"Olho delação e dá nojo", diz deputada federal Yeda Crusius - Política - Pioneiro

Entrevista da 2ª19/06/2017 | 09h00Atualizada em 21/08/2017 | 17h39

"Olho delação e dá nojo", diz deputada federal Yeda Crusius

Ex-governadora comenta Operação Lava-Jato e defende governo Temer

"Olho delação e dá nojo", diz deputada federal Yeda Crusius Alexssandro Loyola/Divulgação
Tucana foi deputada entre 1994 e 2006 e retornou à Câmara neste ano para assumir vaga que era de Nelson Marchezan Jr. Foto: Alexssandro Loyola / Divulgação

A ex-governadora Yeda Crusius (PSDB) retornou à Câmara dos Deputados no início do ano, em um momento completamente diferente daquele no qual ela foi deputada, entre 1994 e 2006. A constatação é da própria parlamentar, que assumiu como suplente na vaga do colega tucano Nelson Marchezan Jr., agora prefeito de Porto Alegre. 

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Entrevista da 2ª

Nesta entrevista, além de avaliar a composição da Câmara e o governo de Michel Temer (PMDB), Yeda relembra o seu mandato como governadora de 2007 a 2010 e a relação conflituosa com o vice Paulo Feijó. Ela também defende-se das acusações de recebimento de propina. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), ela recebeu R$ 1,75 milhão da construtora Odebrecht para facilitar a recuperação de créditos de ICMS à Braskem, empresa controlada pela empreiteira. Confira: 

Pioneiro: A senhora retornou à Câmara no início do ano. Como avalia a atual composição? 
Yeda Crusius: O mundo mudou, o Brasil mudou muito, a Câmara dos Deputados também mudou muito e trabalha como um poder que deve ser independente, autônomo, harmonioso com os outros dois poderes, o Executivo e o Judiciário, ela vive o seu tempo. É muito diferente do tempo que eu vivi. Nesse período, nesse momento de 2017 que eu retorno à Câmara para o quarto mandato, a agenda da Câmara tem essa sintonia com a agenda nacional. Ou seja, ela vai além dos seus trabalhos normais e tem de participar de todo o conjunto de eventos que está marcando uma crise econômica gigantesca, uma instabilidade política muito forte. Nessa quadra do Legislativo, ela tem sido chamada, por exemplo, como foi no ano passado, para julgar um processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Isso não é um trabalho normal, isso toma a energia e o tempo da Câmara e, neste ano, o que vai acontecer é um conjunto muito grande de CPIs para analisar, investigar e propor medidas no campo da penalização. É muita coisa, é abrir a caixa preta do BNDES, da JBS. De novo, nós temos a Câmara fazendo a sua parte, porque ela tem obrigação de fazer. Então, tem sido muito diferente. 

Como a senhora avalia o governo Temer? 
Quando em 2014 se deu a eleição pela segunda vez com uma chapa Dilma-Temer, PT-PMDB, já vivíamos uma convulsão. Desde 2013, manifestações de milhões de pessoas nas ruas pediam a mudança na política, do governo Dilma. Em 2014, não foi diferente, teve a eleição, a Copa do Mundo, foram agendas de 2014 e, imediatamente, começou essa demanda da sociedade pelo fim da corrupção e aí, mais do que nunca, se tornou crítica, porque em 2014 a inflação voltou a ser 10%. Começa uma fase crítica da economia brasileira. Acabou a festa, como eu digo, porque as políticas econômicas estavam batendo de frente com a realidade. A realidade pedia ajustes, reformas, transparência. Não era isso que vinha no governo Dilma, tanto é que em 2015/2016, nós passamos pela maior recessão da história brasileira e a população continuou pedindo nas ruas uma mudança e assim nasceu o impeachment. Não muito tempo antes havia tido o impeachment do (Fernando) Collor, tinha assumido o Itamar (Franco) e nascido o Plano Real. Com a experiência anterior, da população indo às ruas, pedindo a saída do presidente, assume esse presidente que firma um compromisso com o Brasil. Não foi apenas o Plano Real, mas o Plano Real é a grande transformação do Itamar. Quando Temer assume, ele assume no mesmo molde. Ele faz um compromisso que era sair da crise. Os resultados que vimos, principalmente a partir de 2017, mostram os primeiros resultados. Você sai de uma recessão rigorosa e passa a ter indicadores de que a reversão está chegando. O que o Temer fez em 2016 foi mudar a administração do BNDES e da Petrobras, que foram os maiores dutos de corrupção que o Brasil nunca tinha visto antes. Foi através da Petrobras e do BNDES que foram alimentados com bilhões os canais de corrupção que a Lava-Jato está mostrando. Quando Temer assume, ele vai cumprindo esses compromissos. Aí vem essa novidade tecnológica que vem sendo usada na política para cada dia gerar um escândalo, que são as gravações, a transmissão das gravações em gotas pela mídia. Mesmo tendo acertado no campo da economia, tendo levado as reformas para o Legislativo, tendo conseguido boas vitórias, o governo Temer passa para a população diariamente um governo mergulhado em escândalos. São escândalos que misturam a mídia, que recebe vazamentos selecionados, isso está mais do que claro, e fica multiplicando através desses vazamentos em uma tendência em se achar que todo mundo é igual, e não é. Mensalão e Petrolão são criações do PT. E o Temer fez a Lei do Teto, tentando segurar a crise econômica com um limite de gastos, mas ele está aí mergulhado em notícias diárias de escândalos, o que atrasa o que precisa verdadeiramente ser feito para tirar o Brasil da crise econômica.  

