"Quanto mais preso tiver, mais dinheiro gira", pede detento em Caxias do Sul - Polícia - Pioneiro

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Entrevista16/12/2018 | 16h40Atualizada em 16/12/2018 | 16h40

"Quanto mais preso tiver, mais dinheiro gira", pede detento em Caxias do Sul

Penitenciária do Apanhador está próxima de abrigar mil presos

"Quanto mais preso tiver, mais dinheiro gira", pede detento em Caxias do Sul Lucas Amorelli/Agencia RBS
Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

O crescimento da população carcerária é assustador. Três anos atrás, foi a primeira vez que Caxias do Sul alcançou a marca de mil presidiários — somando as duas casas prisionais. Hoje, a população carcerária se aproxima de 1,5 mil detentos. O número de vagas disponíveis na cidade permanece em 730, conforme a engenharia.

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O Pioneiro falou com um apenado de 31 anos que está recolhido na galeria B da Penitenciária Estadual no Apanhador desde 2010. Ele foi escolhido para falar com a reportagem pelos companheiros de galeria. Conforme acordo com o detento e Vara de Execuções Criminais (VEC), a identidade do detento  mantida em sigilo. A progressão de regime deste apenado está prevista para 2024, contudo ele ainda responde a uma acusação de homicídio.

Pioneiro: Quantos moram na galeria B?
Apenado: Estamos em 250. Quando entrei era uns 40, a galeria vazia, dava para morar sozinho e até trocar de cela. Hoje, tem sete por cela (para quatro camas). A gente se ajeita pelo chão e dorme de valete, que é um para cima e outro para baixo.

O que muda estar lotado?
As coisas tem que funcionar mais rápido e prático. Desde o banho. Tem a prefeitura lá (na galeria). A polícia sabe do portão para fora. Na galeria, é os preso que tem que botar o respeito e a ordem. Imagina que são vários criminosos juntos, é complicado. Mas, somos organizados. Tudo tem um porquê e um para onde, para podermos viver em harmonia, né? Não tem o que fazer. O nosso espaço é aquele ali. Tem gente, como eu, que tem que ficar mais vários anos presos. Tem que aprender a conviver. Até porque em outros lugares, outras galerias mexem com facção. Nós não, é tranquilo. Não temos envolvimento com isso. A gente mesmo que resolve os problemas lá de dentro.

Quando tu entrou era diferente?
Era bem diferente. Tinha muita pouca gente, uns 40. Agora, precisa mais organização. É tensão, é cadeia, é complicado. Chegamos nesse ponto (sem confusão), porque nos ajudamos na galeira. Desde um paieiro até um sabonete, uma passagem para a visitar poder vir. Mandar dinheiro para lá fora, a família de alguém que está precisando. A nossa galeria é para frente. Ninguém sai machucado, é tranquilo. Porque tem um respeito, os caras sabem que estamos ali não para querer dizer isso ou aquilo. Queremos se ajudar, estamos no mesmo barco e vamos nos apoiar para continuar deste jeito.

É melhor a galeria aberta?
Acho que não precisa responder, né? Galeria aberta é muito melhor. Imagina ficar em sete caras num cubículo? Só com três janelinhas e o dia inteiro fechado. Nem compara... Na época (que cheguei), não tinha (galeria aberta) e não tinha sete (por cela), mas também não tinha ventilador, televisão, a luz vinha só por um poço, não tinha cigarro, não tinha nada... Mudou quando a BM assumiu. Foi um processo interno deles. Era uma época mais tumultuada, envolveu a Corregedoria (da Susepe). Quando a Susepe voltou ficou no ritmo que a BM deixou. Hoje é tranquilo. Não é todo preso que fala com os agentes penitenciários. Tem os plantão, que são os presos responsáveis por resolver os problemas da galeria. Eles que passam diretamente. Os outros presos, para falar com eles (direção), só se vierem para frente, na enfermaria ou algo assim.

Quando alguém pensa diferente vocês tiram da galeria?
Não. Como te falei, é tudo no diálogo. Vamos pelos "caôs". Se não se acertar pelos "caôs", o portão está ali e tem mais duas galerias, além de várias cadeias. Mas é tudo no diálogo, sempre se acertando no diálogo. Não queremos tirar os caras da galeria, muito pelo contrário. Queremos que tragam mais presos, porque gira mais dinheiro na galeria e melhora para bastante gente. Com mais dinheiro, podemos ajudar mais gente. Mais pessoas que não tem dinheiro para pagar uma passagem para a visita poder vir. Mais gente que não tem condição de fumar um paieiro, vai poder porque é doado o paieiro. Até o sabonete é comprado para doar. Comida para as visitas, é a gente que compra e faz as comidas boas "à paisana" para doar as visitas.

Estar lotado não é problema?
Quanto mais preso tiver, mais dinheiro gira na galeria e mais vamos poder apoiar os outros.  Por nós, conseguimos organizar. Levamos no diálogo, na pura. Ninguém anda de faca. Não tem isso aí, ninguém da prefeitura. Tem várias cadeias que os caras andam de faca. Ali ninguém usa faca. O respeito é só na palavra e conseguimos segurar a galeria na boa.


 
 
 
 
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