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Opinião29/07/2020 | 07h00Atualizada em 29/07/2020 | 07h00

Ciro Fabres: tempo perdido

A pandemia, além do estrago sanitário contabilizado em vidas perdidas, nos toma o controle sobre o tempo e afronta nossa cultura

Quanto tempo temos? Além da gravidade de seu aspecto sanitário, a pandemia nos embaraça todo, nos faz enredar no tempo. Queremos e pretendemos não perder tempo na pandemia. Porém, o tempo possível para viver, para conviver, para sobreviver precisa ser o tempo ditado pela realidade. Cabe a nós, quando agimos com a maturidade necessária, a análise, a interpretação e a compreensão adequada dessa realidade. Isso, por óbvio, não é tão rápido, nem simples como gostaríamos, em especial quando o tempo é de pandemia. O tempo, portanto, precisa estar ajustado à complexidade de cada assunto, de cada cenário, de cada decisão. É a pandemia quem dá as cartas. Atropelar a realidade é aumentar a chance de erros.

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A pandemia nos confronta com o tempo. E o tempo, nesse caso, conspira contra, porque assim nos acostumamos. Porque aprendemos a ter pressa de viver. É a armadilha em que nos metemos: a cultura de resultados. Fabricamos esse estilo de vida. Porém, na pandemia, as soluções se demoram. Pretendemos abreviar o tempo para voltar a produzir, para correr atrás da sobrevivência, para voltar às aulas, de sair para se divertir. "Quanto tempo tem pra matar essa saudade? E o tempo logo traz ansiedade", nos lembra a música de Daniela Mercury. E quando as respostas se demoram quando se tenta observar o tempo da realidade para reduzir danos, vem a impaciência: não podemos perder tempo. A pandemia, além do estrago sanitário contabilizado em vidas perdidas, nos toma o controle sobre o tempo e afronta nossa cultura, interrompendo e colocando obstáculos aos resultados. Eis a força do novo coronavírus.

A humanidade vive de harmonizar a convivência com o tempo. Sábio é saber conviver com o tempo, a partir da identificação das exigências da realidade. E não tem jeito, o tempo é o senhor da razão, na frase popularizada pelo ex-presidente Fernando Collor. O tempo nos revelará, lá na frente, com o distanciamento necessário, os erros e acertos de hoje. Neste particular, Collor tinha razão. Dar tempo ao tempo é uma expressão sábia e popularizada. A natureza tem seu tempo é outra verdade, e a natureza costuma nos ensinar. Recomenda-se, portanto, não brigar com o tempo, não forçar a barra.

"Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou." Renato Russo traduz o peso do tempo. Mas ele logo nos oferece outra dimensão, mais generosa e tranquilizadora: "temos nosso próprio tempo, temos todo o tempo do mundo". Tempo que, no entanto, se vai pelo ralo para quem fica pelo caminho na pandemia da covid-19. Esse sim é um tempo perdido. Quanto tempo temos? É bom prestar atenção na realidade.

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