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Opinião12/08/2020 | 07h00Atualizada em 12/08/2020 | 07h00

Ciro Fabres: somos tão jovens

Em outros tempos, ser jovem era associado à rebeldia. E rebeldia era palavra temida. Eram tempos em que a ordem era bem mais severa. Rebeldia, portanto, confrontava-se com a ordem estabelecida. Falava-se muito em questionar, em ter espírito questionador. Traços de uma determinada juventude, de uma época, ou traços do jovem, de uma maneira geral? Claro que contextos precisam ser considerados, mas é preciso cuidar com muita atenção da mediação entre essência – ou imanência, no conceito mais filosófico – e contexto. Nessa relação, nessa concessão, muita coisa essencial se perdeu. 

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O que é, ou deveria ser, inseparável do jovem? É uma ótima questão, aproveitando que está em curso em Caxias a Semana da Juventude. O contexto está na programação da Semana: pandemia, aprendizagem remota, mercado de trabalho. A essência também precisa estar. Sempre precisa estar. 

Um enunciado encharcado de senso comum sempre foi e segue sendo bastante popular: ser jovem não é uma questão de idade. Afinal, o importante seria o tal espírito jovem. Pois é. O contrário também pode ser válido. Não ser jovem, ou não ter o espírito jovem, também não é uma questão de idade. E o que é o tal espírito jovem? Bom, em geral nos esquivamos de pensar direito sobre ele. Todo mundo acha que tem, e pronto. Todos cantam “somos tão jovens”, e ficamos satisfeitos. 

Então como se explica esse nosso mundo, esse nosso país? Como se explicam as mazelas políticas, econômicas e sociais, sintetizadas na desigual distribuição de oportunidades? Como se explica o desembargador que rasgou a multa na cara do agente da fiscalização? Ou o morador que tentou humilhar o motoboy na frente do condomínio? Pela geração Coca-Cola que se perdeu? Tudo isso prolifera nessa sociedade onde talvez uma boa maioria se entenda “tão jovem”, jovem de espírito, mas a essência ficou para trás. Desconstruir essa parte nefasta da sociedade, aliás, será tema promissor e oportuno da programação da Semana da Juventude. 

O que deve ser inseparável do jovem são generosidade, experimentação, dar asas, contestação, inconformismo e capacidade de se indignar quando isso é necessário, como diante dos exemplos acima, capacidade de expressão, de manifestação, capacidade de luta para mudar a realidade para melhor. É preservar o frescor da essência generosa, a qualquer tempo. Essa pequena lista é apenas um punhado de marcas e características que foi saindo aleatoriamente. Essa realidade terrível está aí para ser mudada, e jovem tem de ser linha de frente para mudar, um lembrete para os “netos da revolução”, que agora se encontram online na Semana de Caxias. Fora desse “marco regulatório” não há esperança, não haverá jovens, mesmo que ele cante “somos tão jovens”.

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