"Esse pessoal acha que o Estado é propriedade da elite", avalia ex-governador Olívio Dutra - Política - Pioneiro

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Entrevista da 2ª30/09/2019 | 11h28Atualizada em 30/09/2019 | 15h43

"Esse pessoal acha que o Estado é propriedade da elite", avalia ex-governador Olívio Dutra

Ex-governador Olívio Dutra (PT) reafirma militância com Partido dos Trabalhadores e avalia atual cenário político no País 

"Esse pessoal acha que o Estado é propriedade da elite", avalia ex-governador Olívio Dutra Marcelo Camargo/Agência Brasil
"Estão tentando desgastar Lula para que em outra ocasião ele não tenha força para derrotá-los", afirmou Olívio Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

É perceptível no discurso do ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra o embrião do que se tornou o alicerce da visão defendida ideologicamente pelo Partido dos Trabalhadores (PT). O também ex-ministro e ex-deputado federal constituinte se autodeclara militante da legenda, embora afirme não ter mais interesse em voltar a concorrer a cargos eletivos.

Ao Pioneiro, Olívio refletiu sobre a política atual do país e avaliou o próprio partido. Confira trechos da entrevista:

O que Olívio Dutra faz da vida atualmente?

Olívio Dutra (PT): Não tenho cargo nenhum, nem mandato, mas nada impede que eu seja militante de ideias e de condutas. Me considero atualmente estudante, leitor e militante. 

O que estuda?

Latim, inglês, mas no geral diria que leio e ouço muito.

O senhor ainda anda de ônibus?

Ando sim, ando de condução. Se me oferecem carona, evidentemente aceito.

Pretende voltar a concorrer a cargo eletivo?

Não. Política não é profissão, nem carreira. É uma missão, um compromisso que se faz em nome de uma ideia coletiva e busca realizá-la quando está exercendo mandato, mas terminado o mandato, voltamos à nossa vida.

Olhando para o passado, algum arrependimento de quando exerceu mandatos políticos? Especialmente como governador?

Foi um momento importante quando governamos. Começava  a surgir o neoliberalismo no país. Nós sempre reiterando posicionamento contra, defendendo que precisamos de mais democracia, em vez do neoliberalismo , controle público sobre o Estado, e não Estado como empresa privada. O povo tem de ser sujeito e não objeto da política. Confrontamos essas ideias, vencemos a eleição e fomos discutir com prefeituras, respeitando os outros partidos, mesmo que não fossem do nosso projeto. Acho que foi um momento rico, não tenho nada do que me arrepender, pois fiz tudo com coração e consciência. Não somos perfeitos, nem donos da verdade, mas também os adversários não o são. 

Contrapondo seu discurso, na última semana, na Serra, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni defendeu repasse integral das estatais à privatização e fez ataques diretos a partidos opositores ("Vamos vender tudo", disse Onyx)

É uma visão estreita, reducionista. Não amplia, não respeita pluralidade de ideias. Na democracia, a disputa é nas eleições, é contrapondo ideias e argumentos. Para o setor que ele representa, a democracia é uma tática, para nós, é uma busca permanente, não é obra feita, acabada, precisa ser sempre aperfeiçoada. A estrutura de poder do Estado precisa estar sob controle público, não pode funcionar melhor para alguns, mas para a maioria.  Querem uma democracia mitigada, sem povo. Nós vamos sempre pleitear a democracia radical. Qualquer pessoa é um ser político, mas nenhum político é mais importante que o ser humano sem cargo político nenhum.

Acha que governo atual exerce política antidemocrática?

As ditaduras que o atual governo apoia sempre interrompem o processo democrático para moldar o país, de cima para baixo, conforme o interesse dos grupos econômicos. Esse povo critica o PT e em alguns aspectos tem razão, porque têm petistas que imitaram partidários dos nossos críticos, e o PT não deveria ter ninguém que se metesse nessa jogada de tirar proveito para si ou para outros da máquina pública. 

Quais foram esses momentos que feriram a democracia?

Tem esse setor que vem há séculos praticando golpes, tivemos o golpe militar que durou 21 anos e o de 2016, que derrubou uma presidente honesta, séria. Esse pessoal acha que o Estado é propriedade da elite. Essa cultura vem de longe, desde o Brasil colonial, enriqueceram com escravatura e agora no Brasil Neoliberal flexibilizam as leis trabalhistas para baratear mão de obra, para o trabalhador ficar desolado de sua força e mais propício a ser esmagado pela estrutura do poder, dos endinheirados, da grande mídia, dos especuladores, que ganham milhões sem gerar emprego. Temos que reconquistar a democracia que foi golpeada e a qualificar. Tem de parar de a democracia brasileira ser suscetível de golpes, conforme interesse das elites.

