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Opinião16/07/2020 | 07h00Atualizada em 16/07/2020 | 07h00

André Costantin: ainda cães

Prefiro ter de negociar minha existência passageira com um baita pastor alemão, guardador de uma casa-monstro na baixada da Linha 30, do que travar relação com certos humanos

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Tenho escrito meus diálogos caninos de bicicleta para, de certo modo, talvez covarde, evitar os temas mais imediatos da nossa humanidade – ou, da nossa desumana brasilidade. Pois só agora, tarde demais, dei-me conta do tamanho da ilusão que vivi, desde a juventude, uma ilusão gigante pela própria natureza, ilha mítica perdida nos mares do mundo: o Brasil.

A expectativa de reencontrar pelo caminho o feroz e irredutível Johnny, solto, ou ter de fugir do cão petiço, branco, de pelo curto, que ontem à tarde me perseguiu uma vez mais com os dentes arreganhados na beira de um parreiral, são cenas de quase repouso, de fuga mental.

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Ser corrido por um guaipeca na friagem do Tega tem sido menos enfadonho do que encarar o centro da cidade e constatar, como quem acorda de um coma, que ainda precisamos de muitos anos – nós, humanos, brasileiros, subgrupo caxienses –, para aprender a falar, caminhar, comer, espirrar, usar máscaras corretamente – se uma pandemia mundial assim o exigir.

Outros níveis de relações humanas, tais como ler, entender, dialogar, saudar, negociar, construir (inclusive prédios), abstrair (do dinheiro, sobretudo), talvez precisem de outro século para evoluírem a outro patamar. Não precisamos buscar distantes filosofias para este diagnóstico. Isso já observava o ancião Quelbel Pineto nas páginas do livro Os pesos e as medidas (de 1980), de Italo Balen, escritor daqui – que poderia ser objeto de estudo nas escolas.

Mas estudar e interpretar são miragens no horizonte dos exércitos – incluindo marinhas e aeronáuticas – de pessoas que hoje orgulham-se de escrever errado, intubados nos seus smartphones – espelhados no modelo máximo da nossa tosca república, cujo nome é desnecessário e sofrível escrever. Pior: talvez nunca cheguemos lá. Lembro de um mantra universal da doutora Cleodes Piazza, outra intérprete da nossa identidade: “o processo civilizatório é longo, penoso, e nem sempre se completa”.

Então, voltando ao mundo canino: prefiro ter de negociar minha existência passageira com um baita pastor alemão, guardador de uma casa-monstro na baixada da Linha 30, do que travar relação com certos humanos, revestidos de autoritarismo, capazes de pisar no pescoço de uma mulher, negra e pobre. O cão pastor, ontem, não via cor e classe. Aliás, bem mais inteligente e civilizado que o seu dono, que, embarcado numa potente BMW branca, ignorando-me, acionou o portão da casa, deixando-me frente a frente com o cão. Ah! – fôssemos nós ainda macacos, ainda cães!

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