Sem crimes violentos, ladrão confesso já foi detido 105 vezes - Polícia - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Polícia18/09/2018 | 09h54Atualizada em 18/09/2018 | 10h34

Sem crimes violentos, ladrão confesso já foi detido 105 vezes

Para Defensoria, caso revela que sistema não sabe lidar com viciados e seus furtos

Sem crimes violentos, ladrão confesso já foi detido 105 vezes Brigada Militar / Divulgação/Divulgação
José Claudiomiro Alves Serpa, conhecido como Índio Foto: Brigada Militar / Divulgação / Divulgação

A história de José Claudiomiro Alves Serpa, 45 anos, conhecido como Índio, evidencia a dificuldade do sistema estatal em lidar com dependentes químicos e seus crimes. Em Bento Gonçalves, Serpa, conforme números da Brigada Militar (BM), tem 68 passagens por furto e nove por apreensão de objeto, além de 10 capturas como foragido do sistema prisional. 

Incluindo ocorrências em outras cidades, foram 105 vezes em que policiais militares conduziram o homem à delegacia. Apesar do número, a Defensoria Pública acredita que o caso de Serpa seja uma questão de saúde e um exemplo de como o sistema estatal é falho para lidar com casos deste tipo.

Por não envolver ameaça às vítimas, os furtos de Serpa não são considerados violentos. É inegável, contudo, o prejuízo a terceiros e o tempo desperdiçado pelos policiais. Na maioria das vezes, segundo a polícia, Serpa aproveita o descuido de lojistas para esconder produtos sob a roupa e fugir sem ser notado. Em geral, seus furtos envolvem objetos de pouco valor,  como alimentos ou itens de farmácias. No último flagrante, na noite de 1º de setembro, foram três roupas de bebê e quatro cuecas.

— Ele costuma confessar os crimes. Diz que furta, mas não dá um motivo. Se diz que é usuário de drogas, mas não alega (que cometeu o crime para sustentar o vício). Responde que furtou "porque a mercadoria estava ali no expositor", que viu uma brecha — aponta a delegada Maria Isabel Zerman Machado.

A ficha policial de Serpa possui nove folhas e 69 indiciamentos por furto, posse de drogas e ameaça. Seu primeiro crime ocorreu em 1999, em Santo Ângelo. Em Bento Gonçalves, seu primeiro antecedente remete a 2003. Os números expressivos, no entanto, não terminam em sentença. Serpa possui quatro condenações por furto, que somam quatro anos e 10 meses. 

— O caso dele é emblemático e demonstra a absoluta falência no nosso sistema estatal. Ele é a prova de que a prisão não resolve certos casos. O que ele precisa é de auxílio médico — alega o defensor público Rafael Carrard.

"Ele entende que está cometendo o crime"

No ano passado, por sua atuação criminosa contumaz, José Claudiomiro Serpa teve a prisão preventiva decretada pela Justiça e foi levado para avaliação no Instituto Psiquiátrico Forense (IPF), em Porto Alegre. 

— Para minha surpresa, o IPF disse que ele não sofre de nenhum desequilíbrio. Ele tem transtornos de ordem mental, mas nada que o comprometa ser discernimento sobre cometimento de crime. Ou seja, nada que possa isentá-lo de uma responsabilidade penal — aponta o defensor público Rafael Carrard.

A conclusão técnica é semelhante a percebida pela delegada Maria Isabel Machado durante as apurações.

— Não sou psicóloga, mas em uma visão sem conhecimento, não percebo nada de incapacidade dele. Ele entende que está cometendo o crime. Mas acha normal. Sabe que a mercadoria é da loja e que não pagou, demonstra esta noção — opina.

Por seu histórico de descumprimento do regime semiaberto, Serpa está recolhido atualmente no Presídio Estadual de Bento Gonçalves. O diretor do estabelecimento, Volnei Zago, também não relata nenhum cuidado especial para com o detento. 

— O temos como um preso comum. Por viver na rua, ele tem uma saúde debilitada e traz algumas doenças, mas não tem problema de indisciplina.

Sobre o semiaberto, contudo, a dificuldade é evidente. Autorizado a deixar a casa prisional durante o dia, Serpa não costuma retornar. Já foram 10 evasões e, consequentemente, muitas recapturas pela BM.

— Ele nunca trabalhou e, então, não fica nos serviços que arranjamos. Na última vez, conseguimos um emprego e colocamos a tornozeleira, mas ele evadiu no primeiro dia. Ele não tem um local fixo para dormir, uma casa, e, assim, deveria voltar (à cadeia) para dormir e recarregar o equipamento. Como não retorna e a bateria (da tornozeleira) acaba, ele vira um foragido. Quando é preso, continua com a tornozeleira — relata Zago.

"Não tem o perfil do malandro ou da maldade"

Para a Defensoria Pública, o caso de Serpa evidencia como o Poder Público é falho em lidar com dependentes químicos e os problemas derivados de seu vício. Sem este amparo, o Poder Judiciário de Bento Gonçalves demonstra dificuldade em responder aos baixos valores envolvidos nos crimes de Serpa.

— Acompanho há muitos anos o caso e é sempre envolvendo o furto de produtos de pouco valor. São sempre valores irrisórios. Provavelmente sabe que faz a coisa errada, mas não tem o perfil do malandro ou da maldade — ressalta o defensor Rafael Carrard.

Por cometer apenas furtos sem ameaça as vítimas, Serpa não é tratado como periculoso. 

— Vários processos foram arquivados por insignificância. Ele é tão conhecido que é monitorado (nas lojas e farmácias). Só que ele não faz esse raciocínio de que já é conhecido. Ficamos nessa mesma história, um roteiro que já conhecido de todos — acrescenta.

A delegada Maria Isabel, contudo, salienta que esses furtos causam prejuízos às vítimas e ampliam a sensação de insegurança e impunidade.

— Concordo que há uma ausência de outra atividade do Poder Público, e não só no caso dele. A maioria é dependente químico e não há um tratamento, um trabalho social. Eles não tem moradia ou trabalho. Assim, a única coisa para sobreviver e manter o vício é o furto. Não há violência, mas traz prejuízo para os moradores e comerciantes. É visto como um crime banal, mas é muito preocupante. É preciso encaminhar esses indivíduos, não para a cadeia, mas para tratamento. Algum local de moradia e serviço, assim teriam uma possibilidade de mudar de vida — sugere.

Para o defensor público, não  há dúvida de que a prisão não resolve: 

— Todos estamos de mãos amarradas. Não há mecanismos disponíveis. Não é uma falta de vontade (de Serpa em mudar), parece ser uma dificuldade de organização da sua vida. Ele não tem condições de fazer isso sozinho. Buscamos uma liberdade provisória condicionada ao tratamento. É preciso uma rede para receber este problema.

Leia também
Operação prende dois integrantes de quadrilha investigada por ataques a bancos na Serra 
Polícia Civil conclui que ex-noivo premeditou assassinato de jovem em Canela
Imagens mostram que preso esperou taxista por duas horas na Rodoviária de Caxias do Sul



 
 
 
 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros