André Costantin: Caxias morreu - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião23/07/2020 | 07h00Atualizada em 23/07/2020 | 07h00

André Costantin: Caxias morreu

Fui a arquitetura da cidade de madeira, dos templos; o corpo dos santos colonos

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Nasci e cresci no alto da serra do Rio Grande do Sul. Nesse chão de basalto, finquei minhas raízes com força sem fim. Uma vontade antiga de matar a fome, minha, dos meus ancestrais, de todos os tempos. Em 145 anos de história, desde os primeiros olhares e passos dos habitantes de além-mar, tornei-me uma rainha urbana – uma das mais vistosas do sul do Brasil.

Semente, caí nas pedras. O destino insondável dos ventos plantou-me neste capricho geográfico: a crista divisora das águas que escoam, a leste, para o Rio Caí (ao vale dos alemães); a oeste, para o Rio das Antas (o rio dos italianos). Aqui nestes morros, entretanto, não havia rio navegável, nem boas estradas. Foi preciso muita indústria e muita teimosia para chegar onde cheguei.

Leia mais
André Costantin: ainda cães
André Costantin: alma cachorra

Bem perto do meu coração, quando o progresso foi chegando, ergueu-se o busto de mármore do grande poeta florentino Dante Alighieri, em honra à língua-mãe dos pioneiros – que no início falavam dialetos, amalgamados aos poucos em uma nova fala, comum, particular.

Havia uma outra gente e outra história neste horizonte acidentado antes de mim. Mas não chegou a ser muito bem contada. Foram civilizações que não conheceram a fotografia, por exemplo; por isso morreram duas vezes, como bem notaram os historiadores.

Mas isso é conversa para antropólogos, viajantes do abstrato, poetas. E vocês sabem que o meu negócio é crescer, progredir, gerar alimento, metais, riquezas. Ir tão alto e fazer sombra a todas as demais. Sou um parque do sol, uma heliófita, espécie solar. Domino a paisagem.

Meus primeiros tempos foram de isolamento, mas em duas décadas de vida comecei a ouvir – para o bem e para o mal – a música das oficinas e, logo, das grandes metalúrgicas; o compasso desvairado e arrivista do comércio, depois os cortejos de máquinas e automóveis, a nossa urbanidade encaixotada, em volta de mim.

Fui o primeiro alimento, antes do milho, do trigo, da uva e do vinho. Vi o sol brotar das panelas – a polenta. Fui a arquitetura da cidade de madeira, dos templos; o corpo dos santos colonos. Fui o calor dos invernos. Alimentei a faina das serrarias e tanoarias. Fui a vida. E, ao fim – com a licença de mestre Touguinha –, nas tábuas do caixão, a morada derradeira das minhas gentes.

Fui eu mesma, velha araucária, a própria cidade. Desde o nascer até o morrer, neste mês de julho do ano de 2020, na chácara dos Eberle, abatida sem cerimônia por um homem e sua motosserra. No meu balanço final, tombando, avistei o imortal Dante, na praça: adeus!, Caxias.

Leia também  
Projeto Lives da Cultura Garibaldi recebe inscrições até esta sexta
Caxias e Bento Gonçalves compram remédios para tratamento precoce de covid-19
Amesne é favorável a mudança para dar mais poder aos municípios no sistema de bandeiras do Estado                                        

 
 
 
 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros