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Opinião03/07/2020 | 07h00Atualizada em 03/07/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: nossas casas

Antes de reclamar por estar tantas horas consigo ou com quem escolheu para morar, lembre: você é um afortunado

Estamos nos tornando - talvez provisoriamente, mas na quase totalidade - animais dóceis e domésticos. Muitos sequer tinham chegado perto de um fogão e a expressão “máquina de lavar” despertava uma vaga reminiscência em sua vida. A possibilidade de passar um pano no chão parece menos absurda do que há meses atrás. O que nunca havia feito parte do cardápio cotidiano, adquire certa graça para alguns; para outros, sua cota pessoal de sacrifício, em busca da manutenção da ordem neste espaço, até recentemente, representativo do lugar para descansar das fadigas. Os historiadores do futuro certamente farão o registro dessa estranha época em que a casa passou a ter uma perspectiva salvadora, como se tivéssemos voltado à belicosa Idade Média, quando os cidadãos a entronizaram como o esteio, a segurança contra os perigos rondando lá fora. Esse sentimento pode ter se intensificado agora, mas está longe de ser inédito. Sempre fiz o elogio do sagrado nestes templos (modestos, para tantos; suntuosos, para alguns); proteção física e da nossa interioridade. Ao ver mendigos na rua, a maior tristeza é saber que não têm para onde retornar. Desconhecem a bela expressão criada por Virgínia Wolf: “um teto todo seu”. O conceito de liberdade ganha significado ao fecharmos o quarto para descobrir um mundo dentro do mundo.

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Tive a felicidade de, ainda na infância, poder manter a minha privacidade. Isso só me fez amar intensamente os encontros, a troca de ideias e experiências. Essa dialética sustenta o que há de mais saudável em mim. O equilíbrio resulta da capacidade de dosar a solidão e os contatos, aproveitando o melhor em cada um deles. Construí, bem cedo, um desejo candente de participar do espetáculo das gentes; mas também diversas vezes de somente testemunhá-lo. E se plenifica por estarmos ao abrigo dos olhares alheios. Pouco importa se confinados em mil ou cinquenta metros quadrados. Aqui se está falando de algo ultrapassando a noção de conforto exterior: é do sentido de recolhimento, potencializado por aquilo chamado de lar. Entender o que se passa na alma, curar velhas feridas ou se regozijar pelo conquistado, ganha ampla dimensão ao nos encapsulamos para, paradoxalmente, ampliar o gosto pela companhia de outrem.

Então, antes de reclamar por estar tantas horas consigo ou com quem escolheu para morar, lembre: você é um afortunado, tem uma família para chamar de sua. Ali estão sendo construídas as memórias e elas nos sustentarão quando o corpo se entregar à fragilidade, aprendendo a se despedir. Ao trancar uma porta, estará abrindo infinitas janelas para abrigar a sua intimidade. Substitua o fastio pela gratidão. Lá distante, os ruídos; aqui, o silêncio macio a nos aproximar de nós mesmos.

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