Morte de menina que virou símbolo pela paz em Caxias do Sul completa cinco anos - Polícia - Pioneiro

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Para nunca esquecer16/07/2020 | 07h40Atualizada em 16/07/2020 | 08h01

Morte de menina que virou símbolo pela paz em Caxias do Sul completa cinco anos

Sessão solene e instalação de placa em rua estão entre as lembranças à estudante Ana Clara Benin Adami, assassinada aos 11 anos

Morte de menina que virou símbolo pela paz em Caxias do Sul completa cinco anos Arquivo pessoal / Divulgação/Divulgação
Sessão solene e instalação de placa em rua estão entre as lembranças à estudante Ana Clara Benin Adami, assassinada aos 11 anos Foto: Arquivo pessoal / Divulgação / Divulgação

Cinco anos atrás, Caxias do Sul perdia mais um pouco da ingenuidade que se vai quando uma infância é interrompida. Naquele 16 de julho de 2015, a estudante Ana Clara Benin Adami, 11 anos, foi morta com um tiro nas costas quando caminhava com uma amiga até a catequese no bairro Pio X. A Polícia Civil concluiu que o crime aconteceu em uma tentativa frustrada de assalto praticada por Gedson Pires Braga, 24, conhecido como o Cavernoso. Um mês depois do assassinato, Braga foi executado a tiros no bairro Euzébio Beltrão de Queiróz numa disputa envolvendo grupos de traficantes. Sem um julgamento público e um criminoso para condenar, o sentimento é que o caso não teve uma solução.

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O processo foi arquivado em 13 de setembro de 2019, procedimento que é automático quando o réu está morto. O Ministério Público (MP) concordou com conclusão da investigação policial e o arquivamento foi acolhido pela juíza Gabriela Irigon Pereira.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL (13/07/2017) Caso Ana Clara Benin Adami. Reportagem entrevista os pais Sérgio Olivo Adami e Márcia Elisa Benin e verifica o cenário onde a menina Ana Clara foi morta, no bairro Pio X, defronte a escola da catecismo. (Roni Rigon/Pioneiro).
Em 2015, Ana Clara Benin Adami, 11 anos, foi morta quando caminhava com uma amiga até a catequese no bairro Pio XFoto: Roni Rigon / Agencia RBS

A falta de um desfecho afetou a mãe da menina, Márcia Elisa Benin. Ela ressalta que seu pedido nunca foi por justiça, mas sim por uma explicação para o ocorrido. Em uma carta, ela desabafou sobre os cinco anos sem a filha (leia abaixo).

— Os boatos que circularam (na época) foram só para nos deixar mais apreensivos e tristes. Não tinha motivo para mandarem matar uma criança, não consigo aceitar. Um assalto faz mais sentido, porque ela estava com a mochila nas costas e ele também pode ter visto o celular. Drogaditos são assim, buscam que puder para trocar por drogas. Infelizmente, ele estava com a arma na mão. Não precisava. O melhor é esquecer essa parte e lembrar da Ana como uma criança que abriu a questão da paz no nosso município.

A referência de Márcia é ao Dia Municipal do Ato pela Cultura da Paz, que ocorre no dia 16 de julho como forma de lembrar a estudante. Nesta quinta-feira, também será instalada as placas da rua nomeada em homenagem à menina no Loteamento Villa Di Fillippo, no bairro São Caetano. As homenagens foram propostas pelo vereador Alberto Meneguzzi (PSB). A proposição do nome da Rua Ana Clara Adami foi aprovada por unanimidade do plenário em outubro de 2017.

— É o reconhecimento à memória da menina que virou um símbolo da luta por um mundo melhor. Foi uma maneira simples de confortar, um pouco, o coração dos pais dela — comenta o parlamentar.

CARTA DA MÃE

Muito tenho refletido nesses cinco anos sem a Ana Clara... Quanta transformação houve em minha vida!
Quanto aprendizado, quanta percepção nas entrelinhas do cotidiano.
Quanto seleta me permite ser, quantas tolices abdiquei, quanta real importância tenho dado ao meu semelhante!
Quanta leveza dei a cada situação que tenho enfrentado!
Não me tornei uma pessoa amarga, travestida de dureza, mas sim, uma pessoa que melhorar-se um pouco a cada dia, que coloca amor em cada gesto praticado, um olhar mais doce a quem não compreende minha dor.
Estou evoluindo e quão grata sou a tudo isso!
Eu procuro sorrir, mesmo quando meu coração insiste em chorar, mas confesso que há dias em quem me entrego a saudade... e está tudo bem! É permitido chorar, sim, afinal continuo sendo mãe, humana...
Muitos comentam que não podem imaginar essa dor! Verdade, você não pode! E eu não consigo descrevê-la a você, pois é uma "dor que não tem nome"!
Hoje, tenho lembranças maravilhosas de tudo o que vivi e senti com a Ana Clara, porque tudo o que habita em meu coração simplesmente é amor!
Nos mantemos unidas através de um lindo laço dourado imaginário... eu daqui... ela de acolá... vez ou outra sentindo uma cutucada de leve... eu daqui... ela de acolá...
Ah minha borboletinha Ana Clara... voe... voe cada vez mais alto, até o dia em que eu também me transformarei em borboleta e, que nesse imenso jardim florido em que estás agora, haja o tão merecido reencontro!

