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Opinião25/09/2020 | 07h00Atualizada em 25/09/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: quem comanda?

Somos regidos por impulsos reais, mas tantas vezes situados além do controle

Através do estudo da mente, compreendemos os múltiplos estados emocionais. E da química cerebral também. Se fosse diferente, por que certas pessoas conhecem apenas superficialmente a angústia quando são tocadas pela dor e pela perda e várias desmoronam diante de fatos de menor significação? É comovente acompanhar a trajetória dos que superam grandes tragédias com relativa facilidade. Qual gatilho é acionado para seguirem em frente, a despeito do horror de verem sua vida sendo estilhaçada? No oposto, encontramos quem sucumbe diante de um simples estremecimento, precisando estar protegidas constantemente do mais leve rumor, evitando desestabilizar seu frágil equilíbrio. Pesquisas recentes mostram: mesmo se esforçando para sair do torpor e da paralisia, raramente conseguem. Estão presas a processos biológicos, independente de seu empenho ou propósito. Trazem para o consciente as aflições, procuram ajuda profissional, partilhando tudo com amigos e familiares. E nada. É como se uma tonelada de angústia as esmagasse, transformando o banal em uma verdadeira hecatombe. Somos regidos por impulsos reais, mas tantas vezes situados além do controle.

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Considero extremamente importante a descoberta desses mecanismos, pois amenizam um pouco a situação de quem, a despeito de muito tentar, não vê a perspectiva de se manter saudável. A culpa só agrava a doença, gerando uma sensação de responsabilidade pelos seus sentimentos. A maravilha é fazer parte do grupo dos que, a despeito da submissão a duras provas em suas existências, recompõem-se lépidos e fagueiros. Ficam planando acima das circunstâncias, numa atitude de sabedoria preconizada pelos mestres da tradição religiosa e filosófica. Comprova-se, cada dia com mais dados: uma espécie de loteria beneficia uns e vitimiza outros. Será viável inverter essa ordem, que sempre provoca estragos nos relacionamentos? Um tanto improvável. Há aqui um relativo fatalismo, o equivalente a se dizer: nascendo assim, assim morreremos. Triste. Embora - há evidências neste sentido - o comprometimento individual tenha um papel coadjuvante na mudança dessa determinação. O mais pertence puramente à ordem do corpo. Talvez, com os avanços surpreendentes na área cerebral, em um futuro próximo, o inquestionável de agora possa ser revertido.

As circunstâncias nos pareciam definitivas para o sucesso ou o fracasso na história de cada ser humano. No entanto, há algo a ultrapassá-las. Isso não pode nos paralisar. É possível vislumbrar uma pequena área de liberdade à nossa disposição, nos incitando ao trabalho permanente de ir em busca de sua melhor versão. A força de vontade ajuda, modestamente, a alterar o que está escrito no mármore do imutável.

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