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Combate ao tráfico21/07/2020 | 10h51Atualizada em 21/07/2020 | 10h51

Quase 2 toneladas de drogas foram apreendidas em Caxias do Sul no primeiro semestre

Números de 2020 são positivos, mas especialistas apontam que combate ao comércio de drogas ainda é limitado

Quase 2 toneladas de drogas foram apreendidas em Caxias do Sul no primeiro semestre Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Caxias do Sul duplicou o número de flagrantes por tráfico de drogas Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Caxias do Sul duplicou o número de flagrantes por tráfico de drogas e, consequentemente, ampliou o número de drogas apreendidas. Somadas, as forças policiais recolheram mais de 1.873 quilos de drogas nos primeiros seis meses deste ano. Apesar dos números altos, Brigada Militar (BM) e Polícia Civil relatam que o comércio ilegal continua disseminado pela cidade e que sua extinção precisaria de uma mobilização de vários setores. Afinal, o consumo de drogas também é um problema de saúde pública.

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O combate ao tráfico de drogas não é uma prioridade do programa RS Seguro, estratégia do governo estadual para o combate à criminalidade. Os resultados seriam uma consequência da estratégia policial para reduzir outros indicadores criminais, principalmente os homicídios que estiveram em alta entre abril e junho.

O coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e ex-Secretário Nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho, discorda de uma tese que constantemente é repetida por autoridades brasileiras: que o tráfico de drogas é o vetor da criminalidade:

— Dizer que basta atuar contra o tráfico e que, com isso, automaticamente os outros crimes irão cair, é uma das grandes mentiras que se fala no Brasil. Há estudos que mostram que o tráfico afeta no máximo 20% dos crimes em uma cidade grande.

"70% das drogas apreendidas são feitas em 1% das ações policiais", comenta coronel

O coronel, que atualmente presta consultoria sobre segurança, defende que o que previne crimes é a atuação policial e sua presença nas ruas. Contra índices elevados de homicídios, por exemplo, é preciso um policiamento atento nestes bairros periféricos, com abordagem de pessoas e veículos, e a investigação rápida para descobrir os autores. Para Silva, um aumento nas prisões pode ser explicado, às vezes, pela atuação de um delegado, um comandante da BM ou um grupo de policiais mais empenhados em um missão.

— Durante governo (José Ivo) Sartori houve o parcelamento dos salários dos policiais e os crimes explodiram. Aquele aumento aconteceu porque diminuiu a ação preventiva da polícia, e não porque houve aumento das drogas. É um efeito também visto em outros estados. Há uns três anos, lembro de um aumento do salário aos oficiais (da Polícia Militar) em Pernambuco, e que foi decidido de forma menor para os soldados, o que levou a um aumento de 200% nos homicídios — explica o coronel reformado, que também ressalta que não adianta o aumento das estatísticas ser apenas de prisões de pequenos traficantes.

— O que se considera bastante, para explicar um possível aumento da chegada de drogas, é quando há uma quantidade muito grande de apreensões de drogas. Prisões de pequenas quantias elevam os números, mas não têm resultado. Em São Paulo, 70% das drogas apreendidas são feitas em 1% das ações policiais — aponta.

DROGAS APREENDIDAS EM CAXIAS
Volume recolhido pelos diferentes órgãos policiais no primeiro semestre deste ano:

12º BPM
:: 28,9 quilos de maconha
:: 1,5 quilos de crack
:: 2,4 quilos de cocaína

4º Batalhão de Choque
:: 35,6 quilos de maconha
:: 21,9 quilos de crack
:: 12,4 quilos de cocaína

Draco
:: 64,5 quilos de maconha
:: 12 quilos de crack
:: 15 quilos de cocaína

Quem tiver informações sobre tráfico de drogas em Caxias do Sul ou na região pode denunciar diretamente à Draco pelo WhatsApp número (54) 98432-9312.

Polícia Rodoviária Federal
:: 1,48 tonelada de maconha
:: 1,06 quilo de crack
:: 198 quilos de cocaína

"Uma tonelada de drogas consumida por semana"

O fechamento das fronteiras, no início da pandemia de coronavírus, seria uma das explicações para o crescimento no volume de drogas apreendidas, segundo o especialista em segurança pública Charles Kieling. O pesquisador estima que uma tonelada de drogas seja consumida por semana em um centro urbano como Caxias do Sul:

— Ficamos praticamente um mês e meio com as fronteiras fechadas. A produção continuou nos países que fazem drogas, mas ficaram represadas. Ou seja, foram aproximadamente oito toneladas que atrasaram e depois vieram ao mesmo tempo. Não significa que houve aumento do consumo. Aumentaram as prisões, mas não reflete de forma significativa na segurança e criminalidade. Se houvesse mais policiais e um trabalho mais efetivo, teriam pego muito mais drogas.

Entre janeiro e junho, a média foi de 1,30 prisão por dia em Caxias do Sul. Se a tendência for mantida, a cidade ultrapassará a marca de 400 ocorrências de tráfico de drogas pela primeira vez nos últimos 10 anos, conforme os dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP). 

Para Kieling, esta média de uma prisão por dia é pouco diante do volume do tráfico. Ele ressalta que, apesar da expansão do crime organizado para outras práticas, a venda de drogas continua sendo um dos pilares mais lucrativos da criminalidade.

— A droga gera muito capital. Chegam a tirar 200% em cima do valor da cocaína vendida. É um lucro muito grande. E esse dinheiro é investido, tanto em armas, como em imóveis e pequenos negócios. Aumentou a apreensão de drogas, mas não é expressivo para o volume que circula no estado. Falta visão estratégica e comprometimento das políticas públicas —  argumenta.

Para o delegado Luciano Pereira, da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), este aumento do volume em razão da repressão de drogas nas fronteiras não é um fator tão relevante. O chefe da Draco entende que a disponibilidade da droga na cidade é semelhante a de outros anos. A mudança, então, seria na eficiência policial.

— Vejo mais por este aumento do consumo, durante a pandemia, e a diminuição do fluxo de veículos. A amostragem se tornou mais precisa. As ações policiais foram intensificadas e ficaram mais eficientes. Outro fator para o aumento foi a suspensão das visitas nos presídios — comenta.

A entrada de drogas durante as visitas de familiares nas cadeias é realidade admitida pelas forças estaduais desde a proibição das revistas íntimas. Das oito casas prisionais na Serra, apenas o presídio de Bento Gonçalves possui um scanner corporal — equipamento dito como o mais eficaz para detectar ilícitos escondidos no corpo.

Com a suspensão das visitas ainda em março, Caxias do Sul passou diversas tentativas de injetar drogas dos presídios. São arremessos quase diários por cima do muros, drogas escondidas dentro de embalagens de comida ou remédios e até um homem que forçou sua prisão, para tentar levar maconha escondida no braço engessado. Estas prisões também contam para o aumento das ocorrências de tráfico.

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