Em 43 anos, 3.628 pessoas foram assassinadas em Caxias do Sul  - Polícia - Pioneiro

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Contador da Violência18/10/2019 | 16h26Atualizada em 18/10/2019 | 16h34

Em 43 anos, 3.628 pessoas foram assassinadas em Caxias do Sul 

Levantamento, desde 1976, está na ferramenta online do Pioneiro

Em 43 anos, 3.628 pessoas foram assassinadas em Caxias do Sul  Porthus Junior/Agencia RBS
A maior chacina de Caxias do Sul: quatro pessoas, incluindo uma grávida, foram executados no Beco da Esperança Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

Desde 1976, 3.628 pessoas foram assassinadas em Caxias do Sul. O levantamento sobre o histórico dos  últimos 43 anos foi acrescentado ao Contador da Violência, ferramenta online alimentada pela reportagem que apresenta os dados de crimes contra a vida na maior cidade da Serra. As estatísticas demonstram o crescimento dos homicídios e comprovam que a década atual já é a mais violenta da história de Caxias do Sul.

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Entre janeiro de 2011 a outubro de 2019, já foram contabilizados 1.040 assassinatos. É a primeira vez que a Caxias do Sul alcança a marca de mil assassinatos em 10 anos. Para comparação, foram 935 mortes por violência entre 2001 e 2010 — 105 assassinatos a menos do que a atual década.

Por outro lado, a violência está em queda desde 2016, até agora o ano mais violento da história de Caxias do Sul com 150 assassinatos em números absolutos. Porém, considerando a proporção de mortes por habitantes, 1989 é o ano mais letal da história, com 116 casos e uma taxa de 44 mortes violentas para cada 100 mil habitantes — na época, a população estimada era de 260 mil habitantes.

A redução atual pode levar 2019 a não alcançar a marca de 100 mortes, algo que só aconteceu duas vezes desde 2006: em 2014, quando foram 99, e 2008, que teve 96 assassinatos.

O Contador da Violência também passa a disponibilizar um levantamento mensal dos assassinatos com dados desde 2000. Neste período de 19 anos, apenas um mês terminou sem assassinatos: janeiro de 2008. Já o mês mais violento foi outubro de 2016, com 25 mortes violentas.

Somados os 19 anos, é possível perceber que os assassinatos são mais comuns em julho (189 mortes) e menos em dezembro (137).

O Contador

O Contador da Violência foi lançado no dia 30 de setembro de 2016, após Caxias do Sul registrar o 100º assassinato daquele ano. O objetivo era levar ao cidadão informações que historicamente não estão disponíveis e organizadas em sites governamentais, em páginas de órgãos de segurança ou de ONGs que lidam com a violência. A ferramenta vai além dos números e apresenta o perfil das vítimas, as circunstâncias dos crimes e acompanha desde a investigação policial até o julgamento de todos os crimes contra a vida consumados em Caxias do Sul. Os dados, compilados desde 1º de janeiro de 2016, já apresentam 458 assassinatos.

Sobre os crimes anteriores a 2016, o Pioneiro possui o levantamento de cada ano desde 1990, baseado em suas publicações históricas e dados divulgadas pelas polícias. Os dados anteriores de 1976 a 1989 foram compilados em pesquisa recente da reportagem. O total de 3.628 vidas perdidas em 43 anos são disponibilizados em formato de gráfico, permitindo acompanhar o avanço da violência aos longos dos anos. Não há um estudo com detalhes sobre estes crimes e vítimas anteriores ao Contador da Violência.

2000-2019

O AVANÇO DA VIOLÊNCIA AO LONGO DOS ANOS EM CAXIAS DO SUL

1970: Aumento populacional e avanço dos assaltos

Até os anos 1970, os homicídios em Caxias do Sul eram motivados, basicamente, por briga de vizinhos ou de bares. Os dados do Pioneiro iniciam nesta década em que a população de Caxias do Sul praticamente dobrou de tamanho. O município saltou de 114 mil pessoas em 1970 para 200 mil habitantes em 1980, acréscimo demográfico de 75%, uma expansão jamais repetida. A mudança provocou o surgimento de dezenas de loteamentos, a maioria clandestinos. E, assim como ainda acontece hoje, onde falta estrutura social, o crime e a violência imperaram. Assim, os homicídios passaram a aumentar em razão desta vida criminosa e os acertos entre a bandidagem.

Cada vez mais quadrilhas de assaltantes e adolescentes empunhando armas surgiam e logo Caxias do Sul passou a ser citada no noticiário estadual como um dos focos da violência gaúcha. Os latrocínios se tornaram recorrentes e, entre tantos casos de repercussão, houve uma onda de violência contra taxistas.

