Adriana Antunes: assombramentos - Pioneiro

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Opinião06/10/2020 | 07h00Atualizada em 06/10/2020 | 07h00

Adriana Antunes: assombramentos

Em dias de raiva procuro nas flores a calma

Concordo com Drummond, chega um momento na vida em que não adianta mais espantar-se e dizer: meu deus. Os absurdos do cotidiano, da política, dos políticos, dos hipócritas, dos espertos, dos canalhas, dos machistas, dos egoístas, dos materialistas, dos perversos, dos que acreditam em terra plana, na cloroquina, ivermectina e fake news não mais nos surpreendem. Secamos por dentro. O coração secou. A alma secou. O amor resultou inútil, a fé, comprometida e a ética tornou-se tão rara quanto pessoas de bom senso. As notícias sobre desvio de dinheiro, os conchavos eleitoreiros, o aumento do preço do arroz e a banalidade com que o covid-19 são tratados apenas nos provam que a vida prossegue. Vivemos uma noite constante que nos recobre com seu véu úmido de raivas e lamentações, um pouco de consciência e muita indiferença.

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Dias atrás as pessoas postavam fotos do sol e da lua vermelhos. Assombrados com a falsa beleza negavam o fogo e a fumaça das queimadas deste país. Estamos realmente (re)construindo uma casa feita de cadáveres. Instituições em ruína, falta-nos dinheiro, comida e conhecimento. Falta-nos estudo, pesquisa, leitura. Falta-nos saber para não sermos ludibriados e manipulados como meras marionetes dentro do sistema social. Falta-nos vergonha na cara e desejo verdadeiro de mudança. Meu pai sempre contava que nada era mais triste do que boi na canga. Um bicho enorme e burro. Se soubesse da força que tinha jamais se deixaria conduzir. Meu pai e Drummond falam da solidão do boi no campo e do homem na rua. Ambos calados, dominados e levando uma vida sem sentido.

Seu Osvaldo me ensinou a gostar do som da viola caipira, a tirar um dedo de prosa com andarilho, a sempre ter um quilo de feijão para ajudar quem bate na nossa porta em nome da fome e a nunca acreditar em promessas fáceis feitas por políticos, ainda mais em tempo de campanha eleitoral. A carne magoa tanto quanto o coração, dizia. Os desvarios pedem cumplicidade, ponderava, tá cheio de gente sem brilho igual peixe cego, mas que sabe pedir voto. Um nojo, igual lamber casca de ferida. Era assim que me falava de política: presta atenção! A tua bile sabe dos teus segredos,não dá pra vomitar o tédio na urna, depois das eleições todo mundo volta pra casa sozinho, cuida bem em quem tu vai votar pra não penhorar teu sono depois. Político errado sendo eleito é que nem fazer o tempo andar de muletas.

Em dias de raiva procuro nas flores a calma. Em dias de descrença, leio as notícias e falo com amigos. Em dias difíceis relembro o rumor das conchas. Em dias de campanha política deposito a vergonha de tanto tempo nas mãos mecânicas que se oferecem ao cumprimento e espero para observar a reação. Minha memória não é pasto.

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