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Entrevista da 2ª 11/02/2019 | 05h00Atualizada em 11/02/2019 | 05h00

"Empoderamento é importante", diz primeiro vereador surdo da Câmara de Caxias do Sul

Acessibilidade é bandeira de Tibiriçá Vianna Maineri (PRB)

"Empoderamento é importante", diz primeiro vereador surdo da Câmara de Caxias do Sul Lucas Amorelli/Agencia RBS
Tibiriçá esteve à frente da Coordenadoria da Acessibilidade nos últimos dois anos Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

Primeiro surdo da história do Legislativo caxiense, Tibiriçá Vianna Maineri (PRB) irá trabalhar não só pela comunidade surda. A bandeira do vereador, que esteve à frente da Coordenadoria da Acessibilidade nos últimos dois anos, será pela qualidade de vida de todas as pessoas com deficiência (PCDs). 

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Tibiriçá não adianta projetos, mas garante que logo irá apresentar propostas para a parcela que representa, segundo ele, 23% da população caxiense. Nesta entrevista, concedida na quinta-feira da semana passada, ele fala sobre a importância de sua presença na Câmara — em junho de 2017, quando Elisandro Fiuza (PRB) se licenciou para ser secretário municipal, Tibiriçá não atendeu à convocação para assumir, deixando a vaga para Renato Nunes (PR). 

Ele também avalia os governos do prefeito Daniel Guerra (PRB) e do presidente Jair Bolsonaro (PSL).  Confira: 

Quais as prioridades do seu mandato?
Estou aqui há apenas três dias, mas o objetivo é, representando o PRB, trabalhar em apoio às pessoas surdas. A comunidade surda também faz algumas discussões, tem questões de vida, então, estar aqui, esse empoderamento é muito importante para a comunidade surda. Estou aqui também com o objetivo de fazer a luta pelos direitos da pessoa com deficiência, da comunidade em geral, deficientes e idosos. 

Quais são as demandas da comunidade surda e dos PCDs de forma geral?
A gente percebe que ainda tem muito trabalho para ser feito na questão da saúde, da mobilidade, na questão de convivência, locomoção, educação, então, percebo que tem ainda que organizar projetos que ajudem os cegos, os cadeirantes e ter um local melhor de acessibilidade para essas pessoas. 

Já tem algum projeto que o senhor pretende apresentar?
Tenho alguns projetos já organizados, mas posteriormente estarei apresentando. Eles estão guardados, no momento apropriado estarei apresentando. 

O que o senhor destaca do seu trabalho à frente da Coordenadoria da Acessibilidade?
Acredito que a gente conseguiu fazer um bom trabalho. O trabalho é amplo, a demanda é grande, tem sempre que estar fazendo as defesas, buscando as parcerias junto às outras secretarias para proporcionar qualidade de vida às pessoas. A demanda lá foi muito grande. Da população toda (de Caxias), 23% são PCDs, então são cegos, cadeirantes, surdos, autistas, deficientes intelectuais. Muitos desses deficientes ainda estão escondidos, e trabalhando na Coordenadoria da Acessibilidade a gente percebeu a necessidade dessa luta, deste apoio nas políticas públicas. Muitas famílias desprezam o deficiente e ele fica sozinho, isolado, em depressão. A gente recebeu muitas denúncias de maus tratos, e eles precisam de incentivo para voltar a uma convivência com outras pessoas. A informação é muito importante, e a gente fez esse trabalho na Coordenadoria. 

Quantos surdos em Caxias?
Entre 1 mil e 1,5 mil. A gente não tem uma pesquisa precisa porque já faz muitos anos que não tem Censo.  

De acordo com um levantamento que fizemos, o senhor é, possivelmente, o quarto vereador surdo do Brasil. Qual o sentimento?
Do meu conhecimento, só tem o Pedro (Henrique de Macedo Silva, PSD) que é surdo, que é um vereador em Goiás (na cidade de Catalão). Os outros surdos não são surdos profundos, são DA (deficiente auditivo), então, eles ouvem um pouco. Ontem (quarta-feira, dia 6) eu estava conversando com o Pedro, lá de Goiás, que é surdo profundo como eu. É a segunda vez que ele é eleito vereador. E eu estou aqui há apenas três dias. Ele virá a Caxias do Sul e nós faremos algumas trocas de experiência. 

Como o senhor avalia o governo do prefeito Daniel Guerra?
Para mim, o Daniel está fazendo um bom trabalho. Acredito nele. Acredito na ética do prefeito. A gente sabe que tem muitas polêmicas, mas em termos de trabalho, enquanto líder, ele incentiva muito as pessoas, e eu acredito na ética. 

E o que o senhor acha dos sucessivos pedidos de impeachment?
O Daniel faz um bom trabalho. Eu nunca vi nada que justificasse o impeachment. A gente teve um bom trabalho dentro da prefeitura e só comprova que o trabalho dele é muito bom. 

Como o senhor avalia o início do governo Bolsonaro?
Meu sentimento é bom. Tendo a primeira-dama como intérprete é muito importante para a comunidade surda e os ministérios serem reconhecidos na questão da educação, dos direitos humanos, com pessoas com deficiência, acredito que vai mudar muito. Eu tenho essa esperança que as pessoas sejam reconhecidas, que os surdos tenham mais chance de protagonismo. Começando por Brasília, isso é um bom sinal. 

O fato de a primeira-dama ter envolvimento é bom, então, para vocês?
Ela teve a convivência com as pessoas surdas, principalmente na Igreja Evangélica. Ela tem o tio surdo, isso fez com que ela percebesse a necessidade de facilitar essa comunicação. A comunidade surda sofre muito. Nunca teve um presidente que reconhecesse a pessoa surda, a pessoa com deficiência. A prefeitura reconheceu também me convidando para ser coordenador da Acessibilidade, escolheu um surdo para assumir a coordenadoria. Agora estou aqui como vereador. É um protagonismo muito importante para a comunidade surda. Reconhecer e saber que a gente tem o potencial. Somos modelo para o Brasil, estamos com visibilidade maior, podendo nos comunicar e divulgar o nosso trabalho. 

Por que o senhor não assumiu a vaga quando foi convocado pela primeira vez, em 2017?
Tinha só duas vagas para o PRB. Eu era o primeiro suplente e fui escolhido como coordenador da Acessibilidade e aqui, como não tinha uma terceira vaga, permaneci na Coordenadoria em função do trabalho. Fiquei esperando uma oportunidade que seria agora, porque a demanda na Coordenadoria era muito grande, eu tinha um compromisso de trabalho com o deficiente lá. Então, agora, eu vim para cá porque agora era o momento. Acho importante eu estar aqui. Faltava uma pessoa da comunidade surda aqui discutindo nas sessões, para ter visibilidade e empoderamento.

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