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Opinião06/08/2020 | 07h00Atualizada em 06/08/2020 | 07h00

André Costantin: osso grande

Ele sonhava acordado em um dia descobrir um osso antigo, um fóssil, uma relíquia arqueológica que o conduziria à eternidade científica

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Se há uma caricatura possível do nosso estado nacional – no sentido de ser e estar neste mundo, enquanto mentalidade e nação –, esta pérola simbólica, patética e surreal, é o astronauta brasileiro.

Depois de visitar o espaço no tempo das perdidas ilusões da esquerda, ao custo de 10 milhões (de dólares ou reais, tanto faz, pois caro demais para o passeio com a Nasa), agora o astronauta – feito ministro da ciência e tecnologia pela direita fanfarrona, também ele positivado para o coronavírus – anuncia que está tomando o vermífugo dos sonhos, que, ao arrepio da ciência, irá curar o Brasil e o mundo do vírus global.

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A nova atuação do nosso astronauta, talvez a notícia mais relevante que ele gerou desde que foi ao mundo da Lua na era Lula, faz-me lembrar de uma figura que conheci nas antigas em andanças de bicicleta – um sujeito da ordem comum do mundo, tal como eu. Era acometido, porém, de um severo transe atlético, uma certa obsessão pela bike e pelas modalidades de alto desempenho: maratonas, provas desumanas, coisas de 150, 200 quilômetros em um dia.

Outra ideia fixa completava a monomia daquele amigo passageiro: o “osso grande”. Ele sonhava acordado em um dia descobrir um osso antigo, um fóssil, uma relíquia arqueológica que o conduziria à eternidade científica. E as trilhas de bike eram, portanto, um caminho para a sua busca. Até que, à época, talvez atento demais ao osso grande, sofreu grave acidente em um desafio de ironman.

Dias atrás, abri um velho gibi da Disney a fim de ler uma historinha para Aurora, antes de dormir. Eis que, curiosa sincronia de memórias, lemos a peripécia dos escoteiros Huguinho, Zezinho e Luizinho, sobrinhos do Pato Donald, quando, em certa feita, descobrem um grande osso. Ao escavarem, revelam o esqueleto de um dinossauro dantesco. Mas logo entraria em cena o glorioso Tio Patinhas, querendo explorar comercialmente o tesouro achado pelos meninos.

O astronauta brasileiro, cópia anacrônica de Bento Carneiro – o vampiro brasileiro, de Chico Anysio – não deixa de ser uma trágica e cômica colagem de tais pataquadas; a realidade do nosso subdesenvolvimento, que supera a ficção. Quando lançado ao espaço, mandava beijos para a mamãe, ao vivo, no Jornal Nacional. Agora, ministro, na turma de Donald, Bozo, Tio Guedes, Salles & afins, ele aposta as fichas no sonho de achar – às nossas cu$tas – o seu osso grande, algum remédio “secreto” e salvador da pátria. Ou, o vulgo e popular Annita. “Minha vingança sará malígrina!”

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