"Na área pública, você não tem comando nem mando", diz doutor em Ciência Política - Política - Pioneiro

Entrevista05/11/2016 | 11h25Atualizada em 05/11/2016 | 11h25

"Na área pública, você não tem comando nem mando", diz doutor em Ciência Política

Malco Camargos, professor da PUC Minas, analisa onda de prefeitos eleitos com discurso apolítico

"Na área pública, você não tem comando nem mando", diz doutor em Ciência Política Facebook/Reprodução
Camargos é também diretor do Instituto Ver Pesquisa e Comunicação Estratégica Foto: Facebook / Reprodução

A crise do sistema político brasileiro é uma das explicações para a onda de prefeitos eleitos com discurso apolítico. Conforme o doutor em Ciência Política Malco Camargos, eles aproveitaram a oportunidade e se colocaram como não políticos, porque essa é uma forma de dizer que se é contra os "malfeitos" da política.

Nesta entrevista, Camargos, que é professor da PUC Minas e diretor do Instituto Ver Pesquisa e Comunicação Estratégica, fala ainda sobre governabilidade e a diferença entre administrar uma empresa e uma prefeitura. Confira os principais trechos: 

Pioneiro: As três principais capitais da região sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte) elegeram prefeitos que se dizem não políticos. O que isso revela?
Malco Camargos: Tem uma diferença importante no caso de Belo Horizonte para Rio e São Paulo, porque o candidato de Belo Horizonte, além de se dizer não político, afastou qualquer padrinho político da sua campanha. Enquanto Doria tinha (Geraldo) Alckmin e Crivella tinha (Anthony) Garotinho, a campanha do Kalil em Belo Horizonte, além de se dizer não político, afastava toda e qualquer referência política. Então, não são perfis iguais. Isso revela o quê? Revela que eles (políticos) estão em busca de uma oportunidade gerada a partir da crise do nosso sistema político. Como a mídia tem revelado sistematicamente malfeitos da classe política, colocar-se como não político é um jeito de dizer que você vai contra esses malfeitos, abrindo espaço para o convencimento do eleitor. 

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Em Caxias, o prefeito eleito também adotou o discurso de que não era político, mas, sim, um gestor. Até que ponto, dentro do nosso sistema político, um prefeito pode se manter como gestor negando a política?
A grande questão é que a gestão na iniciativa privada é muito mais simples, porque você tem o poder de comando e de mando. Você pode mandar e as pessoas que não obedecerem têm que procurar outro caminho ou o gestor pode obrigá-las a procurar outro caminho. Na área pública, você não tem comando e muito menos mando. Você tem que conseguir fazer com que as pessoas busquem um ideal em relação àquela política pública. Então, nem todo bom gestor na área privada vai conseguir ser um bom gestor na área pública. Esse é o primeiro fato. O segundo fato é porque a motivação na área privada vem por um ganho pessoal. Você pode dar prêmios, você pode ganhar mais, você pode dar bônus. Na área pública, a satisfação vem pelo bem estar do outro. Não quer dizer que você vai conseguir isso também em relação a sua equipe. Não quer dizer que qualquer bom gestor na área privada vá ser um bom gestor na área pública. 

Ainda sobre Caxias, o prefeito eleito terá na Câmara de Vereadores oposição da maioria dos parlamentares. Como ele pode garantir a governabilidade?
O Executivo não governa sem o Legislativo. Se, naturalmente, na hora da eleição ele não tem essa maioria garantida, ele tem que construir isso durante o mandato. Não quer dizer que as forças eleitorais vão se realinhar da mesma maneira no governo. Nós sabemos que ser oposição no Legislativo, ao contrário, legislando contra os interesses da prefeitura, normalmente o vereador tem muito pouca capacidade de articular as demandas dos seus eleitores, então eles tendem a migrar para a situação. Agora, eu não conheço para afirmar como isso vai se dar na sua cidade.

Há quem compare esse fenômenos dos não políticos com a eleição do ex-presidente Fernando Collor de Melo. O senhor concorda? 
Collor, quando foi eleito, do ponto de vista da nomeação do seu ministério, agiu como alguém apolítico, ou seja, com discurso que os prefeitos têm colocado e com secretariado mais técnico do que filiado a bases políticas. Entre todos os presidentes eleitos desde 1989, ele foi o que mais nomeou técnicos para os ministérios. De outro lado, Collor praticou malfeitos comuns à classe política daquele momento: o caixa 2 de campanha, a pouca clareza, a transparência do dinheiro público e algumas vantagens pessoais. 

O que o senhor pontua de positivo da chamada "nova política"?
O grande mote desses novos políticos é fazer a administração pública funcionar. Mais do que fazer promessas, é fazer a administração pública entregar um serviço de qualidade ao cidadão. Acho que esse discurso é bastante apropriado e necessário para o momento. Então, se eles derem conta, de fato, fazer com que a máquina pública trabalhe de maneira mais eficiente, eles deixam um legado importante para a política brasileira. 

 
 

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