O senhor indiciou que filiados ao PT praticaram corrupção...

Muito pouco se você comparar com tantos que estão envolvidos com falcatruas, negociatas e dinheiro público. Poucos são petistas. Mas os opositores não têm autoridade nenhuma para cobrar. O atual presidente da República já esteve em diferentes partidos e em todas as ocasiões os partidos de que ele fez parte fizeram parte da base de apoio ao Governo Lula. Estavam dentro para puxar governo para baixo e foram preparando aos poucos o golpe que efetivaram mais tarde e que e então está aí esse cidadão. O crime cometido contra ele (a facada)  veio a calhar, pois com isso ele não pode expressar as suas limitações, não precisou mostrar o que pensava. Eu o respeito como presidente, mas que é líder de uma minoria sectária, que defende ditaduras, que confunde comunismo com socialismo e é uma cabeça que não tem clareza das coisas, mas que acha que com o cargo de presidente pode fazer tudo o que vem fazendo e isso tem complicado a imagem do país. 

Sobre esse resgate, como o partido está se articulando? O "Lula Livre" não acaba sendo um movimento limitado no campo da disputa política? 

O PT não se limita ao Lula. PT se honra de ter esse militante que tem uma história de uma pessoa que veio das camadas mais sofridas e não precisou de nenhum favor para se construir na luta social e popular para se tornar uma pessoa respeitada no mundo todo. O PT se orgulha de ter militante como ele. Mesmo nas dificuldades, o PT se mantém, cresce e está se preparando para enfrentar outras contingências, inclusive eleitorais. Apostamos em eleições transparentes, sérias, em que as pessoas não votem por "ouvir dizer", por fake news. Queremos que os cidadãos tenham consciência de que o voto é importante, tem de votar em quem tem ideia própria, coletiva e solidária que permite o debate, que venha de movimentos sociais e populares. E o PT não é o único partido que expressa isso, é um deles, tem enorme responsabilidade por continuar a ser o maior partido desse campo, mas tem seus limites, tem seus defeitos, tem de superar e fazer a autocrítica. Mas não pode exigir do PT o que os outros partidos não exigem de si mesmos. 

Há necessidade de haver essa autocrítica do partido então?

O PT tem papel importante a desempenhar em fazer a sua autocrítica e não ficar alisando pelo de ninguém que se desviou dos princípios básicos do partido com relação à coisa pública, ao dinheiro público. Ser político, para nós, é trabalhar a construção do bem comum e o protagonismo das pessoas. Em todas as situações em que o ser humano tiver que ser e deve ser solidarizado, deve estar lá um petista. O PT não podia ter ninguém envolvido nessas coisas, tem muito menos do que os outros partidos, mas não deveria ter nenhum.

E o que acha do Governo Eduardo Leite?

Não é novidade esse tipo de governo para mim. Já na década de 70 havia esse fio condutor de pensamento privatista, personalista, excludente, olhando de cima para baixo para o povo. É o papel da elite. São da linhagem de pessoas que achavam que acabar com a escravatura acabaria com economia brasileira. 350 anos de escravatura foi o que formou a cultura da elite brasileira. 21 anos de ditadura foi o que neutralizou a força do povo, deseducou as pessoas a participarem da política e trouxeram esse sujeito que está aí (Jair Bolsonaro). Não, não é ideário de nação.  Esses que defendem o Estado mínimo, pergunto, mínimo para quem? Para as minorias que precisam. E máximo para as elites que podem explorar mais o ser humano. 

Considera Lula ainda um símbolo desse resgate de ideais que mencionou?

Lula é prisioneiro político. Não há nenhum crime tipificado contra ele. Onde está o dinheiro que ele supostamente pegou? Tem suposições, articulações. Lula logicamente tem de dar muitas explicações e ele quer dar e ele pode dar, mas em liberdade. O que o Lula representa é um risco, um perigo, caso seja candidato. Esse setor tem um medo enorme. A questão do Lula é democrática. Tudo está sendo jogado na mídia e é alimentado por quem está se aproveitando dessa situação, tentando desgastar Lula para que em outra ocasião ele não tenha força para derrotá-los. É um cidadão consciente, e é de tirar o chapéu a forma com que está enfrentando tudo isso. Não estou dizendo que é santo, que não teve nenhum equívoco, não, ele é ser humano, mas jamais se aproveitou de dinheiro público. Estão desrespeitando milhões de brasileiros que identificam Lula como aspiração de ideias de justiça, igualdade e fraternidade. Cometeu sim equívocos, porque se aliou a esses que estão hoje no governo, mas que estavam com Lula não para executar o programa de governo, mas para desfazer e desmontar. 

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