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Pela região10/06/2020 | 05h57Atualizada em 10/06/2020 | 05h57

Como foi a passagem do blogueiro investigado em inquérito do STF na Serra Gaúcha

Fundador do Terça Livre, Allan dos Santos comandou atos em Caxias do Sul e residiu em Bento Gonçalves e Monte Belo do Sul durante 4 anos

Como foi a passagem do blogueiro investigado em inquérito do STF na Serra Gaúcha Roni Rigon/Agencia RBS
Allan discursa na Praça Dante para manifestantes em agosto de 2015 em mobilização pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

Alvo de mandado de busca e apreensão no dia 27 de maio no inquérito que apura fake news, mandado instaurar pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o blogueiro Allan dos Santos, que é natural do Rio de Janeiro, morou na Serra Gaúcha – Bento Gonçalves e Monte Belo do Sul. Apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Allan é um dos fundadores do Terça Livre, canal iniciado em novembro de 2014. A operação da Polícia Federal (PF) determinada pelo ministro do Supremo Alexandre de Moraes apreendeu computadores, tablets, celulares e outros materiais relacionados à disseminação de mensagens consideradas ofensivas e ameaçadoras.

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Durante o período em que morou na Serra, Allan participou de várias atividades em Caxias do Sul e Bento Gonçalves. Ele esteve, por exemplo, em manifestações nas ruas contra o governo da então presidente Dilma Rousseff (PT), em 2015 e2016. Inclusive, ele aparece em uma matéria do Pioneiro de 16 de agosto de 2015, sobre protesto contra Dilma, quando esteve na linha de frente do ato e discursou em um palco diante de milhares de manifestantes, na frente da Catedral Diocesana. No texto da reportagem sobre o protesto, consta que Allan era um dos organizadores e afirmou que a mobilização era pelo impeachment e pela convocação de novas eleições. Dizia que os integrantes eram apartidários, mas queriam a extinção do PT.

Também participou, por exemplo, do simpósio Avança Brasil, em 2016, realizado no restaurante Tulipa, nos pavilhões da Festa da Uva, e de debate na UCS TV sobre ideologia de gênero.

Saída de Monte Belo foi devido a ameaças

Em uma entrevista ao canal da jornalista Leda Nagle, em fevereiro deste ano, Allan dos Santos conta que morava em Monte Belo do Sul e que é casado com uma gaúcha. Disse que, em função de uma série de ameaças de morte, foi aconselhado a ir para Brasília, porque lá teria visibilidade e ninguém “encostaria na sua casa, na sua família”. Ele disse que, na Serra Gaúcha, sua família ficava vulnerável, já que ele ia muito a Brasília para fazer entrevistas.

Allan conta que estudou Filosofia e Teologia, que pretendia ser padre. E que TL, de Terça Livre, é para combater a Teologia da Libertação.

Em depoimento à CPI das Fake News no Congresso, em novembro de 2019, Allan reforçou que tem formação em Filosofia e Teologia. Também falou que morava na Serra e que se mudou para Brasília por ter sido ameaçado de morte.

— Aqui está o boletim de ocorrência. Eu morava no Rio Grande do Sul, em Bento Gonçalves. Depois, me mudei para Monte Belo do Sul. E fui ameaçado — manifestou-se.

Em 22 de abril de 2019, Allan denunciou ter recebido ameaças de morte por e-mail. Na mensagem, havia referência aos filhos dele e ameaça à sua esposa, caso as atividades do portal não fossem encerradas.

O prefeito de Monte Belo do Sul, Adenir José Dallé (MDB), diz que viu Alan algumas vezes, mas não teve contato com ele. Segundo o prefeito, o blogueiro era muito discreto em sua passagem por Monte Belo.

Depoimentos de amigos

Allan, 36 anos, é uma figura popular da direita nas redes sociais e seguidor do escritor Olavo de Carvalho, conhecido como ideólogo ou guru da Família  Bolsonaro. Isso pode ser percebido nos depoimentos de dois entrevistados que tiveram relação mais próxima com o blogueiro.

Alexandre Moroso de Lima, que foi o organizador do simpósio do Avança Brasil e é conselheiro do movimento, filiado ao partido Novo, diz que os dois são amigos. Ele conta que Allan morou primeiro em Bento Gonçalves e depois foi para Monte Belo.

— Ele fazia o mesmo que faz hoje, o canal Terça Livre. Ele é um conservador. Contra ideologia de gênero, contra aborto, a favor de armas...

