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Raízes da violência17/11/2018 | 09h00Atualizada em 15/04/2019 | 13h39

No passado, era comum relacionar crimes com pessoas de fora de Caxias do Sul

Êxodo rural trouxe novas culturas para a cidade e relações não eram amistosas

No passado, era comum relacionar crimes com pessoas de fora de Caxias do Sul Reprodução / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami/Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami
Documento oficial afirmava que criminalidade nos anos 1930 era culpa de pessoas de fora de Caxias do Sul Foto: Reprodução / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami

Pistas da expansão urbana de Caxias do Sul que estabeleceria um muro imaginário entre classes sociais podem ser encontradas na obra da historiadora caxiense Maria Abel Machado, falecida em 2004. Ela não produziu um livro sobre a violência, mas seu estudo traz sinais dos dilemas que influenciariam, de alguma forma, a criminalidade nas gerações seguintes. No livro Construindo uma cidade, história de Caxias do Sul - 1875 - 1950, Maria identificou situações que forçaram o surgimento de dois mundos distintos num único lugar: a cidade moderna da área central, habitada pelos primeiros moradores, e a cidade empobrecida dos subúrbios, tomada pelas famílias que abandonavam o campo. 

Ao fim da Primeira Guerra Mundial na Europa, a cidade se encaminhava para um momento de esplendor econômico jamais visto desde o início do povoamento em 1876. A estrada de ferro era sinônimo de crescimento e a implantação da energia elétrica impulsionava a indústria. Ficava para trás o tempo em que os imigrantes eram tratados com preconceito pelas autoridades brasileiras. Agora, nos 1920, eles eram os senhores da nova terra. 

A expansão urbana e econômica da Pérola das Colônias trouxe um revés e atraía o agricultor italiano pobre pressionado pela falta de futuro do minifúndio e as famílias igualmente desprovidas de bens materiais da região dos Campos de Cima da Serra. Iniciava ali um processo que dividiria a cidade em estratos diferentes e sedimentaria mais bases para a intolerância.

Os moradores antigos passaram a ver os novos vizinhos que chegavam a Caxias nos anos 1920 e 1930 como um "problema" não apenas pela expansão desordenada como também pelas questões de segurança. Surgia a arraigada percepção de que a culpa pela violência é de quem vem de fora, discurso que se mantém até hoje.

Relações conturbadas

Um recorte do ano de 1927 dá o tom dessa conturbada relação. Na manhã de 7 de maio, o comerciante Dante Marcucci foi baleado num tiroteio com o bancário José Joaquim Teixeira de Oliveira, morador de Santa Maria que estava em Caxias a trabalho. O motivo do duelo na Praça Dante Alighieri envolvia um documentário sobre Benito Mussolini, o ditador da Itália, que seria exibido no cinema da cidade. Grupos contrários protestaram contra o fascismo de Mussolini e outros apoiavam o duce italiano. Os ânimos exaltados explodiram na forma de um duelo em pleno centro da cidade. Marcucci sobreviveu e sete anos depois se tornaria o prefeito de Caxias. O atirador foi processado.

Em dezembro de 1927, uma sequência de mortes violentas causou espanto. Num prostíbulo de Caxias, um policial matou um proeminente empresário de Alegrete e o chofer dele, morador da cidade pai de 11 filhos. Dias depois, dois libaneses morreram baleados numa briga com compatriotas, caso conhecido na época como o crime da Casa Syria. O outro lado da vida na Pérola das Colônias era chocante.  Os editores do jornal O Caxias não pouparam críticas à violência e à origem dos autores, segundo texto da edição de 29 de dezembro de 1927.

"Caxias, nesses últimos tempos, ao longe, talvez seja considerada uma verdadeira zona do far-west; porém para a nossa honra de cidade civilizada, temos a dizer que esses crimes têm sido praticados por elementos adventícios, que não têm sabido corresponder à nossa proverbial hospitalidade."