O governo é muito focado nas reformas. Como a senhora irá votar a da Previdência?
O projeto que chegou no Congresso é muito ruim. Não é um projeto que o PSDB elaboraria. Como se conserta um projeto que veio ruim? É um projeto que mexe com todo mundo e passa a ser o grande foco das reformas que o Legislativo tem de consultar a sociedade e ver o que aprova e o quanto aprova. Esse projeto está meio retaliado. Uma parte majoritária do PSDB acha que tem de modificar, enxugar a Reforma da Previdência, respeitando a crise política, moral, que a gente está tendo, vendo aquilo que é necessário fazer. Todos concordamos que do jeito como está, a Previdência é responsável pela maior parte do déficit do governo federal. Nós, do PSDB, achamos que a sociedade tem de se manifestar, se informar, mas jamais abdicando de dizer que sem a reforma você não sai da crise. 

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Qual o momento mais difícil do seu mandato como governadora?
Depois do que a gente está vendo aí, um crescimento perigoso de uma semente de ódio plantada há muito tempo, o que fizeram com a Miriam Leitão, com o Alexandre Garcia (jornalistas que foram agredidos verbalmente nos últimos dias), pessoas treinadas para constranger a imprensa livre. Isto lá no meu mandato, essa semente de ódio não tinha brotado tanto assim, mas eu fui, quem sabe, das primeiras governadoras, políticas, que sofreu esse tipo de intimidação na porta da minha casa, muitas acusações das quais ao longo dos processos eu fui inocentada. Foi um tumulto muito grande no campo da oposição, de oposição agressiva, violenta até. Uma oposição que não preza a verdade e, de certa maneira, impedindo que a sociedade avaliasse com mais profundidade, a cada momento que acontecia uma coisa boa, tudo de bom que o governo estava conquistando. O governo vinha em um compasso, não só positivo, mas transformador, foi sair de 40 anos de déficit com investimentos e melhoria de indicadores sociais. Foi uma sequência de momentos, não posso dizer qual foi o pior deles, eu posso dizer qual foi o primeiro, tal qual se deu uma sequência pela oposição raivosa, agressiva, mentirosa e que depois nós reagimos, que foi aquele evento na porta da minha casa, com meus netos. Não há respeito se tem criança ou não, quem é e quem não é, se o mundo é privado ou não. Ali, realmente, foram cenas pela primeira vez acontecidas no país, foram muito violentas e eu posso dizer que foi o pior momento, porque ele apontava que viria outro depois. E os que vieram depois são muito parecidos com os que estão acontecendo agora. 

Além da oposição formal, a senhora enfrentava a oposição do seu vice. Isso atrapalhou o governo? 
Não houve rompimento durante o governo, ele aconteceu antes, durante a campanha. Ele tinha um caminho próprio, ele fazia campanha como ele bem entendia, inclusive, com acusações que mais tarde ele pagou por elas. É uma pessoa problemática. Eu pedi até ao partido dele (Feijó elegeu-se pelo PFL que, no ano seguinte, virou DEM) e pedi a ele mesmo que trocasse... no campo democrático, no campo da eficiência, a ação dele era absolutamente conflituosa. Várias atitudes ele tomou que, enfim, estão escritas pela história, nem é bom a gente lembrar, onde o conflito não fui eu que criei. O conflito foi criado por ele e o partido dele que, infelizmente aqui no RS, não conseguiu ou não quis trazer de volta para uma normalidade democrática o nosso convívio. 

