Violência que gera mais violência: o que explica os recentes linchamentos no Rio Grande do Sul - Polícia - Pioneiro

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Fenômeno social24/07/2020 | 19h37Atualizada em 24/07/2020 | 19h38

Violência que gera mais violência: o que explica os recentes linchamentos no Rio Grande do Sul

Socióloga, psicanalista e policial avaliam os casos recentes de espancamentos e até assassinato

O desabafo do guarda municipal Esteves Rosa, 42 anos, que evitou o linchamento de um ladrão no centro de Caxias do Sul, na última terça-feira (21), escancara uma obviedade que muitos preferem ignorar: "é desproporcional tirar a vida de alguém por causa de um celular". O furto do aparelho telefônico e sequência de agressões interrompidas pelo servidor, que estava de folga, aconteceram na Rua Doutor Montaury, por volta das 20h. O alvo de um grupo de pessoas enfurecidas era um rapaz de 18 anos, que minutos antes havia arrancado o celular de uma mulher e tentou fugir correndo. O ladrão foi alcançado e apanhou bastante. Poderia ter morrido com socos e pontapés, caso não houvesse a intervenção de Esteves.

A tentativa de linchamento aconteceu horas antes de Marcio André da Conceição Loureiro, 41 anos, ser espancado e assassinado a tiros em Rio Grande. Caroneiro de um caminhão de gás, ele desembarcou para ajudar uma criança que havia sido atropelada pelo veículo conduzido por um colega dele — a menina sobreviveu. Após o crime, populares saquearam a carga de botijões. No início do mês, as redes sociais comemoraram o vídeo que mostra criminosos, presos por diversos delitos, espancando, dentro de uma cela, o assassino confesso de uma avó e neta em São Marcos.

Os casos levantam a seguinte questão: por que aquelas pessoas decidiram reagir com agressividade e fazer "justiça com as próprias mãos" se o assaltante já estava rendido e imobilizado em Caxias, se o caroneiro em Rio Grande parou para ajudar a vítima de atropelamento e se o assassino de São Marcos já estava preso? 

Para a doutora em Sociologia e professora da UCS, Aline Passuelo de Oliveira, as situações refletem um componente da sociedade violenta que fazemos parte e, por isso, os casos de linchamento retornam periodicamente. A base é histórica, com os povos indígenas dizimados e a escravidão.

— O Brasil foi o último país do continente a abolir a escravidão. A República foi proclamada há pouco mais de um século. No ponto de vista histórico, é muito recente. Boa parte da existência da nossa sociedade foi avalizada por práticas violentas. A outra questão é a descrença com o Estado e a Justiça. São estes comentários comuns de que "não vai dar em nada" que levam ao "vamos resolver" — aponta.

A psicanalista e professora da UCS Ana Lucia Waltrick dos Santos explica que a agressividade faz parte da constituição psíquica de cada indivíduo, mas é controlada pela cultura social. O crime representa um rompimento desta ordem estabelecida.

— O homem se diferencia dos outros animais pela cultura. É a cultura que estabelece as formas e modelos para que se possamos conviver com os demais. Estes fenômenos sociais, esta explosão agressiva (os linchamentos), mostra que algo não está sendo suficiente para esta cultura se regular. Há um enfraquecimento das leis na nossa cultura contemporânea. Quando a lei perde o seu papel, surge esta possibilidade da violência, que é esta chamada justiça com a próprias mãos — aponta.

Ambas as professoras apontam que, no momento em que um criminoso é flagrado, acontece o efeito manada, em que pessoas agem de maneira semelhante mesmo que de forma irracional. A frustração e a desesperança levam ao sentimento de revolta que reverbera. A psicanalista Ana Lucia explica que, com os demais envolvidos demonstrando o mesmo sentimento, ocorre uma identificação imediata e a conclusão é de que o componente agressivo pode ser expressado.

— O que vemos é a reação desmedida diante do fato em si. O normal é as pessoas refletirem antes de agir, o que não acontece. Só que o que essa pessoa (diante do ladrão) está enxergando é que ela já pode ter sido assaltada, ou talvez um parente, e conhece outras tantas histórias (de crimes). Vai enchendo o copo das frustrações e do desamparo. Infelizmente, ninguém está livre de ter uma atitude desmedida — avalia a doutora em Sociologia, Aline de Oliveira.

Educação é o caminho para uma sociedade menos violenta

A psicanalista salienta que o componente agressivo é fundamental na constituição psíquica para que o ser humano possa se proteger em determinadas situações. Só que esta agressividade precisa ser direcionada. Em casos de linchamentos, aparece apenas como um componente destruidor.

— Este componente agressivo é um motor também. Dentro do sujeito, na constituição do psiquismo, existe uma força que demanda ações. Estas podem ser em prol da sociedade, o que é feito pela educação. Não é só ir para escola, mas oferecer oportunidades de toda ordem para que o sujeito possa encontrar outras vias de expressão — explica Ana Lucia, que reforça que enquanto o laço social existente permanecer enfraquecido, essas expressões agressivas e violentas irão surgir com mais facilidade. 

Tornar a sociedade gaúcha e brasileira menos violenta é uma mudança de longo prazo, opina a professora em Sociologia:

— É uma mudança cultural e de mentalidade, o que é difícil de acontecer. A defesa que temos, e única possibilidade de mudança, é pela educação. É promover reflexões autônomas, cada pessoa pensando qual seria os passos que devemos tomar como sociedade. É uma mudança para longo prazo, mas que é uma responsabilidade de cada um de nós refletir e começar a tomar atitudes — explica Aline.

"Justiça com as próprias mãos" é crime

O crime cometido pelo ladrão que arrancou o celular de uma mulher e foi espancado em Caxias é classificado como furto mão grande, um dos delitos mais corriqueiros na cidade. É justamente neste tipo de caso que costumam acontecer as agressões e espancamentos contra o criminoso, aponta o delegado Vítor Carnaúba.

— Acontece porque o autor está desarmado. É um crime menos grave e que tem uma pena menor, em que (o ladrão) está procurando por alguém distraído. Pode ser um pedestre ou num comércio. Ele procura um celular, uma carteira ou uma bolsa. São valores pequenos, porque, normalmente, são usuários de drogas que praticam (para saciar o vício). Eles pegam e fogem. Quando está correndo, a população vê que está desarmado e não oferece risco, então, por vezes são capturados pelas pessoas em volta. Até por serem pessoas já debilitadas (pela dependência química). Há casos esporádicos em que os envolvidos se passam um pouco nesta imobilização ou o autor é agredido, e chega com lesões na delegacia. Isso acontece. Linchamento ou tentativa não é comum, mas acontece de tempos em tempos.

Os furtos mão grande são uma realidade enfrentada em cidades populosas, como Caxias do Sul. Em alguns casos, há violência física como a vítima ser derrubada durante o puxão da bolsa. Os relatos revoltam a comunidade que sente-se impedida de caminhar tranquila pela área central. O delegado da 1ª Delegacia de Polícia (1ª DP) ressalta que a chamada justiça popular é um crime, com pena mais grave que um furto de celular, e que será investigada pela Polícia Civil.

— Se ocasionar a morte, as pessoas responderão por homicídio. Entram nessa neurose coletiva, quando começa todo mundo a achar que tem que surrar, e daqui a pouco uma pessoa que nunca teve uma passagem está presa respondendo por homicídio qualificado, um crime com uma pena bem grave. É algo que, no fundo, não tem necessidade. É uma situação que já está preso. Tem que deixar a Justiça fazer o trabalho dela — aponta o delegado Carnaúba.

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