— Há 30, 40 anos, o criminoso bebia cachaça para cometer um assalto. Logo, apareceu a droga para encorajá-lo — declarou o delegado aposentado Farnei Goulart, que atuou na Polícia Civil de 1976 a 2011, durante entrevista para a reportagem especial Raízes da Violência, publicada pelo Pioneiro no final de 2018.

1980-1990: Assaltantes são transferidos para Porto Alegre e viram traficantes

O crescimento da violência também resultou no aumento de prisões. Dependente de um sistema penitenciário frágil, a Justiça caxiense enviava os piores bandidos para cumprir pena nas cadeias da Região Metropolitana: eram as faculdades do crime e o tráfico de drogas se instalou na maior cidade da Serra. Em 1983, a cocaína foi apreendida pela primeira vez em Caxias em 1983 dentro de uma lata numa oficina mecânica: 300 gramas.

Com o avanço da droga e dos assaltos, o número de assassinatos também cresceu: foram 693 na década de 1980. A década seguinte, ainda mais violenta com 742 mortes, foi marcada pela chegada do crack na Serra. A primeira apreensão ocorreu em 1994 e as prisões relacionadas a essa droga se tornaram sistemáticas a partir de 1997. Os traficantes perceberam que era mais fácil fidelizar a clientela de viciados com uma droga mais barata e muito mais potente do que com a cocaína e a maconha.

2000: Crime se organiza para dominar territórios

A lucratividade da venda de drogas atrai cada vez mais criminosos, que começam a "contratar" vendedores e não admitir concorrência. Os traficantes querem dominar a venda de drogas na sua área (bairro) e confiam apenas em familiares e amigos de longa data. Vendedores rivais são assassinados, assim como usuários que ficam em dívida. Essas execuções são demonstrações de poder, instalando uma lei do silêncio nas comunidades conflagradas, o que prejudica as ações policiais.

Enquanto a população continua a crescer, cada vez mais bairros periféricos são dominados por traficantes. A mão de obra para o crime se torna cada vez mais barata e disponível: usuários de drogas que abandonam o emprego e a família e adolescentes que largam os estudos. Os chamados testa de ferro ficam nas ruas e cumprem ordens, enquanto o verdadeiro traficante se mantém longe de rivais e da polícia.

As operações policiais se tornam mais elaboradas e miram os chefes do tráfico. As prisões e apreensões de armas modificam o balanço do poder entre criminosos, o que permite o avanço de rivais na busca pelo domínio na venda de drogas _ o que resulta em novas onda de homicídios. A década de 2000 termina com 935 assassinatos.

2016: facções utilizam chacinas e incêndios

As transferências realizadas durante o avanço da violência na década 1980 levaram conhecidos assaltantes caxienses a participar da formação da primeira facção gaúcha: a Falange Gaúcha, no Presídio Central, em 1987. Essa organização do crime foi a explicação para avanço exponencial da violência no Rio Grande do Sul, com a multiplicação de assaltos a banco, o aumento do poder de fogo por criminosos e a governança de bairros.

Em Caxias do Sul, contudo, esta "evolução" do crime só apareceu em 2015, com o surgimento da primeira facção caxiense na galeria A da Penitenciária Estadual do Apanhador. O avanço da aliança para dominar o tráfico de drogas em cinco bairros de diferentes regiões da cidade é a explicação para 2016 ter entrado para a história como o ano mais violento de Caxias do Sul, com 150 assassinatos. Essa conclusão apareceu no inquérito policial da Operação Fratelli, deflagrada em abril de 2017 e que resultou em 13 condenados a 112 anos de prisão.

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Também em 2017, uma segunda facção se estabeleceu na maior cidade da Serra e as execuções mais violentas. Chacinas com quatro mortos aconteceram nos bairros Pioneiro e Planalto, e estes grupos de extermínio da facção passaram a incendiar os pontos de tráfico rival. No total, foram 237 assassinatos entre 2017 e 2018.

A redução dos crimes em 2019 — são "apenas" 71 mortes até o momento —, também é explicada por uma trégua entre essas facções. Os investigadores apontam que os líderes se sentiram muito visados pelas ações policiais e do Ministério Público, inclusive com a possibilidade de serem transferidos para cadeias de maior segurança em outros estados, e ordenaram que parassem os homicídios. O foco voltou para o tráfico de drogas, que é a atividade que rende lucros as facções.


 
 
 
 
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