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Entrevista da 2ª12/04/2020 | 20h57Atualizada em 12/04/2020 | 21h02

"A gente vai voltar, mas com muitas restrições", diz prefeito de Bento sobre retorno das atividades

Guilherme Pasin considera que ações contiveram o crescimento geométrico do coronavírus na cidade

"A gente vai voltar, mas com muitas restrições", diz prefeito de Bento sobre retorno das atividades Antonio Valiente/Agencia RBS
Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

O prefeito de Bento Gonçalves, Guilherme Pasin (PP),  tem uma tarefa ainda maior no combate ao coronavírus. Atualmente, preside a Associação dos Municípios da Encosta Superior do Nordeste (Amesne). Pasin conta que os 36 municípios que integram a entidade iniciaram as primeiras medidas contra a pandemia antes de outras cidades do país, mas ressalta que os municípios ainda não receberam dos governos federal e estadual os testes rápidos para o diagnóstico da covid-19.

Na entrevista, Pasin também destaca as medidas de prevenção que, segundo ele, estabilizaram a curva da doença. Ele também critica a disputa política e o posicionamento do presidente Jair Bolsonaro. Confira. 

Os municípios da Amesne estão preparados para o combate ao coronavírus?
Sim. Os municípios da Amesne iniciaram sua preparação bastante cedo. Eles possuem suas realidades proporcionais ao tamanho de seus municípios, mas de forma microrregional todos estão preparados para o enfrentamento do coronavírus.

Quais são as ações mais urgentes que os municípios da região necessitam?
Sem sombra de dúvida é o envio por parte do Estado e do governo federal de testes rápidos e EPIs (equipamentos de proteção individual) para dar suporte às equipes de saúde dos municípios. Por outro lado, os municípios já fizeram a sua parte e trabalharam o achatamento da curva com o isolamento social, restringiram e impuseram regras à sociedade de acordo com o protocolo da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Ministério da Saúde. Se existe um controle da disseminação do coronavírus aqui na nossa região é por conta da ação administrativa e apoio da comunidade.

A maioria dos municípios da região editou decretos fechando o comércio e a indústria. Há muita pressão das entidades empresariais para retorno das atividades?
Trabalhamos na última semana de março e a primeira de abril de forma muito rigorosa com o apoio da nossa comunidade. A extensão do isolamento começa a gerar bastante dúvidas, incertezas e, proporcionalmente, uma certa agitação na sociedade que se preocupa com seus empregos e negócios. Se o governo federal e o governo do Rio Grande do Sul tivessem mais tranquilidade para expor suas propostas, a sociedade ficaria um pouco mais calma.

Houve flexibilização no decreto de Bento? O que está em vigor no momento?
A única flexibilização no nosso decreto é aquela que o Governo do Estado apresentou. Hoje,  a indústria, os serviços e a construção civil podem operar com algumas restrições. O setor do comércio não tem sua operação aprovada a não ser as áreas de farmácias, alimentos e material de construção. A gente precisa seguir o decreto estadual por hierarquia de lei. Mas já estamos trabalhando junto com o comércio local com a retomada gradual a partir do dia 16. Nos preocupa muito a falta de comprometimento de algumas lideranças da nossa cidade. Se não soubermos respeitar o isolamento social, estaremos colocando em risco tudo o que já foi trabalhado e provavelmente teremos que voltar ao fechamento. A gente vai voltar, mas com muitas restrições.  As saídas de casa devem ocorrer em casos essenciais e usando máscaras. 

Como está a curva do coronavírus em Bento?
Ela está estável, o que nos coloca em total controle da situação. Teríamos que estar ampliando geometricamente o número de casos e estamos estabilizando com cerca de 40, 50 casos de pacientes com sintomas gripais que buscam os nossos ambulatórios de campanha. Porém, estamos trabalhando muito forte com a sociedade civil e o empresariado local para aumentarmos nossos leitos de retaguarda, sejam de isolamento ou de UTI. Trabalhamos para o achatamento da curva, que foi conquistado com muito esforço e comprometimento da nossa comunidade. Ao mesmo tempo, a gente ampliou a nossa capacidade instalada com a construção de leitos de internação e isolamento. Construímos oito UTIs, o próprio Hospital Tacchini está edificando mais 10 leitos de UTI, quatro já entregues.

Há uma preocupação do município em flexibilizar a abertura do comércio a partir do dia 16?
O decreto estadual tem vigência até o dia 15. O comércio necessita, e nós somos muito sensíveis à abertura, mesmo que de forma muito controlada. As contas não param de chegar, o bom senso dos proprietários de imóveis que são alugados para o comércio nem sempre acontece, os salários dos colaboradores precisam ser pagos, as contas pararam de ser pagas porque os estabelecimentos ficaram fechados. O sucesso no combate ao vírus não depende de um prefeito ou de um secretário, é um compromisso de todos. É necessário não apenas por pressão do comércio, mas por compreensão minha. Precisamos de forma muito regrada fazer a economia girar. A gente tem um planejamento muito interessante do governo federal, mas não vimos chegar esses benefícios até os nossos empresários, e o trabalhador não tem a segurança de que seu emprego será mantido.

A economia do município é alicerçada no turismo. Como está a economia do setor?
O turismo é o setor que mais sente. É o primeiro que é alcançado e o último que será retomado. O setor hoteleiro nos orgulha pela criatividade, inclusive ofereceu seus estabelecimentos como leitos de isolamento, os restaurantes dos hotéis estão sendo abertos para o público em geral com todas as restrições. O setor está  se reinventando, mas é o que mais vai necessitar do apoio governamental.  

O prefeito de Garibaldi Antônio Cettolin (MDB) fez uma projeção de redução de 20% da receita do município. O senhor já pediu esse cálculo?
Sim, já pedi esse cálculo, mas ainda é muito incipiente falar em projeções e percentuais. É muito baseado no empirismo. A receita municipal manteve-se estável porque a base de arrecadação ainda não se mostrou adequada ao momento que vivemos. Passaremos a sentir os efeitos no final de abril. Ele será grande, sem sombra de dúvidas, mas será enfrentado de forma muito responsável e madura. Parece muito simples as pessoas apontarem responsáveis mais próximos. Não existe fórmula mágica para retomar a economia e preservar vidas. A gente precisa fazer escolhas, e os nossos esforços são para preservar a vida da nossa gente. 

As manifestações contrárias ao isolamento social do presidente Jair Bolsonaro atrapalham no combate ao coronavírus?
Atrapalha o próprio Ministério da Saúde, que está fazendo um excelente trabalho. A fala do líder dissociada do critério técnico causa embaraço. Comerciantes, empreendedores, trabalhadores, autônomos, todos estão perdendo. O mundo todo está perdendo. Tem países de Primeiro Mundo que têm dificuldades de enterrar os corpos das pessoas que estão sucumbindo ao coronavírus, e nós negando o problema. Mas não me espanta, porque em 2020 tem gente que acredita que a Terra é plana. Aquele que quer fazer política com o coronavírus é digno de desprezo. 

É a favor ou contra a realização das eleições municipais em outubro?
Tenho receio que, se mantiverem as eleições em outubro, a democracia fica afetada pela não existência de debates e condições de apresentação das propostas dos candidatos para a população. É perigoso atribuirmos às redes sociais, pilotadas por quem tem recursos e estrutura de maldade, uma condição de arena da democracia. O adiamento ainda para 2020 se faz necessário.

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