Márcia Elisa Benin

HOMENAGENS

:: Homenagem durante a sessão solene da Câmara de Vereadores, na manhã desta quinta-feira. Serão distribuídas máscaras de proteção contra o coronavírus, confeccionadas com o nome de Ana Clara, para cada vereador.

:: Instalação das placas na Rua Ana Clara Adami, no loteamento Villa Di Fillippo, no Bairro São Caetano, às 14h.

:: Missa de Ação de Graças ao Dia do Ato pela Cultura da Paz Ana Clara Adami, na Igreja de São Pio X. A celebração ocorre às 18h desta quinta-feira.

Investigação apontou um tiro acidental

A tese de um assalto frustrado tem por base uma prova técnica: a trajetória do tiro. O Instituto-Geral de Perícias (IGP) desenhou o traçado do disparo que atingiu a região lombar, à esquerda, atravessou o corpo da menina e saiu pelo abdômen. A simulação demonstra que a arma estava em um ângulo "sem sentido", com o disparo apontando em uma diagonal para cima. Se a intenção do criminoso fosse matar a menina, o "tradicional" seria um disparo reto e que mirasse a cabeça da vítima — e, possivelmente, atirando mais de uma vez.

A prova técnica confere com a falta de motivação para matar uma criança de 11 anos. Na época, dezenas de boatos e denúncias apareceram e acabaram descartadas, uma a uma, durante meses de investigação. Quando o inquérito policial foi remetido, quase dois anos após o crime, o Ministério Público (MP) pediu novas diligências sobre uma antiga suspeita, que também acabou descartada. Viciado em crack e com passagens por crimes com arma de fogo, Braga sempre foi apontado como o único suspeito do crime. Uma testemunha confirmou ter visto o rapaz circulando pelas ruas do Pio X nos dias anteriores à morte da criança. Naquela época, diversos assaltos a pedestre aconteciam no bairro e a investigação chegou até o nome de Braga, que estaria cometendo os roubos para comprar drogas e saldar dívidas com um traficante do bairro Euzébio Beltrão de Queiroz.

Foi numa dessas investidas, que o criminoso teria decidido atacar Ana Clara e a amiga, a poucos metros da Igreja Pio X. As duas meninas estavam sozinhas e com celulares à vista, o que teria chamado a atenção de Braga. As garotas estavam de costas e não perceberam a aproximação do jovem. Com base na perícia e no relato da amiga da estudante, a Polícia Civil concluiu que Braga sacou a arma e disparou acidentalmente antes mesmo de anunciar o roubo. Assustado com o próprio disparo, o bandido fugiu correndo sem levar nada.

"Não temos dúvidas que foi esse o autor"

Nos dias seguintes ao crime, quando seu nome figurava como o principal suspeito do assassinato de Ana Clara, Braga compareceu à Delegacia de Homicídios e prestou depoimento, como testemunha, sobre o homicídio de um amigo. Extraoficialmente, os policiais também questionaram sobre a morte da menina. O rapaz negou qualquer envolvimento. Sem um mandado de prisão ou provas, ele foi liberado.

Com o decorrer da investigação, a DPCA representou pela prisão preventiva de Braga. O pedido foi deferido pelo Poder Judiciário, porém, o ofício do mandado de prisão chegou na delegacia poucos dias após a morte do suspeito.

Braga foi encontrado morto na madrugada de 16 de agosto no bairro Euzébio Beltrão de Queiróz. Três réus foram condenados pelo homicídio. A investigação policial fez parte a Operação Sepultura, que combateu uma sangrenta disputa pelo tráfico de drogas naquele bairro, que deixou cinco mortos, entre eles, Braga. 

— O que lamento é não ter podido prender ele enquanto estava vivo. Não temos dúvidas que foi esse o autor. Tivemos o reconhecimento fotográfico e os demais indícios também apontavam — afirma o delegado aposentado Joigler Paduano, que hoje vive no Paraná.

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