"Pronunciamento desnecessário e que gera insegurança à população", avaliam infectologistas sobre discurso de Bolsonaro - Política - Pioneiro

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Polêmica25/03/2020 | 16h01Atualizada em 27/03/2020 | 10h46

"Pronunciamento desnecessário e que gera insegurança à população", avaliam infectologistas sobre discurso de Bolsonaro

Posicionamento de presidente está desalinhando com políticas do próprio governo e contraria recomendações de especialistas

"Pronunciamento desnecessário e que gera insegurança à população", avaliam infectologistas sobre discurso de Bolsonaro Antonio Valiente/Agencia RBS
Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Se a postura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) já era contestada quando fazia comentários avulsos amenizando os riscos da propagação do coronavírus no país, as críticas se intensificaram após polêmico pronunciamento oficial transmitido em rede nacional na última terça-feira (24) e reforçado em entrevista coletiva no Palácio da Alvorada, nesta quarta (25) pela manhã. No comunicado, Bolsonaro voltou a minimizar o situação e afirmou que autoridades estaduais e municipais devem "abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa". As ações adotadas pelos Estados e pelos municípios, no entanto, estão de acordo com avisos da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O discurso de Bolsonaro, inclusive, difere das próprias medidas recomendadas pelo Ministério da Saúde, além de ir contra o que especialistas da saúde e lideranças mundiais orientam no momento. Na manhã desta quarta, em coletiva em Brasília, Bolsonaro reiterou o posicionamento.

— Certas autoridades estaduais e municipais estão tomando medidas além da normalidade. São verdadeiros donos de seus Estados e municípios, proibindo tráfego de rodovias, de pessoas, fechando empresas, comércio. Temos aproximadamente 38 milhões de autônomos no Brasil. Uma parte considerável desses não está ganhando seu ganha-pão, o que tinha na geladeira em casa praticamente acabou. As empresas não estão produzindo nada, zero. Com isso, não têm como pagar seu pessoal. Se a economia colapsar, não vai ter dinheiro nem para pagar servidor público — disse o presidente.

Embora tenha afirmado novamente que é "preciso tirar da cabeça do povo a sensação de pânico", Bolsonaro projetou um cenário de caos ao país, caso o seu posicionamento não seja adotado pelos Estados e municípios:

— O caos está aí. Se tivermos problemas que devemos ter, como saques a supermercados, entre outras coisas, o vírus continuará entre nós também. Vamos ficar com o caos e com o vírus juntos. O que precisa ser feito? Botar esse povo para trabalhar, preservar idosos, preservar os que têm problema de saúde. Nada além disso. Brasileiros, acordem para a realidade. Se não acordarmos para a realidade, daqui a poucos dias pode ser tarde demais.

O Pioneiro ouviu infectologistas sobre o discurso de Bolsonaro e os prefeitos de Caxias do Sul, Flávio Cassina (PTB), e Bento Gonçalves, Guilherme Pasin (PP), também se manifestaram. A orientação de todos eles é uma só: ficar em casa.

O QUE DIZEM ESPECIALISTAS

Poucos dias após promover movimento aplaudindo os profissionais da saúde, parte da população se posicionou a favor do pronunciamento de Bolsonaro, justamente o oposto do que recomendam médicos e especialistas homenageados. Ao Pioneiro, infectologistas da cidade repreenderam a fala do presidente e reafirmaram a necessidade de isolamento temporário da população:

PRONUNCIAMENTO DESNECESSÁRIO

"O pronunciamento foi de um caráter desnecessário devido às recomendações do ministro da Saúde de que o isolamento planejado é o que a gente quer. Inicialmente já houve um certo desalinhamento, o que gera insegurança na população. O povo já está inseguro, já está consciente de que o isolamento é necessário e ciente de que haverá danos econômicos, mas o povo está pensando na saúde, e o pensamento é o correto. Se daqui duas semanas for avaliado que o isolamento pode ser apenas para idosos e grupos de risco e que essa medida não irá acarretar na saúde da população, esse planejamento mais focado será feito. Mas essas decisões não são únicas, não são isoladas. O que vai nortear possíveis ajustes serão os números, a curva, temos de ter base nos números. Esse isolamento deve ser feito atualmente, sim, e só com o decorrer dos dias pode ser ajustado a um novo cenário." Médica-infectologista Giorgia Torresini

NÃO É UMA MERA "GRIPEZINHA"

"As medidas de contenção são necessárias falando do ponto de vista cientifico-epidemiológico para conter a doença. Ela não é uma gripe comum. A gente sabe que 80% da população que tiver contato não terá doença grave, que bom, pois não teríamos estrutura e nem capacidade de atendimento. Mas sabemos que algumas pessoas necessitarão de internação e UTI, e se conseguirmos minimizar para que tenhamos condição de atendimento e suporte clínico necessário, essa é a melhor medida. Por isso a decisão de fechamento é necessária para que contenhamos as aglomeração e possamos diminuir a propagação do vírus. Eu, como infectologista, sei do quanto essas medidas são importantes e talvez as pessoas não tenham noção da magnitude desta doença." Infectologista Lessandra Michelin

MANTER SITUAÇÃO FAVORÁVEL

"Caxias está com uma situação bem mais favorável hoje em relação a outras cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Estamos tentando blindar a cidade para que a gente continue assim, e essas medidas são extremamente importantes. O mais importante é o isolamento domiciliar. As pessoas têm que se manter em casa, principalmente, quem tem mais de 60 anos. Eles não devem sair de casa nem para ir ao mercado ou farmácia. O ideal é que familiares façam isso para os idosos." Médica-infectologista Andréa Dal Bó, diretora das vigilâncias em Saúde de Caxias do Sul

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