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Opinião29/09/2020 | 07h00Atualizada em 29/09/2020 | 07h01

Adriana Antunes: esperamos respostas

Podem ser respostas curtas, mas que tenham uma definição clara

Esperamos respostas. Uma resposta, por favor, para essa nossa dor impossível de entender e que aperta o peito, talvez uma resposta, mesmo que por e-mail, para a oferta de emprego, e, se possível, talvez um recado divino sobre o fim da pandemia. Esperamos resposta sobre nossa crise de pânico, nossa ansiedade severa, nosso desejo inconfessável de por um fim em tudo. Respostas mudas, lentas e que parecem nunca chegar. Podem ser respostas curtas, mas que tenham uma definição clara. Hoje um pouco antes da chuva (escrevo esta crônica no domingo pela manhã) a luminosidade era outra. Um domingo pincelado com melancolia. Uma luz que não pertence a nenhum dos mundos, nem ao dia nem à noite, nem à vida nem à morte, nem à luz nem à sombra. Deve ser bem essa a sensação da manhã melancólica que mal nasceu e já ia se espraiando no sossego da rua sem saída. Sob o céu cinza e brilhante as folhas do pé de acácia dançavam imunes aos pensamentos matinais. Do outro lado da cerca as andorinhas, tagarelas, chamam chuva desde ontem. Ao redor uma paisagem meio desmaiada por conta do sol de sábado que chegou denunciando que o verão já está chegando, está dobrando a esquina, disse o aplicativo do tempo. No chão ainda um resto de outono. Escrevo esta crônica e também espero. Espero com a paciência de uma primavera tristonha que não tem respostas para dar. Ouço perguntas: quando isso vai passar, por que me sinto assim, e me junto ao coro da ausência de saberes. Não sabemos. E é fundamental que possamos lidar com a ausência das respostas. Sabemos, no entanto, que estamos aqui, vivos e juntos. Sabemos que apesar do desamparo, não estamos abandonados. E isso já é um bom começo, simples e singelo, de atravessar os dias.

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Vivemos num mundo costurado de ausências. Às vezes nós mesmos nos esquecemos de quem somos. Perdemos a presença de si. Então nos medicamos, somatizamos, temos raiva da vida, do outro, andamos em descompasso, em auto-exílio. Nos habituamos a ser companheiros do não, mas não desejamos sofrer a consequência disso. Negamos a nós mesmos, mas não queremos sentir a dor desse negar. No entanto, não é possível passar incólume sobre as asperezas dos distanciamentos internos. Fatalmente iremos nos machucar com os espinhos que nós mesmos cultivamos. Olhar para si em busca de respostas e descobrir que para isso será necessário mergulhar no vazio carece não somente de coragem, mas de ternura. Nossas águas mais profundas são lindas e sombrias, assim como nós.

Mas tudo é transitório. As dores, as chuvas, os dias, o corpo, a vida. Não é para ser só difícil, têm as andorinhas na chuva, a lua que chega depois, a comida gostosa, as flores que desabrocham, as conversas com as pessoas queridas, o divã, as alegrias e as dores que nos ensinam muito sobre quem somos e do que realmente precisamos.

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