Segundo Moroso de Lima, Allan ficou na região de 2015 a 2019. Ele o define como uma pessoa muito simples, idealista e que faz o ativismo por convicção.

— Tem realmente vontade de ver um país melhor.

O gerente de automação industrial de uma indústria de embalagens em Minas Gerais Leonardo Caleffi, que é de Bento Gonçalves, lembra que conheceu Allan pelas redes sociais.

— Nos tornamos amigos através do Facebook, na ocasião ele morava no Rio de Janeiro. Anos após, ele mudou para Bento Gonçalves, pois se apaixonou por uma bela e adorável bento-gonçalvense, a advogada Caroline (de Gasperi). Em 2015, tive o prazer de conhecê-los pessoalmente. Após um período de namoro, mudaram para Monte Belo, onde casaram e tiveram o primeiro filho.

Caleffi elogia o casal:

— Allan e a esposa Caroline são conservadores, um casal sensacional. Quem tem o prazer de conhecê-los se surpreende com o carisma e inteligência de ambos.

Caleffi, da organização do Vem Pra Rua — Bento, diz que, nas manifestações de 15 de março de 2015 e 13 de março de 2016, Allan e Caroline foram parte dos mais de 20 mil manifestantes na cidade. E em 5 de dezembro de 2016, em ato em apoio à Operação Lava-Jato, Allan discursou.

O inquérito

:: A Polícia Federal cumpriu na manhã de 27 de maio mandados de busca e apreensão em cinco Estados e no Distrito Federal relacionados ao inquérito das fake news que é conduzido pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
:: Foram expedidos 29 mandados de busca e apreensão pelo ministro Alexandre de Moraes, que conduz o inquérito. Entre os alvos, junto com o blogueiro Allan dos Santos, estavam o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB), a ativista Sara Winter e o empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan.
:: O inquérito das fake news foi aberto no Supremo Tribunal Federal em março de 2019 para apurar "a existência de notícias fraudulentas (fake news), denunciações caluniosas, ameaças e infrações revestidas de animus caluniandi, difamandi ou injuriandi, que atingem a honorabilidade e a segurança do Supremo Tribunal Federal, de seus membros e familiares."

A organização do movimento que atuou para derrubar Dilma

O caxiense Alexandre Moroso de Lima lembra que, no seminário do movimento Avança Brasil em Caxias do Sul, em 2016, além de Allan dos Santos, estiveram Carla Zambelli e Luiz Philippe de Orleans e Bragança, descendente da família imperial, cotado para ser candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro. 

Carla e Luiz Philippe são deputados federais pelo PSL de São Paulo e também foram intimados a prestar depoimento nesse mesmo inquérito das fake news, junto com outros deputados. Outra participante foi Joice Hasselmann, também deputada federal pelo PSL/SP, ex-líder do Governo Bolsonaro no Congresso, mas que se tornou forte crítica do presidente e seus filhos.

Blogueiro Allan Santos (último), que sofreu mandado de busca e apreensão por fake news, em Caxias do Sul. A foto, cedida por Alexandre Moroso de Lima, é de um simpósio do movimento Avança Brasil, em Caxias, em 2016. Foi no retaurante Tulipa, na Festa da Uva. Moroso de Lima (à esquerda) era o organizador. Aparecem Eduardo Mauat (na época delegado da lava jato que investigava Lula), Carla Zambelli (atualmente deputada federal pelo PSL), Miguel Nagib (fundador e líder do movimento Escola sem Partido),  Thomas Korontai (fundador do Movimento Federalista no Brasil)<!-- NICAID(14516832) -->
Allan (ao fundo) com líderes de movimentos, em seminário em Caxias do SulFoto: Arquivo Pessoal / Divulgação

Carla era líder do movimento Nas Ruas, Luiz Philippe era do movimento Acorda Brasil, Moroso do Avança Brasil e Allan do Terça Livre, apoiador das ações dos grupos. Havia basicamente todos os líderes dos principais movimentos de todo o Brasil. Essa articulação ocorreu entre 2015 a 2018.

— Organizávamos as manifestações (contra o governo da ex-presidente Dilma Rousseff). Basicamente falávamos por WhatsApp ou por telefone e pelas redes sociais — diz, ressaltando que os principais líderes foram eleitos em seus Estados.

