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Opinião17/07/2020 | 07h00Atualizada em 17/07/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: como ser virtuoso

Posar de bom moço gera likes e dá considerável polida na imagem

Em tempos de aumento exponencial do uso das redes sociais, evidencia-se um fenômeno que merece reflexão. Dois, aliás. Além de muitos se esforçarem para tornar públicas suas ações meritórias, credenciam-se como fiscalizadores contumazes das práticas alheias. Será o efeito colateral dessa segunda praga, chamada de politicamente correto? É claro que certo monitoramento da linguagem ajuda a impulsionar varreduras nos preconceitos. Eles se instalam antes no imaginário, depois migram para a ação. Dizer tudo, sem filtrar o que vai pela cabeça, é dar espaço a intermináveis asneiras. Carecemos dessa vigilância para manter minimamente a civilidade. O ruim é quando vira mandamento, credo, entusiasmo cego - vigiando com lupa a conduta do outro. Posar de bom moço gera likes e dá considerável polida na imagem. Aí é que está o problema: mais do que parecer, é preciso ser. Isso se potencializa nestes dias em que tudo é necessariamente explícito e testemunhado. Encontramos em Aristóteles esta definição: “As verdadeiras virtudes são tímidas.” Grandes escolas de filosofia também preconizam essa verdade. “Que tua mão esquerda não veja o que a direita faz”, está sentenciado na Bíblia. De onde se conclui que tornar público o que é da ordem do reservado tem a ver com ego, antecedendo a generosidade.

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Não dá para colocar todos os gatos no mesmo saco. A raça humana legou exemplos estupendos de criaturas que dedicaram sua vida para promover o bem comum. Se isso foi se disseminando e adquirindo respeito coletivo, é com certeza a consequência natural de tais atos, não de algo premeditado para angariar admiração. Hoje, ai dos que se contentam com o anonimato. Virou quase doença que precisa de erradicação urgente. Quantas pessoas se orgulham de jamais terem feito uma Live, por exemplo? Sinal inequívoco de que estar exposto obtém pontos. Esse desejo é de quem fica de plantão contabilizando o que é digno de crédito e o que deve cair em reprovação, sentindo-se isentados de ir à luta para mudar a geografia de carência do mundo. A dedicação, o despojamento, são revelados meio que ao acaso, raramente buscam a incidência dos holofotes.

Há alguma coisa de positivo em tudo. Criticar em excesso paralisa, pouco agrega. Mas é vital sinalizar os exageros de uma época em que nos espelhamos nas atitudes que viralizam nas telas e passam por referência, modelo. Nem é determinante criar ONGs para mostrar que você é legal. Desligue o radar da vaidade e incentive em campo o que ainda permanece refém do vocabulário. Vamos aproveitar e demitir o conhecido guarda interior, esse que sabe em qualquer circunstância o que fulano “deveria” ter feito. A contenção é excelente termômetro para avaliar a quantas anda o nosso caráter.

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