"Queria que essa lembrança morresse", afirma mulher vítima de abuso cometido por árbitro em Caxias - Polícia - Pioneiro

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Violência13/03/2019 | 14h45Atualizada em 13/03/2019 | 16h23

"Queria que essa lembrança morresse", afirma mulher vítima de abuso cometido por árbitro em Caxias

Caso de jovem de 21 anos se soma a outros seis episódios cometidos por homem preso em Sapucaia do Sul

"Queria que essa lembrança morresse", afirma mulher vítima de abuso cometido por árbitro em Caxias Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

As cenas do tempo em que permaneceu trancada em uma residência de um homem de 44 anos ainda causam muita dor à mulher que efetuou denúncia na Polícia Civil nesta terça-feira (12), em Caxias do Sul. A jovem de 21 anos buscou coragem para contar a sua história somente dois anos após passar por momentos de humilhação e vergonha na residência do abusador - um árbitro que foi preso na terça em Sapucaia do Sul. A divulgação da prisão foi a principal motivação para trazer à tona o caso que se soma a pelo menos outros seis abusos que estão sendo investigados pela Polícia Civil em diversas cidades do Estado – três deles registrados em Caxias.  

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Tal como as outras mulheres que foram vítimas do homem, a disposição da jovem em buscar oportunidades de trabalho foi a isca utilizada por ele para atrair o seu interesse. A aproximação aconteceu pela iniciativa do árbitro, quando visualizou ela e a irmã em uma parada de ônibus. A ousadia com a qual foi abordada despertou um sinal de alerta. No entanto, a necessidade de buscar emprego falou mais alto.   

— Ele viu que eu tinha alguns currículos em minha pasta, que era transparente, e veio perto de mim. Olhei com uma cara desconfiada e ele disse que não precisava se preocupar porque era juiz de futebol e estava procurando pessoas para ajudar a marcar jogos – relata.   

Para discutir a suposta proposta de emprego, foi marcada uma reunião entre os dois no mesmo dia, que ocorreu em um lugar aberto, em uma cancha localizada nas proximidades dos pavilhões da Festa da Uva. Na conversa, ele se esforçou em iludir a vítima com a proposta de emprego, mostrando documentos para reforçar a sua condição de árbitro e dizendo que o trabalho estava disponível.   

— Pra mim, seria uma boa, precisava de uma renda para sustentar minha filha. Achei que seria uma proposta interessante de emprego – diz.   

Dias depois, com a ideia de firmar o acordo, o árbitro chamou a jovem novamente para um encontro, desta vez sozinha e no período da manhã. Foi em uma residência no bairro Colina Sorriso. A desculpa era de que ele precisaria de documentos que haviam ficado no interior da residência.    

— Maldita a hora em que eu aceitei entrar na casa dele. Ele disse que seria rápido. No momento em que entramos, ele chaveou a porta. Nessa hora, eu pedi a Deus que me tirasse dali. Olhei para um dos quartos e vi um monte de roupas, calçados bolsas, todas femininas. Nessa hora me apavorei e pedi para ir embora – conta.   

No entanto, os apelos da mulher não surtiram efeito e o homem começou a insistir para que ficasse na residência. Nesse momento, ele começou a apalpá-la e ofereceu dinheiro para ela. A jovem relata que ficou sem reação diante do abuso, pois sentia medo do que o homem poderia fazer.   

— Eu não sabia o que fazer, ele estava passando a mão em mim e era mais forte do que eu. Qualquer soco que ele pudesse me dar iria me atirar em um canto. A porta estava trancada, a casa era grande. Tinha uma sacada que eu pensei que poderia me atirar dali. Eu só queria sair de lá. É a pior coisa do mundo fazer algo contra a vontade. Eu estava com muito medo e não sei se eu estaria aqui hoje (caso tivesse resistido) - lamenta a jovem.   

Depois de abusá-la, ele destrancou a porta e deixou a jovem sair.

— Queria buscar um conselho de uma amiga, de alguém da família. Liguei para a minha melhor amiga, minha família e meu marido, mas não deram muita bola, como se eu fosse culpada. Se a pessoa que estava comigo e dizia que me amava não fez nada, como eu iria me sentir? - questiona.   

A vítima conta ainda que o abusador a perseguiu durante meses. Afirma que tentou buscar apoio de policiais militares que faziam uma ronda na cidade, mas não obteve qualquer ajuda.   

— Parei dois policiais na rua, em frente ao Pompéia e disseram que não podiam fazer nada. Nessa hora, eu desisti, matei essa lembrança dentro de mim. É algo que não gostaria de nunca mais lembrar – lamenta. 

Os abusos  

Na ficha criminal do árbitro já são seis estupros, sem contar outros não registrados pelas vítimas por medo ou por vergonha.   

O primeiro abuso sexual foi em Sobradinho, terra natal do homem, em 2003. Passados oito anos, as denúncias contra ele passaram a aparecer em Caxias do Sul, na serra gaúcha. Na cidade, foram três registros, todos em 2011: janeiro, junho e agosto.

Passados sete anos, mais dois casos foram denunciados, desta vez em Sapucaia do Sul. De acordo com as ocorrências, os dois abusos aconteceram no mesmo dia: em 23 de outubro de 2018, pela manhã e pela tarde, da mesma forma.  

Absolvido por dois crimes  

O homem foi absolvido por dois crimes ocorridos entre 21 de março e 8 de agosto de 2011 em Caxias do Sul, na Serra. Na época, três desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) consideram que o processo apresentava "ausência de provas periciais" em relação a uma das vítimas e "dúvida inafastável" em relação à outra mulher. 

Denuncie  

A mulher vítima de violência deve denunciar o abuso na Central de Atendimento à Mulher pelo 180, ou buscar informações pelo telefone da delegacia (54) 3220.9280. 

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