É possível identificar essa visão preconceituosa num relatório sobre a administração pública de 1929, em que o intendente de Caxias Thomaz Beltrão de Queiroz considera que a tranquilidade da cidade só é quebrada por "alguns desocupados, larápios ou desordeiros contumazes aqui chegados, vindos de outros pontos do território do Estado, não encontrando terreno propício para as suas façanhas, pela resistência da própria população, inteiramente devotada aos seus variados misteres e pela atividade das autoridades policiais, têm deixado precipitadamente o nosso município para nunca mais voltarem".

Num contraponto, a pesquisadora, socióloga e historiadora Vania Herédia reforça que a maioria da violência até então envolvia conflitos entre caxienses. 

—  Os estabelecidos, aqueles chegam primeiro, se apropriam da relação de poder e imaginam que comandarão quem chega depois. É mais fácil colocar a culpa em quem vem de fora — aponta.

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Para os ricos, o centro da cidade

Conforme a pesquisa de Maria Abel Machado, os bolsões de pobreza de Caxias tiveram um impulso da própria administração municipal, que logo tratou de segregar veladamente os pobres. Se por um lado a prefeitura da época a medida ajudou a manter a cidade no rumo do desenvolvimento, hoje seria vista como uma violência institucional.

"A vila de casas de madeira, que serviu para abrigar os primeiros habitantes, foi dando lugar a uma cidade de construções melhores, inclusive de alvenaria. Já em 1927, o segundo código administrativo proibia a construção de prédios de madeira no centro da cidade, numa demonstração de que a administração municipal começava a se preocupar com a seleção dos moradores da área central, reservando o espaço para a elite que vinha se formando. Por sua vez, os investimentos públicos se concentravam na zona central, sob a forma de infraestrutura básica, valorizando a terra que também passava a ter acesso limitado a determinados segmentos da população com maior poder aquisitivo.", escreveu Maria Abel. 

No mesmo ano, o governo federal promulgou o Código de Menores, que vedava o encaminhamento de crianças para a cadeia _ antes dessa lei, se uma criança cometia um furto era colocada na mesma cela de adultos.

Na década de 1930, o centro urbano passou por grandes transformações com pavimentação de ruas, canalização de água e esgoto e abertura de vias. Com o comércio e a indústria em ritmo ascendente, houve acréscimo de mão de obra e surgiram os primeiros aglomerados de operários nas áreas desabitadas da cidade. 

Na área central, nasciam prédios de estética mais sofisticada como o Clube Juvenil, a Casa Magnabosco, o Teatro Central e o Banco Nacional do Comércio. A cidade de madeira deu lugar a uma cidade de tijolos e concreto. No entanto, quem tinha pouco dinheiro erguia casas de madeira de qualquer jeito nos extremos e não tinha acesso à iluminação, água encanada ou ao esgoto.

Para Maria Abel Machado, o perfil econômico da cidade mudou, as oficinas e pequenas fábricas deram lugar a uma indústria dinâmica e moderna, que passou a "atrair um significativo contingente de população dos Campos de Cima da Serra, dos municípios vizinhos e dos Estados mais próximos." 

Descendentes dos primeiros imigrantes europeus passam a conviver de perto com os camponeses da estância e filhos de escravos. Eram grupos que não se misturavam.

No início dos anos 1930, a morte de um administrador de uma grande empresa teve forte impacto na sociedade caxiense. 

A imprensa estampou a foto do assassino, a primeira imagem de um criminoso num jornal local, segundo apontou Loraine Slomp Giron. Avaliados hoje, os detalhes do crime reforçaram a relação delicada na cidade. O assassino confesso teria se vingado por não ter conseguido um trabalho na empresa do executivo. O motivo: o empregador tinha fama de não contratar negros ou mulatos. Ressentido, o morador dos Campos de Cima da Serra esperou o momento certo para surpreender o empresário e matá-lo num ato de vingança. O assassino foi preso e condenado. Eram tempos complicados.

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