobre o tratamento que vai passar para o paciente dele.

Já o prefeito de Caxias, Flávio Cassina (PTB), reconhece que o tema é polêmico, mas afirma que "em algum momento, tem de se assumir". Na visão de Cassina, a opção do tratamento precoce também traria vantagens econômicas:

— No momento oportuno, pode ser uma tentativa ousada, mas interessante, porque principalmente vai interferir no custo. Até quando vamos conseguir segurar (as finanças)? Daqui a pouco, não vai ter mais estrutura financeira para aguentar a cada semana abrir novos leitos.

De acordo com o presidente da Amesne, José Carlos Breda, a ideia é de que já haja uma definição sobre o assunto na próxima reunião da entidade, que deve ocorrer nos próximos dias.

Farroupilha vai analisar

Já o prefeito de Farroupilha, Pedro Pedrozo (PSB), disse que a decisão vai passar por avaliação, embora tenha mencionado que haverá um "processo de convencimento" interno.

— É um assunto delicado, envolve inclusive preconceitos políticos. Os que gostam são de partido "x" e os que não gostam são de partido "y". Temos resistências médicas com relação a isso também. Vamos fazer um processo de convencimento aqui, mas não dá para divulgar nada. Esse assunto não pode sair para a rua, pois cria animosidade entre grupos. Mas Farroupilha vai estudar o assunto, vai discutir com setor médico e depois ter posição. 

"Eu acho arriscado", afirma secretário da Saúde de Caxias

Embora o prefeito Flávio Cassina tenha avaliado positivamente a possibilidade do tratamento precoce alternativo à covid, o secretário municipal da Saúde de Caxias, Jorge Olavo Hahn Castro, tem ressalvas quanto ao uso ambulatorial dos medicamentos.

— Falando como médico: não existe nenhum estudo científico validado em que se use ambulatorial ou nas fases iniciais da covid-19. Hospitalar em pacientes sintomático entubados, há vários estudos. Agora, precoce e ambulatorial, não. Eu acho arriscado — avalia.

Segundo ele, a decisão, no entanto, será tomada em conjunto com o corpo técnico da secretaria em painel a ser promovido nos próximos dias.

Caso haja a mudança, médicos poderão receitar tratamentos combinados entre hidroxicloroquina e azitromicina; cloroquina e azitromicina, ou ivermectina e azitromicina. Alguns protocolos acompanham de vitamina D e zinco. 

O TRATAMENTO PRECOCE

O que é: municípios da Serra avaliam a criação de um protocolo clínico farmacológico que permitirá tratamento de covid-19 em estágio inicial usando medicamentos como, hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina e ivermectina. 

O que muda: prefeitos alegam que o protocolo garantiria mais segurança profissional a médicos para recomendarem tratamento precoce à doença. Até então, para casos iniciais, o recomendado é o isolamento social e a medicação com remédios sintomáticos. Os medicamentos alternativos são usados para pacientes em estágios mas avançados (entubação).

O que não muda: a decisão médica para o tratamento alternativo precisará ser aceita pelo paciente, seguindo a determinação do Ministério da Saúde.

Quando: decisão deve sair nos próximos dias. Protocolo deve passar a valer ainda neste mês, segundo Amesne.

A polêmica: até o momento, não há estudos científicos que comprovam a eficácia da hidroxicloroquina e entidades técnicas contestam sua recomendação. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é um notório defensor do uso da medicação.

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