Quando iniciou, o Terça Livre era um programa semanal, apenas às terças-feiras. Conforme consta em seu site, hoje, o Terça Livre é uma empresa de mídia com ampla programação diária em seu canal, um portal de notícias, revista digital, plataforma própria de cursos e livraria, que conta com uma equipe sob a liderança dos seus fundadores, Allan dos Santos e Italo Lorenzon. “Sempre atenta ao nosso valor de fundação: o amor pela Verdade e a fé de que somente Ela nos libertará.”

No site, Allan consta como "pai, empresário, jornalista e apresentador do Boletim da Manhã no canal Terça Livre TV".

Não acreditam na acusação

Nem Alexandre Moroso de Lima, nem Leonardo Caleffi acreditam na acusação de fake news contra o amigo.

— Acho que não existe isso que estão falando, "gabinete do ódio" e tal... O ativismo pró-Bolsonaro é muito forte. Eu participo de vários grupos de whats, por exemplo, de diferentes origens, e as mensagens chegam sempre aos grupos e se multiplicam rapidamente de forma espontânea. Obviamente que muitas vezes chegam fakes ou matérias manipuladas ou "meias verdades", mas eu acredito muito mais em uma visão errada do que em má-fé. Certamente existe má-fé em muitos posts, mas isso não vem de um movimento orquestrado. Eu não acredito nisso do "gabinete do ódio". Não existe gente lá criando matérias falsas. Isso sim é fake news. Se for comprovado algo contrário a isso, eu ficarei muito surpreso, porque realmente nunca vi nada disso — defende Moroso de Lima.

— Acredito na inocência de Allan, pois sempre lutou contra as fake news. Creio que seja uma investida do STF contra o Terça Livre, pelas críticas ao Supremo Tribunal Federal — diz Leonardo Caleffi.

"Muitas ligações", diz vereadora

Quem fez referência à presença do blogueiro em ações em Caxias, logo após o mandado de busca e apreensão contra Allan dos Santos, foi a vereadora Denise Pessôa (PT), na sessão da Câmara do dia 28 de maio. Ela disse que Allan tinha contato com o ex-prefeito Daniel Guerra.

— A gente viu vários nomes (na ação da PF) [...] O Allan Santos, que era aqui da região e algumas vezes veio até aqui na Câmara acompanhar aquela sessão da ideologia de gênero, também ajudava e conversava com o ex-prefeito Daniel Guerra. Então a gente vê muitas ligações e essas fake news e esses ataques nas redes sociais. São ataques profundos às instituições no Brasil e que são gravíssimos — afirmou a vereadora.

Denise lembra de Allan em debate do Conselho Municipal de Educação em Caxias sobre ideologia de gênero, e também em Farroupilha. Allan esteve  debatendo sobre esse tema em um programa da UCS TV em 2016. Quem participou do debate fazendo o contraponto foi a advogada e escritora Mônica Montanari, militante da causa feminista. No programa, diz Mônica, ele foi agressivo, machista, preconceituoso e irônico.

Em agosto de 2015, Allan participou de evento semanal da CICS (Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Farroupilha). Conforme divulgado pela Rádio Spaço, "o filósofo de Bento Allan dos Santos causou polêmica ao afirmar que a ideologia de gênero foi criada por intelectuais socialistas para implantar o socialismo de uma maneira diferente". Na palestra, ele disse:

— Não seria mais por uma via bélica, por meio de assassinatos, como o comunismo sempre fez, mas agora mudando a mentalidade das pessoas, destruindo o establishment, aquilo que elas têm como valores, e usando minorias que acabam se vendendo a esses partidos socialistas.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL  (15/08/2015) Protesto Contra Dilma. Na foto, o professor Allana dos Santos, organizador do protesto contra o governo Dilma (Roni Rigon/pioneiro)<!-- NICAID(11618647) -->
Allan esteve no comando e na linha de frente de atos em Caxias do SulFoto: Roni Rigon / Agencia RBS

O presidente do Republicanos e ex-secretário da  Saúde, Júlio César Freitas da Rosa, diz que nunca viu e nem sabe quem é o blogueiro, nem se o ex-prefeito o conhece. O ex-presidente do Republicanos, Heron Fagundes, que foi assessor de Guerra quando ele era vereador, diz que não lembra de Allan ter tido contato com o ex-prefeito.

Já Alexandre Moroso de Lima acredita que devam ter falado com o então prefeito, mas que Allan e Guerra não tinham contato direto.

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