Em Caxias, prefeito e vice também não se relacionam. Algum conselho para os dois?
A história ensina. Como você está citando um exemplo, do meu governo, ali está tudo registrado, os malefícios que isso trouxe, o papel que ele resolveu desempenhar junto à fábrica de escândalos da época. Ele era um ator absolutamente ativo na fabricação de escândalos, os quais ele teve de pagar depois. Não eram verdadeiros os fatos que ele apontava. Mas o prejuízo que ele trouxe foi enorme. Então, se a história ensina, tanto ao prefeito quanto ao vice, na juventude que os caracteriza, estudar a história. Se não se dão bem, se tiveram atritos públicos, mas que eles próprios e os seus próprios partidos estudem a história de modo a aprender o que não fazer. Conforme o caso, ter uma pessoa que busca harmonizá-los, o presidente do Judiciário ou o presidente do Legislativo, seria bom achar alguém que pudesse harmonizar essa relação conflituosa de modo a não prejudicar o próprio governo.

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A senhora é investigada por suspeita de recebimento de propina da Odebrecht. Como está essa situação?
Sou citada. A Polícia Federal está ouvindo. O processo veio para o Rio Grande do Sul e eu fiz questão de ser a primeira a ser ouvida. Quanto mais demorar, mais demora a minha inocentação. Está nesse pé. A Polícia Federal que foi chamada pelo relator da Lava-Jato a fazer o trabalho de oitiva daquilo que os delatores estão colocando nos vídeos que a gente aprendeu a conhecer. Então, está na fase de investigação e eu quero que seja rápida, profunda de tal maneira eu, de novo, ter o mesmo resultado que eu já tive em vários outros processos e que mostram que a política está meio complicada e que a Justiça, na qual eu confio, continue a fazer a sua parte, porque quando a política entra nos tribunais, a Justiça sai por outra porta. E eu quero a Justiça. 

A senhora está tranquila? 
Mais tranquila impossível. Escrevi um texto que tem o título de Banalidade do mal em tempos de Lava-Jato. Qual é o elemento citado para me colocar na Lava-Jato? Eu nunca tive contato com a Petrobras. Eu fui a governadora do plástico verde. A primeira planta de plástico biodegradável do mundo foi eu que conquistei durante quatro anos para que essa fábrica viesse aqui. Então, eu sou acusada de ter feito o plástico verde que, na verdade, deveria render outras coisas, um reconhecimento público. Eu olho delação e, pelo amor de Deus, dá nojo. Coisa muito ruim. Aquela última que foi a montagem da JBS em cima do Temer. Não tem como a gente achar que o Brasil é isso. Então, quero realmente que essa investigação siga, fui a primeira a pedir para ser ouvida e que a gente informe a população de onde saiu esse absurdo e que a gente reponha a verdade em seu devido lugar e não a partir desse fábrica de escândalos que se tornou o país. 

Aécio Neves, envolvido em denúncias e afastado do Senado, deveria renunciar? O PSDB tomará medidas?
Estou junto com o grupo do PSDB pedindo que o partido assuma a sua crise, que é esta crise que o presidente (do partido, Aécio Neves) se afastou e está temporariamente na presidência o senador Tasso Jereissati, que a gente faça eleições esse ano. Isso que estou defendendo e está crescendo. Quero que o PSDB seja democrático, que ele traga para dentro de si toda a situação, que faça a autocrítica, que faça propostas e acho que está encaminhando bem essa questão. Nesta semana, em Brasília, dia 21, temos mais uma reunião da executiva nacional para deliberar sobre convenções para escolha de uma nova direção ainda em 2017. Tenho toda solidariedade, principalmente a Andrea (Neves), irmã do Aécio. Está numa prisão de segurança máxima, que a primeira turma do Supremo manteve. Olhando para os outros que estão soltos, qual é o perigo dela ir para casa? E a solidariedade ao Aécio também, que a sua maneira fez a política, está pagando um preço altíssimo, tem de responder como todos nós a este momento em que aparecem todo tipo de gravações, ilações. É a Justiça que tem de fazer a parte dela.

A senhora disputa as eleições 2018?
Tudo o que a gente tenta fazer com muita antecedência... Eu afirmo que a política é o meu meio de buscar melhorar o mundo e que isso vai ter continuidade. Agora, de que maneira a gente vai ver no ano que vem. 

 

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