André Costantin: Diário do Girino - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião22/10/2020 | 07h00Atualizada em 22/10/2020 | 07h00

André Costantin: Diário do Girino

Enquanto a Amazônia e o Pantanal queimam aos ventos do nosso neofascismo (ambiental, inclusive), o insignificante Diário do Girino vai sendo escrito

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Modelo de diário científico, emocional e antifascista para o salvamento dos biomas brasileiros e do planeta Terra:

“16/08/2020 – Hoje pegamos girinos lá no lago de Monte Bérico. Estimamos 20 girinos: Ringo, Paul, John, George, Parafusinho, Martelo, Phillips, Pneu, Piter, Bill, Pitágoras...” (escrito por Clarice, assinado por “bióloga Aurora”). Além do quarteto de Liverpool, homenageado no início da lista, há também outro girino inclinado à fama, batizado “Bulsara” – alusão a Farrokh Bulsara, ou simplesmente Freddie Mercury.

Leia mais
André Costantin: Jacobpacabana
André Costantin: Dicionário do Pampa

Trata-se de experimento científico empreendido pelas duas meninas – a redatora do diário, de 14 anos, e a bióloga-chefe, 4. Cabe a mim o papel de tutor dos girinos e seus subgrupos de sotaque britânico. Afinal, fui eu quem deu a ideia a elas naquele 16 de agosto, às margens do laguinho, em um flashback da minha infância de cientista pelos banhados do Kaiser.

“18/08/2020 – Terceiro dia, nublado, 15 graus: os girinos estão ambientados. Todos começam a ter sinais de pernas”. A pequena bióloga forma o entendimento do conceito de metamorfose. Mais do que isso: consolida-se uma impressionante valoração da coexistência das espécies; de repente, a presença dos girinos Paul e Bulsara tem igual importância de um elefante, dos cães do pátio, dos unicórnios e das pessoas.

No quinto dia do Diário do Girino, consta apenas a observação: “Idem – bateu preguiça na cientista”. No vigésimo dia, com os gametas tomando corpo e forma de anfíbios, trocamos o pote deles por um viveiro bem maior, com pedras e plantas aquáticas. Chegamos ao glorioso dia 12 de outubro: “Hoje, com muita emoção (desculpa a linguagem pouco científica), depois de 56 dias de metamorfose, dois girinos completaram suas transformações em sapinhos; são eles o Parafusinho e o Pipinho, segundo Aurora.”

Enquanto a Amazônia e o Pantanal queimam aos ventos do nosso neofascismo (ambiental, inclusive), o insignificante Diário do Girino vai sendo escrito, na emergência dos novos seres que ontem à noite tomavam ar e coragem para se lançar ao pátio. Aurora planeja levar um sapinho para o jardim da avó, em Flores da Cunha. A metamorfose ensina: a vida na Terra é uma só. O girino, a onça, o homem – sapiens, o elemento dissonante, desde o Gênesis.

Somos tão importantes como o sapo, a rã. Todo ser humano contemporâneo deveria ter a chance e a inspiração de fazer um seu ensaio da microexistência. Mesmo que fosse no vaso do apartamento. Para entender e amar o pequeno, a parte – e o todo.

Leia também
Tudo o que você precisa saber sobre a reabertura das salas de cinema em Caxias e Bento
CINEMA: confira os horários dos filmes em cartaz nas salas de Caxias e Bento
Artista plástico Christian de Lima inaugura a exposição "Das Costas de um Cavalheiro" nesta quarta, em Caxias

 
 
 
 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros