"Só tem saída pela política", diz pré-candidato do Novo ao governo do RS - Política - Pioneiro

Entrevista da 2ª11/09/2017 | 08h34Atualizada em 11/09/2017 | 08h56

"Só tem saída pela política", diz pré-candidato do Novo ao governo do RS

Mateus Bandeira foi secretário de Planejamento e presidente do Banrisul no governo Yeda

"Só tem saída pela política", diz pré-candidato do Novo ao governo do RS Felipe Nyland/Agencia RBS
Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Fundado em 2011, o partido Novo deve disputar o governo do Estado em 2018. Para a estreia na corrida ao Palácio Piratini, o nome será o de Mateus Bandeira. O pré-candidato foi diretor do Tesouro, secretário de Planejamento e presidente do Banrisul durante o governo de Yeda Crusius (2007-2011).

Nesta entrevista, Bandeira aborda as ideias do Novo e apresenta propostas para retirar o Rio Grande do Sul da crise econômica. Confira:

Pioneiro: O que o senhor, como pré-candidato a governador, defende para o RS?
Mateus Bandeira:
Estamos fazendo um esforço em levar as ideias do Novo para as maiores cidades do Estado, queremos constituir núcleos nas 30 maiores, e se a gente conseguir fazer isso, teremos candidatura. A gente passa por uma crise, que é a maior da nossa geração. O RS flerta com uma linha muito tênue entre crise e colapso assim como o Rio de Janeiro. O Brasil, com 2,5% da população (mundial), tem 10% dos homicídios (no mundo). Evidente que a gente está chegando num limite daquilo que a gente conhece de crise fiscal. No RS, são 47 anos de déficit consecutivo, interrompido exclusivamente por um ano no governo (Antônio) Britto, com receitas extraordinárias de privatizações em 1997 e três anos da Yeda (Crusius). Afora isso, a gente permitiu que o Estado crescesse, que as despesas crescessem num ritmo muito superior ao da receita. A gente conseguiu financiar isso com mais carga tributária, menos investimentos e mais dívidas. A gente está caminhando para o colapso social. Na hora em que o Estado não conseguir mais pagar a folha da segurança pública, e falta pouco para isso, a gente caminha para o colapso.

Qual a medida para reverter esse desequilíbrio?
Não tem forma de solucionar um problema sem antes reconhecê-lo. E o nosso problema é o tamanho do Estado, que superou a nossa capacidade de financiá-lo com carga tributária. A gente precisa rever o tamanho do Estado, que é a origem de praticamente todos os nossos males. É a origem da corrupção. Corrupção é sintoma, não causa. O Estado permeando todos os setores da economia com empresas estatais que só servem a favores políticos, o Estado atuando em diversas outras áreas onde não deveria, compromete a sua capacidade de fazer aquilo que ele não pode terceirizar. Segurança pública é uma dessas áreas. O caminho, primeiro, é rever o tamanho do Estado. Segundo, enfrentar a necessidade de reformas que interrompam a trajetória da despesa pública, porque, em parte, a gente chegou nessa situação por irresponsabilidade e prodigalidade dos governos. Todos os governos, talvez com exceção do governo Yeda, foram irresponsáveis em conceder reajustes acima da sua capacidade. Mas, em outra parte, são regras que determinam o crescimento da despesa, como regras generosas de previdência, regras que concedem benefícios e direitos para toda uma sorte de minorias organizadas, ou mesmo em corporações do setor privado. Mesmo que o governo não queira conceder reajuste, o gasto cresceu assustadoramente, por conta de reajustes do passado e do crescimento vegetativo da folha. 2018 será uma oportunidade que talvez a gente nunca tenha tido de fazer esse debate. Difícil que dessa vez tenha alguém apresentando solução fácil.

O senhor coloca que o Estado tem de readequar seus gastos, porém, no âmbito da educação, o salário dos professores é baixo. Sob ponto de vista estratégico, não se desenvolve o país sem investir em educação. Como resolver?
A educação não vai trazer retornos no curto prazo, mas a gente precisa ter grandeza e visão de longo prazo para assegurar como prioridade. Agora, precisa fazer Reforma Política, Reforma da Previdência e como essas coisas estão interligadas? O RS, nos R$ 35 bilhões de receita deste ano, gasta em torno de R$ 28 bilhões com pessoal. Gasta R$ 8,5 bilhões com segurança pública, R$ 8,5 bilhões com educação, R$ 5 bilhões com outros poderes e mais R$ 3 bilhões com outras áreas do Executivo. É um terço segurança, um terço educação e um terço outros poderes, que têm uma parcela extremamente privilegiada dado o tamanho do contingente, e tem uma série de distorções e de injustiças que a gente precisa resolver. Sabe quanto dos R$ 8,5 bilhões de educação são destinados a aposentados e pensionistas? R$ 4,5 bilhões. Hoje, se a gente tivesse uma receita extra de R$ 1 bilhão e fosse aplicar em educação, R$ 670 milhões seriam destinados para aposentados e pensionistas. É impossível a gente pensar que o Estado vai, um dia, remunerar melhor os professores se a gente não resolver essa equação. O RS tem apenas 10% de idosos, de 65 anos para cima. A quantidade de pessoas que tem de 45 a 60  anos aposentados no magistério é absurdo. Essa tendência é de se agravar cada vez mais, porque as pessoas estão vivendo mais. No nosso sistema de aposentadoria, as contribuições de hoje não são suficientes para financiar os aposentados de hoje no RS. Gasta-se mais com aposentado e pensionista do que com professor ativo. Essa é uma das razões pelas quais a gente não consegue oferecer um salário melhor para a categoria.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL 29/08/2017Mateus Bandeira, pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul pelo partido Novo. (Felipe Nyland/Agência RBS)
Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

O governo José Ivo Sartori está conseguindo fazer?
Acho que Sartori começou a encarar recentemente mais de frente o problema. Demorou a perceber. Gosto dele, o conheço desde a época em que foi prefeito de Caxias. Acho que começou mal o mandato, uma das primeiras medidas foi sancionar o projeto de aumento dos salários das categorias mais bem remuneradas, em que pese tivesse sido alertado, inclusive por mim. Aquilo tirou muito da credibilidade dele para promover ajustes. Não se dá aumento para servidor e no outro dia diz que vai conter despesas e não vai pagar fornecedores.

 Qual a posição do Novo em relação a esse fenômeno do governante gestor, caso do prefeito de Caxias?
A gente não precisa de bons gestores, a gente precisa de novas lideranças políticas, comprometidas com a ética, de fato, de bons líderes políticos com capacidade de gestão. Não dá para ser aposta. Não dá para ser novo porque tem pouca idade. Tenho simpatia e admiração pelo fato do Daniel (Guerra) ter conseguido, com um partido pequeno, vencer o candidato do governo do Estado, que teve apoio de partidos tradicionais. Acho isso positivo, mostra um pouco da disposição das pessoas. O exemplo do Nelson Marchezan (prefeito de Porto Alegre) e do João Doria (de São Paulo) mostra que não é possível governar sem fazer construção política. Sou contra o despreza à política. O que estamos fazendo é ingressar na política por acreditar que a gente só faz mudança pela política. As pessoas que formaram o Novo mostram o apreço pela política e a compreensão de que só tem saída pela política.

 

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